por | 6 Nov, 2020 | Região, Saúde, Sociedade

Um enfermeiro nos serviços de urgência em tempo de pandemia

Arlindo Afonso é enfermeiro no Hospital Padre Américo e no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Lousada. Conheça este profissional de saúde, que trabalha há mais de 17 anos no serviço de urgências.

Para um Profissional de Saúde, como é enfrentar uma Pandemia? Quais são as sensações e emoções? Há lugar também a medos?

Trata-se de encontrar resposta às necessidades que nos surgem, mas desta vez em velocidades estonteantes, e em números enlouquecedores. As urgências nunca têm hora marcada.

Ninguém estava preparado. As gerações de enfermagem de serviço só têm conhecimento de pandemias quase só pelos livros de história, e esta não é uma história, esta é bem real, a aprendizagem tem de ser feita a alta velocidade.

Ao longo da nossa vida profissional como enfermeiros no serviço de urgência, somos como que “picados” por situações de emergência graves, adquirindo a serenidade da experiência, para dar uma resposta sempre adequada. Mas desta vez é-nos exigido velocidade e assertividade, com pouco espaço de manobra para poder pensar.

Não são permitidas falhas. Vivemos um medo constante de não sermos capazes, vivemos o medo de não conseguir ajudar, vivemos o medo de podermos agravar o problema por falhar.

Somos humanos, também podemos ficar doentes. Vivemos o medo de poder trazer a infecção para nossa casa, para a nossa família e, daí advir uma consequência que pode ser trágica, mas mesmo assim ainda existe algo dentro de nós que não nos faz desistir.

É algo que muitas vezes não sei explicar, talvez até já tenha nascido comigo. Tenho medo de não conseguir, tenho medo de falhar, tenho medo de me infetar. De uma coisa estou certo, a palavra desistir parece não ter lugar no meu dicionário.

Considera que a População valoriza verdadeiramente o papel dos Profissionais de Saúde no seu dia-a-dia e, neste caso em concreto, na resposta à Pandemia?

Não sei bem se a população na sua totalidade nos entende. Somos um povo que se habituou a valorizar apenas quando necessita. No decorrer da minha vida profissional, infelizmente já fui insultado, maltratado e, enfim até agredido por alguns.

Não falo só por ser um discurso bonito, mas sinto que também sou valorizado por outros. Na primeira fase da pandemia, fomos excluídos. As pessoas afastavam-se de nós quando percebiam que estavam perto de um profissional de saúde. Inclusive, alguns de nós chegamos a receber mensagens para não ir para nossas casas, porque podíamos infetar o bairro.

Mas rapidamente começaram a fazer agradecimentos públicos, manifestando a sua generosidade e respeito por nós, com palmas e cerimónias em frente aos hospitais e centros de saúde, e outras graciosidades.

Depois entramos numa fase de relaxamento, se assim lhe posso chamar, seguida desta fase violenta, em que não temos palmas nem cerimónias, mas um extremo de ocorrências aos serviços de saúde. O excesso de doentes no meu hospital, é tremendamente grande, mas as pessoas entram e aguardam pacientemente a sua vez, percebem que são muitos, que são demasiados.

As pessoas percebem o nosso esforço, percebem que o fazemos por eles. Assistem em direto a algo nunca antes visto, percebem a nossa angústia, a nossa mágoa por não conseguir fazer mais.

Considera que já se possa ter atingido um ponto de rutura ou que o mesmo possa ser atingido em breve? Que se pode ainda fazer na sua opinião para evitar essa situação?


Não sei qual o ponto de rutura. Acho que o ponto de rutura é algo desconhecido, porque o que me é exigido hoje, amanhã é-me pedido ainda mais.

A pressão é constante. É como se estivesse a reanimar um doente durante um dia inteiro, e quando termina o meu turno, sou substituído pelo meu colega que tem que continuar a reanimar o mesmo doente, e quando o meu colega está cansado, eu tenho que o substituir.

O pormenor é que o intervalo de substituições é cada vez menor, não sabemos até quando conseguimos reanimar o doente. Nós, profissionais de saúde sentimo-nos exaustos pela distância de tempo que isto já leva. Se apontamos os problemas é porque queremos muito que a população não sofra, temos medo de não conseguir prestar cuidados.

Na minha opinião algo tem de ser feito para se conseguir inverter este crescendo sufoco, sobre o serviço de saúde e aumento de infecções. Não vamos conseguir reunir consenso total para tomar tais medidas.

É necessário e urgente tomar medidas fortes. Temos que escolher entre a economia e a saúde. Se puder ser equilibrado melhor, mas se esse equilíbrio prejudicar a saúde então algo está errado, na minha opinião. A vida humana tem um preço muito alto, que a economia poderá não conseguir pagar.

Enumerar regras e não perceber se são cumpridos ou atingidos os objetivos, não faz qualquer sentido. As medidas tomadas até poderão ser capazes, mas têm de ser cumpridas. Aquilo que temos assistido é não manter uma decisão constante dos nossos governantes e as demais instituições, o que leva ao desacreditar da nossa população. Já mostramos numa primeira vaga que somos capazes de cumprir, e atingimos o objectivo.

Então, acredito que a mensagem desta vez não está a passar, de certeza que a estratégia não está certa. No último fim-de-semana assistimos, a uma alteração de comportamento da população de Lousada, ruas menos movimentadas, população mais restrita ao seu domicílio.

Sentia-se um aliviar da pressão, foi a minha percepção. Mas no meu entender, a mensagem não pode ser só de medo, pânico, números horrorosos, hospitais com dificuldade em dar resposta, há filas à porta dos centros de saúde… entre outros.

Há uma necessidade urgente de mudar pensamentos e comportamentos. É necessário a responsabilização de cada um de nós pelo respeito do próximo. Não se pode manter uma decisão inconstante, pois levará ao desacreditar da população e, consequentemente o não cumprimento das regras.

Será possível considerar-se que os profissionais de saúde são ilimitados e que a sua capacidade de trabalho e de resposta será sempre igual?

Não podemos continuar a pensar que os profissionais de saúde são máquinas e quando têm avarias, poderão ser resolvidas por técnicos especialistas em eletrónica ou mecânica.

Os enfermeiros, são pessoas que para além de terem uma vocação de ajuda para com próximo, na doença ou sua prevenção, têm que ser treinados, fazer aprendizagens para que possam executar cuidados de excelência.

Esta situação pandémica em que nos encontramos não é um bom campo de aprendizagem, não é local da prestação de cuidados de excelência, parece mais um campo de batalha em que as tropas tentam sobreviver à investida do inimigo.

E como em todas as guerras há uma frase de ordem, a nossa é:” VAMOS FICAR TODOS BEM”, é a frase de alento. Sabemos que não vamos ficar todos bem, infelizmente como em todas as batalhas, nem todos sobrevivem, e os sobreviventes podem ficar com lesões para toda a sua vida, quer físicas ou psicológicas.

É absurdo continuar a pensar que os enfermeiros são ilimitados, que a sua fonte não se esgota, que a sua capacidade de resposta será sempre idêntica em qualquer situação. Os enfermeiros são resistentes e fortes, nunca desistimos, mas somos seres humanos com sentimentos, em que as respostas variam pela exposição às situações da vida como qualquer mortal comum.

De uma coisa eu estou certo, nunca vamos desistir de dar o nosso melhor. A adrenalina corre dentro de nós e, na maior das adversidades, vamos sempre encontrar uma resposta adequada à situação, nem que para isso sejamos prejudicados.

O que ficará depois de tudo isto? Considera que o SNS ficará melhor? Que a humanidade poderá tornar-se diferente daquilo que conhecemos hoje em dia?

O que vai acontecer no dia de amanhã é difícil de prever. Poderá até ser um pouco de futurologia, mas de uma coisa estou certo, nada vai ser como antes. Estamos muito ansiosos pelos abraços, mimos, cumprimentos…todos temos medo de perder uma caraterística humana, a nossa socialização.

Nós humanos somos seres que nascemos numa sociedade, crescemos nela, habituámo-nos a relacionar e a viver dentro dela. Daí, que este distanciamento físico nos faça sofrer e ficar ansiosos por voltar aos contatos.

A privação desse contato, se for longínqua pode provocar alterações de comportamentos e sentimentos. Temos ainda bem presente esses contactos, na nossa memória, daí a nossa tentativa de voltar rapidamente. Estamos com saudades, estamos a sofrer psicologicamente, o que não é saudável, não queremos que se torne doença. O prolongamento da situação pode trazer situações catastróficas.

O nosso SNS vai mudar disso não tenho dúvida. Já todos perceberam que não é funcional em situações de exceção. Terá que ser melhorado. Mas estará sempre dependente das consequências desta pandemia, bem como os tempos de mudança. Uma coisa é certa, quanto mais se prolongar a pandemia, mais difícil será a sua recuperação e adequação.

Não vivemos tempos de mudança, mas sim de aferir estratégias para não deixar “afundar” o existente, porque será a base para iniciar a mudança. Embora acredite na mudança e melhoria, tenho sempre algum receio. Depois da primeira fase desta pandemia, ficamos um pouco na expectativa que talvez a segunda não aparecesse ou, pelos menos não seria tão violenta.

Daí alguma inoperância de situações de socorro ao próximo ou seu atraso, bem como no desgaste rápido dos profissionais de saúde e esgotamento de recursos humanos, que têm demonstrado ser o pior inimigo desta batalha.

O SNS terá de ser mais ágil e adequado, os recursos humanos terão de ser requisitados, treinados e inseridos no sistema, bem como o aprovisionamento de material e instalações físicas. Não será mais aceite minimizar o tratamento por falhas de preparação de situações de exceção.

Na sua opinião podíamos ter preparado melhor para enfrentar a segunda vaga da Pandemia?

Sim, sem dúvida que nos poderíamos ter preparado bem melhor para esta segunda vaga da pandemia. Não em tempos muito longínquos, aconteceram antes outras pandemias, que foram estudadas. Os comportamentos da população, no desconhecido da época para a doença, que hoje sabemos como aconteceram.

Foram estudadas as falhas de materiais e de recursos humanos, que variam sempre em função também de situações económicas como bem sabemos. Na minha opinião nada justifica algumas coisas que hoje estão a acontecer.

Numa primeira fase foram montadas estruturas físicas, que devido a uma menor intensidade da primeira vaga nem foram quase utilizadas, que agora desapareceram ou apareceram já nesta segunda vaga, numa fase essa que já leva um bom avanço.

1 Comment

  1. Anabela Santos

    Concordo com o que li

    Reply

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