BioEscola e BioLousada continuam com sucesso no mundo digital

José Diogo Fernandes, diretor de O Louzadense, esteve à conversa com Manuel Nunes vereador do ambiente, e com o biólogo Pedro Sá, responsável pelo projeto Bioescola. A incontornável pandemia foi um dos temas abordados, até porque tem condicionado muito do trabalho que estava a ser desenvolvido na área ambiental, especialmente aquele realizado em parceria com as escolas do concelho. Mas, a ênfase da conversa foi a aposta no mundo digital como forma de manter vivos os projetos ambientais desenvolvidos no concelho.

Tempo para rever a posição do ambiente na lista das prioridades
Manuel Nunes refere-se aos tempos de isolamento como estranhos, mas também propícios à reflexão e ponderação daquelas que poderão ser as prioridades futuras. “Percebemos subitamente que a nossa existência e impacto sobre o que está à nossa volta afinal resume-se a coisas tão pequenas, que nem as conseguimos ver, mas que nos afetam de tal forma que acabamos por nos ver enredomados em casa, em espaços muito reduzidos”, comenta. Entre as prioridades, que o vereador admite estarem invertidas, contam-se as ambientais: “Nunca foi tão premente ponderar, pensar e refletir nas questões ambientais como neste momento.

Paradoxalmente, só estamos a viver este problema porque de facto, durante demasiado tempo, não soubemos conviver com a natureza como ela merece e como ela tem de ser vivida. À medida que, cada vez mais, nos intrometemos nos processos naturais, acabamos por mexer e abrir caixas de Pandora”, defende, mostrando-se otimista quanto à possibilidade de construir algo diferente.

O BioEscola é um programa de educação ambiental do município desenvolvido em parceria com as escolas públicas e privadas do município de Lousada. Neste âmbito, Pedro Sá estava habituado a correr o concelho num só dia, mas viu, de um dia para o outro, o seu trabalho ser completamente afetado. “Isto de parar, trouxe muitos desafios e uma quebra quase total no que eram as nossas perspetivas para o futuro. Tivemos que refletir muito e perceber para onde é que podíamos ir”, refere.
Esta pausa nas atividades, que se estavam a desenvolver, mostrou a capacidade de adaptação dos profissionais que trabalham na área. “Aprendemos muito num curto espaço de tempo e, acima de tudo, mostramos que somos muito adaptativos”, afirma.
Para este biólogo, esta pandemia poder-se-ia ter evitado se a prioridade tivesse sido o trabalho para a sustentabilidade. “Temos de antecipar estes problemas, acima de tudo”, sustenta.

BioEscola em grande nas plataformas digitais

Parado no terreno, o BioEscola continua em grande no plano digital. A paragem permitiu encetar outros projetos que estavam já a ser pensados há algum tempo. “Já era um desejo que vinha de trás, chegarmos a mais sítios e com as plataformas digitais”, explica Pedro Sá.
Partilhar os projetos e conteúdos com uma comunidade mais alargada e não apenas ao concelho de Lousada é a grande vantagem do mundo digital. Com uma nova roupagem, pretende-se que os conteúdos agradem a alunos de várias faixas etárias, incluindo o pré-escolar. “A nossa primeira adaptação foi a dos conteúdos, que ainda não foram transmitidos, começando a trabalhar diversos temas e programas. Temos agora um canal no Youtube, e o próximo programa é dedicado, por exemplo, ao pré-escolar. Esse episódio vai ser todo feito em animação. Vamos ensinar o mundo da nossa educadora Flora”, descreve.

O BioEscola passou assim para o digital, mas os projetos não se ficam por aqui. “Queremos fazer coisas diferentes. Quem sabe no futuro, via web, uma aula digital um bocadinho diferente, que chegue às casas de alguns alunos. Queremos continuar a ser interessantes, pertinentes e interventivos através destes nossos conteúdos”, garante.

BioLousada entra na casa das pessoas diariamente

O vereador Manuel Nunes reconhece também que esta pausa é tempo de oportunidades noutras áreas, para as quais, até agora, não havia “margem de manobra”. A criação de sessões meramente digitais tornou-se incontornável. O Vereador lembra, que o BioLousada é um projeto educativo na área do ambiente para as famílias e acontecia regularmente uma ou duas vezes por mês, geralmente ao sábado, sendo muito concorrido e com temas muito interessantes sobre o património natural de Lousada. “Vinham participantes com muita regularidade, de todo o país, e investigadores desta área”, menciona. O cancelamento do BioLousada fez nascer a ideia de transpor o programa para a versão digital. “Curiosamente, em vez de o termos de quinze em quinze dias, passamos a tê-lo todos os fins de semana e com muito sucesso”, garante com satisfação.

No BioLousada são abordados temas muito diversos, por diferentes pessoas. “A primeira foi um fotógrafo da natureza e de viagens, que levou as pessoas a viajar por Madagáscar e a outros locais do mundo. Essas viagens virtuais despertaram o interesse para as sessões seguintes”, conta Manuel Nunes. A programação digital tem uma vantagem, que é a captação de público que normalmente não se deslocava a Lousada para participar.
BioEscola digital chega já a mais de metade dos alunos
Pedro Sá adianta que o BioEscola no Youtube tem um destaque grande: “Conseguimos cerca de duas mil visualizações com um horizonte de 3500 alunos. Já conseguimos uma boa fatia dos mesmos. Vamos tentar perceber no futuro se os conteúdos foram do agrado ou não”, refere, acrescentando que esse feedback permitirá delinear a estratégia futura.

“Por mais que caminhemos digitalmente, por mais que leiamos ou conheçamos, nada – absolutamente nada – substitui a experiência e a participação numa sessão sobre os gigantes verdes”

A Casa das Videiras tem assumido, nos últimos tempos, um destaque importante no âmbito do projeto ambiental da autarquia, mas as restrições devido à pandemia não permitirão que receba tantos participantes. Ainda assim, o vereador do ambiente acredita que continuará a ser importante e que um dia será retomada a normalidade, “até porque eu acho que, por mais que tenhamos que promover o contacto digital, há algo que é insubstituível – o contacto pessoal, afetivo com os investigadores e com aqueles que nos visitam”, defende. Acrescenta: “Por mais que caminhemos digitalmente, por mais que leiamos ou conheçamos, nada – absolutamente nada – substitui a experiência e a participação numa sessão sobre os “gigantes verdes” (referia-se a árvores de grande porte), visitá-los ou abraçá-los como algumas pessoas gostam de fazer ou sentarmo-nos sob a sua sombra, compreendendo o volume que aquele ser vivo comporta. É insubstituível!”

O vereador considera fundamental a relação com a natureza, como fonte de bem-estar físico e mental. “O que provavelmente vai acontecer é que estes canais digitais fazem todo o sentido quando combinados sessões presenciais”, afirma, reconhecendo que o digital é uma forma de “ter investigadores e pessoas de todo o mundo”.

Relativamente ao BioEscola o digital assume-se como complementar, pois “nada vai substituir o contacto entre o aluno e professor”.
Pedro Sá também reconhece que as aulas práticas fazem falta, pois “não há o saber sem o fazer”.

Tecnologias dão uma ajuda, mas material português é escasso

Apesar das limitações, os vídeos realizados no âmbito do BioEscola têm recorrido ao software disponível on-line, gratuito ou não, e ao Chroma key, que permite criar fundos digitais com o envolvente desejado. “Há ainda pouco material feito em Portugal sobre estes assuntos”, lamenta. Com o desafio da animação, “vamos ter de partir mais pedra, mas o resultado para nós é entusiasmante e espero que para o público também seja”, diz
Para Manuel Nunes, o importante neste momento é alcançar o objetivo que os move, a conservação da natureza, a educação ambiental e o bem-estar de todos, através da disponibilização dos conteúdos e projetos, que ficam acessíveis a todos. “Foi num momento infeliz, mas, ao mesmo tempo, potenciou uma disponibilidade de tempo para produzir estes conteúdos. Foi uma oportunidade para criar este projeto, que terá outras vertentes, como passar tudo isto para inglês, conquistando público estrangeiro”, adianta.
Manuel Nunes lembra, que a autarquia tem muitos projetos internacionais em curso e o que os convites para integrar novos projetos não param de chegar.

Projeto do Sousa Superior na reta final

O projeto Sousa Superior está já na reta final de aprovação e o vereador aponta para a conclusão do processo em meados de maio. “Se tudo correr como está previsto, apesar dos atrasos, teremos a área classificada e podemos começar com os primeiros projetos no terreno, para concretizar algumas das intenções que foram apresentadas e discutidas pelos nossos concidadãos. Tivemos uma participação massiva e são esses que interessa agarrar neste processo, pois são eles que vão participar e viver a paisagem protegida”, termina.

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