por | 28 Set, 2020 | Canto do saber, Opinião

Da educação para a Cidadania

Despoletada a questão da validade do ensino da cidadania nas escolas, aparentemente por uma pequeníssima minoria, um Pai que terá impedido os filhos de frequentar a respetiva disciplina, invocando objeção de consciência, confesso que o meu primeiro pensamento foi o de ler a situação como uma dessa vulgares desvalorizações de algumas disciplinas, sobretudo daquelas ligadas ao que se convencionou chamar de “Ciências Sociais” , em detrimento de outros que pretensamente aumentam a eficiência e preencham as necessidades da sociedade.

Com o desenvolver dos acontecimentos, resolvi tomar atenção e na verdade se pararmos para refletir a situação é muito mais complexa.

A premissa da desvalorização mantém-se, sobretudo quando vemos as declarações de alguns políticos, descrevendo a disciplina, por exemplo, como um conjunto de orientações para separação do lixo.

Também se assiste à caracterização da mesma disciplina como doutrinária e propondo o enfoque, mais uma vez, por exemplo, nas disciplinas de história e filosofia como não sendo doutrinárias, quando estas são de fato o oposto, sobretudo da forma como são ministradas, aliás como todas as outras. Se existe uma certeza sobre a educação, é a de que ela não é neutra.
No entanto, este fato, o de não ser neutra, não significa que a educação possa estar numa disputa política entre direita e esquerda. A educação é a arma mais poderosa que existe na modelação do futuro dos seres humanos. Uso esta formulação e não a mais corrente, a de dizer futuro das nações, para não cair no cenário onde só há preto e branco, a tal esquerda e direita, mas sim com a opção clara de olhar para o mundo colorido, da vida tal como ela é.

Neste sentido e voltando à disciplina de cidadania, torna-se clara a necessidade da literacia para questões práticas que possibilitem a cada ser humano tomar decisões mais avalizadas. Aqui não pode sequer haver discussão!

Outra coisa é quando se pretende que a disciplina modele escolhas, conforme parece sugerir o despacho 6173/2016 de 10 de Maio de 2016 (o que estabelece a Estratégia de Educação para a Cidadania) que dispõe a determinada altura:

(…) A cidadania, na sua conceção mais ampla integra um conjunto de direitos e deveres que devem ser veiculados na formação das crianças e jovens portugueses de modo que no futuro sejam adultos e adultas com uma conduta cívica que privilegie a igualdade nas relações interpessoais, a integração da diferença, o respeito pelos Direitos Humanos e a valorização de valores e conceitos de cidadania nacional (…)

Aquilo que parece uma evidência, de uma correção política quase poética, na verdade traz com ela vários problemas.

Igualdade, diferença, direitos humanos e cidadania nacional, tudo na mesma frase, sugere uma salada agradável à vista e ao paladar, mas que no fim se torna indigesta.

Sobre que igualdade é que os alunos são levados a refletir, se é o que são?
Diferença? Para haver diferença, tem de haver uma norma, um gabarito, a partir do qual se faz a comparação. Qual é a norma, o gabarito?

Direitos humanos? Sobre que direitos os alunos vão refletir, mais uma vez, se é que vão? Aqueles que estão na Declaração Universal dos Direitos Humanos? Vão decorá-los e ser levados a pensar que é o Estado que os faz cumprir ou uma instituição supra estatal? Os direitos humanos, são os de todos os seres humanos ou de quem é cidadão? O que é ser cidadão português? Quais são os valores a serem “aprendidos”? Quem determina o que são valores e quais?

Há também, professores inclusive, que dizem nada disto ser necessário, porque os professores no seu dia a dia tudo fazem para ensinar os alunos a pensar (????). Ensinar alunos a pensar? Talvez seja um lapso de linguagem, talvez pretendessem, antes, dizer, estimular os alunos a pensar.
O ensino, deveria antes de mais estimular o conhecimento das capacidades de cada um na sua singularidade de modo a cada um conhecer-se suficientemente para ir de encontro à vida que a cada um preenche, à vida boa, aquela que merece a pena ser vivida ao invés de criar autómatos para inserir na linha de produção, onde o único objetivo é o da máxima eficiência, nunca a felicidade, apenas a sua ilusão.
Se a disciplina de cidadania ajuda? O potencial é grande. Mas é necessário o cuidado de que as escolas na autonomia que parecem possuir relativamente ao currículo desta disciplina, o tentem fazer desde logo com o envolvimento de toda a comunidade onde está inserida, num debate constante relativamente às matérias que envolvem valores, seja isso o que for. A uniformização não pode ser um objetivo mas sim o seu contrário. Fornecer ferramentas à reflexão é fundamental, o aumento da perspetiva e da sua quantidade o mandamento!

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

O LICRANÇO – não é uma cobra, nem representa perigo… então, porque o tememos tanto?

Quantas vezes, ao virar uma pedra ou ao mexer num tronco velho, alguém gritou: “Cuidado, é uma...

A Santa Casa da Misericórdia de Lousada iniciou em 2026 um plano conjunto entre as suas várias...

O regresso da “tara” em versão moderna

Novo sistema de depósito arranca com plástico e latas. A partir desta sexta-feira, entra em vigor...

Editorial 162 | Militares do amanhã

A cada dia que vivemos, damos como incerto o desfecho dos conflitos mundiais, que nos afetam...

Editorial 161 | Homens Normais

É certo que a intempérie dos últimos tempos tirou um pouco de atenção de uma 2ª volta presidencial...

A Polícia Judiciária (PJ), através da Diretoria do Norte, anunciou hoje através de comunicado a...

O treinador Tiago Leal, natural de Penafiel e com passagem como adjunto de Paulo Fonseca em clubes...

NT LOUSADA APROVA CONTAS E ACTIVIDADES POR UNANIMIDADE E DEFINE AGENDA LIBERAL PARA 2026

O Núcleo Territorial de Lousada da Iniciativa Liberal realizou ontem, 31 de Março, o seu 1.º...

A exposição de pintura e escultura “LUGARES” foi inaugurada hoje na Junta de Freguesia de Sousela,...

A Páscoa em Lousada traz consigo uma riqueza de tradições ligadas ao pão, com várias...

Siga-nos nas redes sociais