Tanto ou mais fascinante do que atravessar uma ponte pode ser descobrir aquilo que se passa e acontece nela mesma. Afinal, as pontes podem proporcionar outras experiências e memórias mais marcantes e peculiares.
E acredito que não sou o único com esta motivação.
A maioria de nós utiliza pontes quase todos os dias. Passamos por elas de carro, a pé ou de bicicleta e raramente pensamos muito no assunto. Servem para chegar ao outro lado e seguimos caminho. Todos conhecemos pontes. Algumas mais antigas, outras mais recentes. Umas de pedra, outras de cimento e outras ainda construídas com ramos e troncos de árvores caídos, aproveitados por aquelas poucas pessoas que ainda por lá passam, de uma margem para a outra.
Algumas já têm ciclovias. Outras permitem a passagem de tudo e de todos, sem distinções. E agora até já há a moda, imagine-se, de construir pontes para animais silvestres. E bem, digo eu!
Finalmente começamos a perceber que a vida não pertence apenas aos seres humanos. Também os animais precisam de se deslocar, procurar alimento, reproduzir-se e ocupar os seus territórios.
Mas vamos falar das pontes de que nos lembramos. Daquelas que nos fazem recordar a infância. Daquelas que nos fazem lembrar uma pessoa. Um lugar. Uma história. Ou simplesmente um momento especial.
Uma ponte é uma invenção engenhosa que aproxima pessoas, cria caminhos e encurta distâncias. Mas também proporciona experiências, emoções e lembranças que ficam connosco durante anos.
Há pessoas que têm medo de atravessar pontes, por exemplo. Outras adoram fazê-lo.
Há quem as procure para vislumbrar a paisagem. Há quem procure adrenalina e fazer desportos radicais nas pontes. Há quem goste apenas de parar ali para ouvir a água correr. E há também quem encontre numa ponte um abrigo em momentos difíceis da vida.
Lembro-me de ouvir contar, quando era criança, que num inverno particularmente rigoroso a água chegou a galgar a ponte de Sousela, junto à igreja. Como assim? Como é que a água podia galgar a ponte se entre o ribeiro e o tabuleiro existe uma distância tão grande?
Durante muito tempo aquilo não fez sentido para mim. E talvez por isso, sempre que passava por lá, olhava para o ribeiro e tentava imaginar a força da água nesse dia.
Ao longo da vida tenho tido a sorte de passar por muitas delas. Ora porque o caminho assim o dita, ora porque a vida nos leva para outras margens. Mas aquilo que mais me fascina continua a ser aquilo que existe por baixo delas.
Gosto muito de parar sobre o tabuleiro de uma ponte, quando é possível, obviamente e, enquanto ali estou, aproveito para olhar para cima para ver as nuvens e observar aves. Perceber a paisagem.
Mas depois surge inevitavelmente a vontade de olhar para baixo. E é aí que começa outro mundo.
Se houver água, podemos observar peixes a nadar, alfaiates a deslizar sobre a superfície, aves que vão ali beber, rãs ou tritões escondidos entre a vegetação aquática.
Nas margens podemos ter a sorte de encontrar lagartos-de-água, sardões, lagartixas ou até alguma cobra-de-água a termorregular.
Entre a água e a margem podem surgir vestígios que contam histórias. Já vi pegadas de pequenos mamíferos, penas de aves, dejetos de lontra, pelos de raposa, marcas de cão e até sinais de passagem deixados por pessoas.
Por isso uma ponte pode proporcionar experiências completamente diferentes, dependendo da sensibilidade de quem a observa.
Dizem por aqui que, no tabuleiro do viaduto de Sousela, existem colónias de morcegos e que nas noites quentes de verão é um espetáculo observá-los a sair dos seus abrigos, a caçar insetos e a executar aqueles voos repentinos que parecem desafiar todas as leis da física.
No território de Lousada gosto particularmente de visitar a Ponte de Espindo, em Meinedo, e a Ponte de Vilela, em Aveleda. Já em Paços de Ferreira fascinam-me a Ponte Joanina, na freguesia de Carvalhosa, e a Ponte Nova, no coração da cidade.
Algumas impressionam pela antiguidade das suas pedras. Outras pela elegância da engenharia que lhes deu forma. Mas todas contam uma parte da história das comunidades que serviram. Cada uma tem a sua história e a sua personalidade. E todas elas convidam qualquer curioso a parar, observar e compreender melhor o território onde se inserem.
Talvez seja por isso que as pontes sejam tão especiais. Porque acabam por ligar muito mais do que margens. Ligam memórias. Ligam pessoas. Ligam comunidades. Ligam património natural e património cultural.
No fundo, as pontes e os viadutos das nossas terras são oportunidades para nos conhecermos a nós próprios através delas.
São oportunidades para descobrir a arquitetura, a engenharia, a biodiversidade, a história e as relações que construímos com os lugares.
Gostava um dia de fazer uma rota pelas pontes das nossas terras, acompanhado por quem as conhece e por quem simplesmente tem curiosidade. Não para atravessar rios, mas para partilhar conhecimentos e para descobrir a vida que existe para além da travessia.
Agora pensa:
Qual é a ponte de que mais te lembras? O que te faz lembrar essa ponte?
E quando foi a última vez que paraste sobre ela apenas para observar aquilo que existe à sua volta?
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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