por | 8 Jul, 2021 | Canto do saber, Opinião

Europeu de Futebol como incentivo à vida

Opinião de Eduardo Moreira da Silva

Estar numa fase final de uma competição como a do Europeu de Futebol é, sempre, um motivo de recrudescimento do sentimento patriótico. Todo aquele que vive a competição, sejam eles adeptos, jogadores ou outros atores são tomados de uma motivação especial, algo os inspira, qual ritual que alimenta a espiritualidade, o ego do indivíduo. 

A competição assume-se como um tipo especial de guerra, onde os povos projetam os seus anseios de se sobrepor aos outros. A ideia é a de que a vitória torna esse povo mais capaz que o da equipa vencida. As emoções vão ao rubro, raramente se perdoa que os jogadores não se portem como guerreiros, que não atinjam o grau de superação que a massa dos seguidores jamais seria capaz, mas que traz recalcada. Embora não tendo sido por escolhidos, pelo menos de forma direta, os jogadores, treinadores e restantes técnicos representam essa massa disforme predisposta à ilusão.

Tal como numa guerra, um campeonato deste tipo encerra com uma cerimónia de vitória, a qual é concebida, não apenas para celebrar o vencedor, mas, também, para dar corpo ao estabelecimento de um novo ciclo, onde tudo será novo, pouco ou nada restará do que existia antes desse campeonato que termina.

Vencedor só pode haver um, é um lugar-comum. Aquela nação que vê a sua equipa triunfar vê a sua autoestima elevar-se, a ilusão a tornar-se uma realidade ainda que perene, inebriando-se com o momento que faz parte do seu viver enquanto a vida está lá, completamente imune a toda essa dimensão performativa tão própria do ser humano.

No entanto, subiste a questão da valorização. Desporto não é guerra, embora, como, eventualmente, qualquer jogo, possa assumir essa representação. É certo que o seu papel inspirador deve ser sempre conservado. Se pensarmos bem, é o que acontece. Quantas equipas, representantes de países mais ou menos desenvolvidos, gostariam de estar numa fase final destas e, ainda, de chegar a esta ou aquela etapa dessa fase? O privilégio é o de prolongar a participação na competição, o de jogar novas etapas, ou como se utiliza hoje para jogos eletrónicos, novos níveis.

O facto de se ser eliminado mais cedo ou mais tarde, com certeza tem a ver com a competência, mas também com aquilo que a vida tem de contingencial, o que muitos gostam de chamar de sorte ou azar. Portanto, nada obsta a que se valorize a participação, aquilo que se alcança, que por pouco que se possa considerar, envolve sempre esforço, trabalho, dedicação, ilusão, enfim, vontade de competir, de representar a sua nação da melhor maneira. São indivíduos que representam outros indivíduos, mas que são seres humanos diferentes entre si, tendo apenas em comum, num espaço temporal que pode ser limitado, um determinado sentimento e objetivo comum, tudo o resto é diverso. Nesta diversidade está o viver que transcende a vida. Vida que, de forma ampla, transcende esse viver e que justamente não se compadece com o viver de cada um. Logo sai claro que há que valorizar o viver, aquilo que temos, aquilo que se alcança, por ínfimo que possa parecer. A medida desse pouco não pode ser a vitória dos outros, mas aquilo que temos, nos deixam e somos capazes de atingir. É este o incentivo ao viver, ao aproveitar a vida tal como ela é, admitindo limites a esse viver, que estão, bem marcados, na circunstancialidade da vida.

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