Há direitos que definem uma democracia. O direito de voto é um deles. A liberdade de expressão é outro. E o direito à greve ocupa também esse lugar de destaque, conquistado ao longo de décadas de lutas sociais e politicas. Não existe greve sem liberdade.
Num regime autoritário, quem protesta arrisca a perseguição; numa democracia, o protesto é reconhecido como uma ferramenta legítima de participação cívica. Mas a existência de um direito não elimina a responsabilidade do seu exercício. Nos últimos anos, tornou-se frequente assistir a greves cuja adesão parece resultar mais da rotina do que da convicção.
Há trabalhadores que conhecem profundamente as reivindicações em causa, que ponderam os custos pessoais da paralisação e que assumem a greve como uma forma de pressão legítima. Porém, também existem situações em que alguns aderem sem conhecer os detalhes do conflito, sem compreender as propostas em discussão ou sem avaliar o impacto da sua decisão. Quando isso acontece, a greve corre o risco de perder parte da sua força moral.
Um instrumento criado para defender direitos transforma-se num gesto automático, esvaziado da reflexão que lhe deveria dar sentido. A democracia vive de participação consciente, não da repetição mecânica. Mais problemático ainda é quando a greve é encarada como uma oportunidade de descanso ou como um simples prolongamento do fim-de-semana. Naturalmente, ninguém pode conhecer as motivações individuais de cada pessoa.
Mas a perceção pública de que alguns utilizam um direito coletivo para fins estritamente pessoais acaba por prejudicar a imagem de todos os que fazem greve por razões legítimas. O resultado é perverso: enfraquece-se a credibilidade das reivindicações, aumenta-se a desconfiança da sociedade e oferece-se argumentos fáceis a quem gostaria de limitar ou desvalorizar esse direito fundamental. A questão central não é ser a favor ou contra as greves.
Numa sociedade livre, elas continuarão a ser necessárias sempre que o diálogo falha ou quando os trabalhadores entendem que os seus interesses não estão a ser devidamente considerados. A verdadeira questão é outra: estaremos a exercer este direito com a consciência e a responsabilidade que ele exige? A liberdade não se mede apenas pelos direitos que possuímos. Mede-se também pela maturidade com que os utilizamos. E talvez seja essa a reflexão que importa fazer.
Uma greve feita por inércia, desconhecimento ou conveniência pessoal arrisca-se a enfraquecer não apenas a sua causa, mas o próprio valor do direito que a torna possível. Porque num país livre, os direitos são conquistas preciosas. E as conquistas mais importantes merecem sempre ser exercidas com conhecimento, responsabilidade e sentido de cidadania.
Nuno Ferreira – TSD LOUSADA













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