À primeira vista pode parecer apenas uma planta ornamental, colocada em jardins, quintais ou à entrada das casas. Mas quem cresceu no meio rural sabe que a fiteira é muito mais do que uma planta decorativa. É uma planta carregada de utilidade, memória e sabedoria popular — um verdadeiro exemplo de como o património natural se transforma em património cultural vivo.

A fiteira, de nome científico Cordyline australis, é uma planta originária da Nova Zelândia que se adaptou muito bem ao nosso clima. Trata-se de uma planta resistente, capaz de suportar vento, seca e solos pobres. Desenvolve um tronco robusto e uma copa de folhas longas, estreitas e fibrosas, que podem ultrapassar um metro de comprimento.

Do ponto de vista biológico, essas folhas são extremamente ricas em fibras naturais, o que explica a razão pela qual, durante gerações, foram utilizadas pelas populações rurais como matéria-prima para cordas, atilhos e diversos objetos utilitários do dia-a-dia.

E é aqui que a ciência se cruza com a cultura.

Na minha freguesia — como em tantas aldeias do nosso país — a fiteira fez sempre parte do quotidiano das pessoas. Ainda hoje, se formos a casa de um lavrador comprar produtos da horta, como salsa, nabiças ou couves, é comum vê-los amarrados em molhos com folhas de fiteira. Há também quem continue a fazer cabos de cebolas atados com estas folhas, tal como faziam os antigos.

Mas talvez o uso mais curioso esteja ligado à viticultura. Depois de desfiadas em tiras finas, as folhas de fiteira eram colocadas na presilha das calças dos agricultores, prontas a usar. Serviam para atar os ramos das videiras aos arames das ramadas, guiando o crescimento das vides. Durante as podas das árvores de fruto ou das videiras, ainda hoje é possível ver alguns agricultores com as tiras de fiteira presas entre os dentes enquanto seguram o ramo para o amarrar.

Gestos simples, mas cheios de conhecimento prático.

Antigamente, os jovens também encontravam na fiteira matéria-prima para as suas brincadeiras. Faziam tranças com as folhas, criando pequenas cordas que depois serviam para brincar. Já os mais experientes sabiam fazer algo mais elaborado. Apanhavam as folhas secas — ou arrancavam-nas ainda verdes — e deixavam-nas secar durante dois ou três dias. Depois mergulhavam-nas em água até atingirem o ponto certo de maleabilidade. A partir daí começava o verdadeiro trabalho artesanal: desfiavam as folhas em fios finos e entrelaçavam-nos, criando cordas surpreendentemente resistentes. Em alguns casos utilizavam as folhas inteiras ou em tiras mais largas para produzir cestos ou cortinas de fiteira.

Para alguns artesãos, este saber representava mais do que habilidade manual. Representava uma pequena economia de subsistência, onde a natureza fornecia a matéria-prima e o conhecimento tradicional fazia o resto.

Talvez por isso, em muitas aldeias portuguesas, ainda hoje se diz que “em terra de lavrador há sempre uma fiteira”. Não apenas pela sua utilidade, mas pelo simbolismo que carrega. Muitas pessoas continuam a plantá-la junto às casas como uma forma de manter viva a ligação ao passado, às suas memórias e às tradições da vida rural.

Deste modo, o património natural serve e transforma-se numa poderosa ferramenta de educação ambiental, que se torna mais forte quanto mais mesclado, envolvido e próximo das pessoas estiver.

Quando percebemos que uma simples planta ornamental pode servir para atar cebolas, guiar videiras, fazer cordas, construir cestos e até sustentar pequenas economias locais, percebemos também que a natureza nunca foi apenas paisagem. Sempre foi ferramenta, conhecimento e cultura.

Enquanto gestor do património e técnico de educação ambiental, gosto muitas vezes de recordar que as plantas não contam apenas histórias biológicas — contam também histórias humanas. E a fiteira é um exemplo claro disso mesmo.

Agora pensemos um pouco…

Quantas fiteiras vemos todos os dias sem lhes prestar atenção? E quantas histórias, engenhos e memórias estarão escondidas nas suas folhas?

Porque, no fundo, é disto que falamos quando falamos de património vivo. Daquilo que cresce à nossa volta… e que continua a ensinar, geração após geração.

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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