“Sermos resilientes, ter flexibilidade e imaginação para conseguirmos vencer esta empreitada (Covid19)”, António Augusto Silva

As aulas nas escolas públicas começaram na semana passada de forma completamente diferente. Nada é como dantes. A máscara é uma peça obrigatória, o álcool-gel está em todo o lado e as movimentações dos alunos, professores e funcionários obedecem a traçados previamente definidos.
A Câmara Municipal de Lousada foi uma das entidades responsáveis pelos planos de contingência, especialmente nas escolas do primeiro ciclo e jardins-de-infância, onde as suas responsabilidades são diretas.

António Augusto Silva é o vereador da Educação e, nesta curta entrevista, explicou a’ O Louzadense o que foi feito para acautelar a saúde pública e tranquilizar toda a comunidade educativa, pais e encarregados de educação. Fala também das obras de relevo previstas nas escolas do concelho.

Este início de ano letivo, devido à pandemia, foi certamente diferente dos últimos anos…

Sim, foi diferente. Nunca nos tínhamos deparado com tantos problemas. O início do ano letivo é sempre uma fase em que surgem problemas novos. Mas este ano letivo efetivamente a situação é completamente inédita. Podemos começar logo pelos transportes escolares, que, fruto da decisão do governo de limitar a dois terços a lotação, fez com que tivéssemos de introduzir aqui grandes alterações. Tivemos que negociar com a CIM Tâmega e Sousa e com as empresas transportadoras. Foi preciso acautelar que os transportes cumprissem aquilo que está estabelecido. Em relação aos circuitos que assegurávamos com os nossos autocarros, tivemos que concentra recursos em alguns deles e deixar de fazer outros, contratualizando-os com algumas operadoras. O que se aplica à Câmara Municipal, aplica-se também às juntas de freguesia. Por isso, reunimos com elas no sentido de prevenir o impacto que esta norma tem para muitas famílias, que precisam desta solução de transporte para o pré-escolar e 1º ciclo.

Em relação aos alunos na escola, trabalhamos com os diferentes agrupamentos para criar condições físicas, como circuitos, salas de isolamento, materiais, álcool gel, para que tudo corra bem e para que haja uma resposta competente, no caso de algum problema.

Fomos auxiliados pelos técnicos do ACES Tâmega III, que estiveram em todas as escolas connosco, e fizeram acompanhamento muito próximo das nossas EB1s, dos nossos jardins de infância e de todas as EB2/3 e secundárias. Foi um trabalho em que procuramos as melhores soluções para cada situação. Foi efetivamente uma abertura de ano atípico, difícil, mas temos a consciência de que tudo fizemos. Ninguém consegue assegurar que não vamos ter problemas. O bom e o mal que se fizer fora das escolas vai-se refletir nas escolas, pois estamos sempre vulneráveis ao que vai acontecer fora da escola.

Há estabelecimentos nos quais a autarquia tem diretamente responsabilidades. O que foi feito?

Nos estabelecimentos em que somos responsáveis diretamente, os jardins-de-infância e as EB1, juntamente com as coordenações dos estabelecimentos, procuramos separar circuitos. Nos prolongamentos, procuramos aumentar o número de salas. Mesmo dentro das salas do prolongamento, temos os alunos organizados por grupos turma, para não haver grande mistura entre eles. Também em relação ao serviço de refeições, foram tomados cuidados para que os alunos fiquem separados. Portanto, há um conjunto de regras que se aplicam também às EB2/3 e às secundárias, que seguimos nos nossos estabelecimentos.

Há um problema crónico, que é a falta de funcionários. Nós tivemos alguns projetos ligados ao Centro de Emprego, programas de ocupação de desempregados e procuramos reforçar o nosso pessoal com estes programas. É evidente que, numa situação em que temos um quadro de pessoal envelhecido, podemos ter ocasionalmente alguns problemas. Estamos a contratar uma empresa de trabalho temporário no sentido de precaver alguma carência em alguns estabelecimentos de ensino. Procuramos ter uma conduta que procure ser mais robusta quando surgirem alguns problemas nas escolas, pois podemos ser confrontados com situações em que alguns funcionários podem ficar em quarentena e temos de ter uma resposta rápida para que as escolas continuem a funcionar e para que os alunos possam almoçar, etc.

Tendo em conta o encerramento das escolas com o confinamento e o hiato temporal até ao início do novo ano letivo, há algumas críticas em relação ao atraso na criação de normas para a abertura do ano letivo por parte das entidades responsáveis. Como vê a atuação das entidades?

O comportamento do vírus e da pandemia é completamente novo, não era conhecido pela ciência e tem havido alguma dificuldade em perceber a evolução da pandemia. Aliás, nós passamos uma fase em agosto, em que aparentemente o vírus estava a perder força e, entretanto, em setembro, vemos que afinal não estava a perder força e que a situação em agosto foi meramente conjuntural. É natural que nós possamos não conhecer a biologia do vírus. Temos de nos adaptar e desenhando medidas conforme a evolução da pandemia.

Nós estamos a levar a cabo algumas medidas, uma delas tem a ver com a administração da vacina da gripe a todos os nossos assistentes operacionais – obviamente que não é uma vacinação obrigatória – o objetivo é não termos um problema que acresça à Covid, já que os sintomas da gripe confundem-se com os da Covid19. Portanto, nós vamos disponibilizar a vacinação. Será também uma medida para atenuar as consequências da Covid para as escolas e o impacto de algum surto familiar no funcionamento das escolas.

Dentro das escolas, as regras estão a ser cumpridas, mas no momento da entrega das crianças tem existido alguma aglomeração de pessoas.
Todos nós assistimos a algumas imagens, e não foram só em Lousada, com alguma concentração, aglomeração de encarregados de educação para entregar os seus filhos. Estas aglomerações não são desejáveis, mas certamente serão pontuais. Muitas delas resultam do facto de as crianças estarem a frequentar a escola pela primeira vez e os pais terem a necessidade de as levar até junto do portão. À medida que o tempo for passando e à medida que os professores e os diretores de turma forem sensibilizando os encarregados de educação para este facto, julgo que todos eles vão perceber que não o podem fazer e não terão tanta necessidade de o fazer com a habituação dos miúdos à escola. Penso que, com o tempo, deixará de haver essa aglomeração.

O município de Lousada tem desenvolvido algumas atividades como a Ciência no Parque. O que vai acontecer este ano?

As atividades estão preparadas para poderem ocorrer, mas obviamente que as temos de adaptar às circunstâncias e não sabemos muito bem se as vamos ter todas presenciais. Algumas poderão ter adaptações, outras certamente teremos de as passar para online. Aliás, o “Passaporte” deste ano, que alguns alunos já receberam, é mais uma vez um objeto de afeto para guardar. Este ano é ilustrado pela Mariana Rio e veio substituir o do ano passado da Ana Seixas, e o de há dois anos da Fedra. O passaporte tem um conjunto de informações importantes para os encarregados de educação e para os alunos, e um conjunto de estímulos à participação nas atividades. Esses estímulos podem materializar-se em alguns prémios. Tivemos que colocar no passaporte um QR Code no sentido de, sempre que as atividades não se possam realizar presencialmente, poderemos passá-las para online e, portanto, facilmente os pais e as crianças poderão chegar a essas atividades. Entre as atividades para as crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo e as atividades para os alunos para o terceiro e secundário, temos cerca de cem disponíveis para que possam utilizar. Algumas delas são pontuais, outras vão-se mantendo durante o ano letivo, como a Ciência no Parque, nos megaencontros e também outras atividades que temos ao sábado, o mandarim, a ilustração… Este ano temos uma nova atividade, de programação para crianças, xadrez também é uma grande aposta, pois é uma atividade que permite fazer desenvolvimento de competências de raciocínio e de comportamento nas crianças e nos jovens.

Em relação às atividades extracurriculares, também vai haver alterações?

É verdade que sim. Nós temos uma atividade em que acreditamos muito, que é a natação, pois é uma atividade que permite a todas as crianças do primeiro ciclo contactarem com a água. Certamente não conseguimos que 100% das crianças aprendam a nadar, mas conseguimos que todas elas estejam à vontade no meio aquático. Infelizmente, tivemos de suspender esta atividade, para não expor os alunos a mais transportes e a um balneário, que poderá ser mais um fator de risco de contaminação. Pelo menos enquanto durar a pandemia nós temos esta atividade suspensa. Temos outras atividades que foram adaptadas: a atividade de xadrez, em que os alunos são convidados a usar máscara. Temos obviamente máscaras para fornecer, e não há nenhum miúdo que vai deixar de frequentar as AEC por falta de máscara. Efetivamente, fizemos algumas adaptações nas atividades, mas a natação foi a mais drástica, pois suspendeu-se a atividade.

Em relação às infraestruturas, o que se espera da remodelação das escolas do concelho?

Nós estamos a concluir as obras da escola EB 2/3 de Lousada, um investimento de 1,2 milhões de euros, que introduz um conforto completamente distinto do que existia para quem lá estuda e trabalha. Os melhoramentos são a nível da substituição das coberturas, pois algumas delas tinham fibrocimento com amianto; a nível das caixilharias com janelas com vidros duplos; a nível do aquecimento; pinturas… Há aqui um conjunto de melhoramentos muito significativos.

Está também em fase de concurso a obra de cerca de 700 mil euros para a EB 2/3 de Caíde de Rei, do Agrupamento de Escolas de Lousada Este. Aqui também será feita a substituição das caixilharias e melhoramentos das instalações do gimnodesportivo. Digamos que vamos ficar com uma EB2/3 muito mais robusta, com mais conforto para os alunos, para os professores e para o pessoal não docente.

Investimentos semelhantes estão previstos (embora estejam mais atrasados, em fase de desenvolvimento de projetos, uma vez que o investimento inicial era na ordem dos duzentos mil euros e neste momento nós temos condições de investir um pouco mais, setecentos mil euros) em cada uma das outras duas escolas: as escolas de que estou a falar são a EBS de Nevogilde e a EBS de Lustosa. Para além dos melhoramentos no conforto térmico, com as caixilharias, pinturas, etc. Quer numa escola quer na outra, vamos conseguir concretizar um dos anseios da comunidade educativa, que é a construção de um auditório em cada uma delas. Nós vamos dotar as duas escolas de um auditório, que vai permitir que melhorem o trabalho que fazem com a comunidade, com os seus alunos, com flexibilidade para conferências, para projeção de filmes, etc.

Para além destas escolas, estão previstas obras nas EB1. Vão ser substituídas as coberturas nas escolas de Mós e de Lagoas. Aqui teremos outras intervenções. Também uma intervenção mais profunda na escola da Ordem, que será concretizada a breve prazo, o que vai criar condições para uma melhor aprendizagem.

Foram aprovadas, na última reunião de Câmara, as obras do Centro de Formação de Lousada, da Academia de Formação de Lousada, onde vamos poder ter os cursos superiores profissionais. É a segunda vez que vai a concurso. É uma infraestrutura muito importante para receber os cursos profissionais, um investimento na ordem dos 650 mil euros que reforça esta área de educação e de formação.

A capacidade das escolas do concelho permite contornar o problema do distanciamento dos alunos na sala de aula?

Não é da nossa área, mas as escolas encontraram estratégias diferentes, como a diminuição de alunos por turma. Algumas conseguiram fazer desdobramentos, outras procuraram encontrar soluções quando os alunos ficam na mesma mesa dupla, para que exista um dispositivo físico que separe os alunos… Foram encontradas soluções no sentido de proteger os alunos.

Verificou-se um investimento em equipamentos informáticos por parte do município durante o período de aulas à distância.

Nós, no ano letivo passado, adquirimos um conjunto de máquinas no sentido de colmatar as necessidades mais prementes. Para além desses computadores, fizemos a emissão de vouchers para que os alunos pudessem reparar os seus computadores, ou comprar webcams para se poderem ligar. Além disso, adquirimos separadamente ligações à internet. Neste momento, os computadores e as ligações ainda estão nas escolas. Se tivermos de novo o ensino à distância, o que ninguém deseja (pois todos nós percebemos que a qualidade de aprendizagem é diferente, os alunos mais novos têm menos autonomia, havendo aprendizagens que se perdem), as consequências serão bem piores do que no ano passado, pois, quando aconteceu o confinamento no ano passado, os professores conheciam os seus alunos e por isso o acompanhamento foi mais fácil. Será mais difícil nesta fase do ano letivo, em que os alunos têm ainda muito pouco contacto com os professores. Se estivermos a falar do primeiro ano, será uma situação bem mais complexa.

Em relação aos computadores e às ligações à internet, saiu recentemente um aviso de abertura de um concurso do Ministério da Educação, para aquisição de computadores para fornecer aos alunos. Não sei o tempo que vai demorar, mas o problema está a ser tratado e, durante este ano letivo, a esmagadora maioria dos alunos vai ter computadores para que, se tivermos um novo incidente, possam ter uma ligação mais fácil e mais ferramentas de trabalho.

Quer deixar uma mensagem?

Uma mensagem de resiliência. Estamos muito habituados na nossa vida a arranjar culpados, quando as coisas nos correm menos bem. Neste momento, temos uma entidade muito pequena, mil vezes mais pequena que um grão de areia e que nos alterou completamente a vida. Temos de ser resilientes, ter flexibilidade e imaginação para conseguirmos levar a bom porto esta empreitada (Covid19).

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