A Poesia Popular (I)

Quando se fala em poesia popular temos forçosamente de recuar no tempo, uns bons oito séculos de história, para se perceber o quanto era importante na vida das pessoas a criação de versos como forma de “desabafo” ou até de crítica social.

A manifestação artística cultural que provinha e ainda hoje provém da criatividade e da inteligência das pessoas, utilizando os versos, principalmente em quadras, mas também em sextilhas, para manifestar factos históricos importantes como o amor, as paixões, o heroísmo, as lendas, os mitos, o escárnio, o ódio, a religião, as superstições, os romances, e ainda nas modas, nos mexericos, nas intrigas, nos boatos, nas cantigas dedicadas aos trabalhos do campo, nas lamentações cómicas e burlescas, e no “canto ao desafio” (desgarradas) que era uma das mais desejadas diversões do povo.

Em Lousada, como no resto do país, a poesia também tem raízes muito antigas, representando diversos movimentos artísticos populares pelos quais a região passou até ao início do Romantismo (por volta de 1815) e a partir daí, aproveitando o surgimento do “culto” pelo folclore em Portugal, através das composições poéticas populares de tradição oral, trazidas a público pela “pena” de Almeida Garrett, com a publicação da primeira coletânea do Romanceiro (Cancioneiro) Popular Português que publicou em 1843 e 1851. Almeida Garrett sentiu e compreendeu a importância do “Grande Livro Nacional” que é o povo e as suas tradições, e foi acompanhado por Teófilo Braga (1843 – 1924), pioneiro nos estudos e recolhas de contos e canções tradicionais, elevando a poesia popular portuguesa a um patamar nunca antes visto e que ainda hoje está intrinsecamente enraizado na etnografia e na poesia popular tradicional como reportório poético da essência do nosso povo.

A poesia popular atingia um alto cunho poético e uma familiarização das gentes com a sua própria identidade e maneiras de viver em sociedade, quando era “cantada” à soleira da porta, à lareira nas noites frias de inverno, nos serões aquando dos trabalhos do linho, nomeadamente nas espadeladas, no urdir e fiar o linho e na sua tecelagem e bordagem, nos momentos de lazer e ócio, nas festas e romarias…

A veia poética e a notável memória das gentes que inventavam, improvisavam e recolhiam em suas mentes tais rimances, cantarolavam-nos em variados eventos sociais, nas Festas religiosas e pagãs, mas principalmente nos trabalhos do campo, nomeadamente nas sachas, nas desfolhadas, nas espadeladas, nas vindimas e nas ceifadas do centeio, ou então, as mulheres cantavam bem alto para que os rapazes ouvissem e soubessem onde estavam e aonde iria haver a “festa das colheitas”. Não havia telemóveis!…

A poesia popular de Lousada está cheia de poemas que pertencem por direito próprio a um património cultural relacionado fundamentalmente com três vertentes ligadas ao povo e seus usos e costumes: – a ironia e crítica social; os trabalhos do campo e a religião (Santos e Festas de Ano).
Acompanhamos com todo o prazer ao longo de mais de 30 anos a saudosa Ana Perdigão, grande conhecedora e entusiasta do folclore lousadense e da região de Entre Douro e Minho, deixando-nos no seu livro “MEMÓRIAS DA MINHA GENTE” (Os trabalhos do campo em Meinedo – Lousada) um legado importante para a nossa identidade cultural.
Dizia-nos a Aninhas (assim era conhecida no seio da sua comunidade), por muitas e variadas vezes que estivemos juntos nas recolhas e no desenvolvimento das atividades etno-folclóricas ligadas ao Grupo Folclórico e Cultural As Lavradeiras do Vale do Sousa de Meinedo:

  • “O povo português, na sua ingenuidade criadora, compõe verdadeiras obras-primas da poesia de forma genuína e verdadeira.”
    Não era bem por estas palavras, elaboradas por nós, mas que traduzem a sua forma simples e genuína de nos contar a realidade das coisas, próprias de uma pessoa do campo e sempre ligada às lides agrícolas e à cozinha tradicional de Lousada, onde o anho assado no forno de lenha, temperado e cozinhado por ela, era de “comer e chorar por mais”!….
    Contava-nos ela que o povo na sua simplicidade e inteligência, criavam imensos versos que não ficavam nada mal à beira daqueles criados pelos verdadeiros poetas, tanto no seu interesse cultural como nas mais variadas mensagens que queriam transmitir, quase sempre tendo em linha de conta o trabalho árduo ligado aos campos, ao sofrimento do dia a dia para pôr o “pão” na mesa para o marido e filhos, e, também ao namoro e ao amor, bem como a tudo o que estivesse relacionado e ligado com a Igreja Católica e por vezes ligados ao lazer e ao convívio social.
    Extraímos do seu livro duas quadras (pág. 101) muito antigas, que demonstram a forma fidedigna que as pessoas expunham a suas realidades:

I
Nós vimos ali de cima
Meinedo é nossa Terra
Nós somos as Lavradeiras
Que trabalhamos a terra.
II
Que trabalhamos a terra
Que fabricamos o pão
Nós somos as lavradeiras
“Co(u)mprimos” a obrigação!…
(CONTINUA)

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