No ano em que o mundo parou, Lousada esteve na linha da frente da batalha e, em março, fechou as portas do concelho. Sete meses mais tarde, o concelho volta a registar um aumento exponencial dos casos que decretou, no passado dia 23, o dever de permanência no domicílio e a proibição de quaisquer celebrações e eventos com mais de cinco pessoas. E agora?
As ruas da vila estão praticamente desertas e restam apenas as folhas do outono que cobrem a calçada. Faltam as pessoas, os afetos, a alegria e a liberdade. Faltam os idosos, que faziam dos bancos do jardim a sua casa, faltam os jovens, que deambulavam pela noite, e faltam os trabalhadores, que percorriam o mesmo caminho, todos os dias, a toda a pressa. Restam às ruas o medo e o receio daqueles que saem apenas em situações excecionais.
A segunda vaga do novo coronavírus, Covid-19, fez evoluir o número de casos positivos no concelho e, no conselho de ministros do passado dia 22 de outubro, foram aprovadas medidas mais restritivas que incluem a suspensão de visitas a lares, proibição de eventos e feiras, dever de permanência no domicílio e teletrabalho obrigatório. As regras entraram em vigor no dia seguinte, dia 23 de outubro, e sem data para terminar.
Para lá da Serra dos Campelos, na freguesia de Lustosa, vivem-se dias de cuidado e alerta, conta Andreia Gomes, de 22 anos. “As novas regras tiraram-nos a liberdade toda, agora temos que fazer tudo com muito mais cuidado. Tenho receio de sair e nem é por mim, é com receio de ter o vírus e poder passar a pessoas mais debilitadas do que eu”, afirma a jovem que, por trabalhar ao público num café, deixou de trabalhar durante os dois meses de confinamento. “No café, as pessoas, no geral, têm respeitado as regras, outras nem por isso, não ligam”, revela.
Contudo, há quem não deixe de fazer as suas rotinas por efeito da covid-19. Rosa Pereira, de 66 anos, residente em Sousela, aproveita para visitar os familiares já falecidos, sepultados no cemitério de Lustosa, um dia antes do encerramento, referindo que não concorda com esta medida.
“Acho que não deviam. Vim hoje [sexta-feira] porque disseram que estava fechado no domingo, mas não devia estar, porque isto é sentimental, há pessoas que perderam a família há pouco tempo, são as nossas almas que estão aqui, os nossos pedaços, os nossos pais, irmãos, filhos, e acho que isto não tem lógica”, lamenta.
Para Rosa, “há doenças mais complicadas e que ninguém se lembra dessas pessoas, de lhes dar uma simples palavra. Acho que isto está errado, deviam dar mais apoio às pessoas, dar-lhes mais atenção, ajudá-las no que elas precisam”, alerta.

Comércio com encerramento obrigatório
Com as portas de um estabelecimento aberto no coração de Lustosa há poucos meses, Susana Rodrigues, de 34 anos, proprietária da Pizzaria Bela Vista, explica que têm sido dias de adaptação e luta para conseguir atrair os clientes. “Como vendemos pão e snack, apostamos no take-away para as pessoas levarem para casa e isso teve muita adesão”, esclarece.
De forma a aumentar as vendas, a proprietária afirma apostar nas entregas ao domicílio, “assim as pessoas não precisam de sair de casa e isso ajudou-nos muito a crescer e a divulgar o nosso negócio, mas claro que noto que as pessoas têm medo, vêm, mas levam para casa”.
As novas medidas implementadas no concelho determinam o encerramento de todos os estabelecimentos de comércio a retalho e de prestação de serviços às 22 horas, mas, para Susana, não é um contratempo uma vez que já encerravam à mesma hora. “Não me faz diferença porque já fechava a essa hora. Se tiver que fechar mais cedo é que vai ser pior, mas eu não acredito que seja assim”, afirma.
Ainda assim, a proprietária já tomou novas medidas de forma a assegurar o funcionamento do negócio. “Já abrir ali uma janela, na parte da porta, para não acumular tantas pessoas aqui dentro. Quem vier buscar para fora está do outro lado e não se acumula aqui, pedindo sempre para pagar com cartão, que é mais seguro, e tentamos adequar-nos a esta nova realidade”, refere. A medida pretende ser uma solução para que as pessoas que fazem a refeição no restaurante se sintam mais seguras sem entrada e saída destes clientes.
Para além das novas soluções encontradas para garantir a segurança do cliente, Susana Rodrigues admite fazer a desinfeção de todos os espaços durante todo o dia. “Fazemos várias vezes a desinfeção, tanto casas de banho como mesas, tentamos sempre que o cliente não se sente sem a mesa estar desinfetada”, esclarece, alertando que o fim-de-semana “é muito complicado, porque parece que as pessoas não têm medo, acumulam-se mais pessoas, mas tentamos ter uma pessoa disponível só para limpar e desinfetar tudo e orientar o cliente para onde se deve sentar ou não”.
Susana Rodrigues não esconde o receio que tem de Portugal voltar ao confinamento porque “se isto correr mal para as pessoas que trabalham em fábricas, se ficarem em casa sem trabalho, vão receber menos dinheiro e nós, posteriormente, não vamos ter clientes. Portanto, estando mal para uns, está mal para toa a gente, mas temos que nos tentar adaptar”, lamenta, sem nunca deixar de acreditar que é possível superar. “Temos mesmo que arranjar novas formas de não parar, nem desanimar, porque a vida continua, temos mesmo é que andar para a frente”, termina.

Mas a quebra de receitas não se sente apenas na restauração. Luísa Santos, residente em Silvares, tem 47 anos e vive do negócio local ligado à agricultura. Embora se trate de produtos de primeira necessidade, Luísa afirma que têm sido dias difíceis. “Andamos todos assustados, não sabemos o que podemos ou não fazer, por muita prevenção que se tenha fazemos sempre tudo com medo, é realmente assustador”, conta.
Mesmo com toda a prevenção e cuidado no atendimento ao cliente, a quebra nas vendas é inevitável. “Atendemos com todas as cautelas: álcool, máscara, luvas e o atendimento à distância. As pessoas têm necessidade de comprar, mas evitam sair. Quando saem é sempre com aquele preconceito de que toda a gente pode estar contaminada”, lamenta.
Embora a residência atual seja em Silvares, é na freguesia vizinha de Lustosa que tem os familiares, onde aproveita para fazer a visita habitual ao cemitério. “Concordo que estejam fechados porque há sempre muito movimento no Dia de Todos os Santos e toda a gente sai à rua, as campas são muito juntas e é impossível manter a distância de dois metros”, confessa.

Fé adiada
Ás medidas restritivas junta-se o adiamento das celebrações comunitárias de Crismas, Primeiras Comunhões, Profissões de Fé, Casamentos, Batizados, etc. Até decisão em contrário, mantêm-se apenas a celebração das Missas habituais e sacramentos inadiáveis, “reforçando, porém, as conhecidas medidas de segurança”, lê-se na nota orientadora dirigida às populações de Lousada, Felgueiras e Paços de Ferreira redigida por Manuel Linda, Bispo do Porto.
A pandemia da Covid-19 teve um grande impacto por todo o mundo, mas também na rotina da Igreja e de todos aqueles os seus praticantes. António Teixeira de Freitas tem 41 anos, é pároco de Covas, Lustosa, Nespereira e Sousela e explica que foi uma surpresa para todos o “desenrolar da pandemia ao extremo de termos ficado confinados”. Mesmo depois de algum desconfinamento, o pároco refere que as restrições ainda existentes “dificultam e, em algumas situações, não permitem que as pessoas celebrem e vivam a fé”.
Em Lousada desde setembro deste ano, o sacerdote manifesta que se vai apercebendo que há duas situações: “gente que tem medo e que, de facto, não vem à missa, mas depois também temos o outro lado, nós vamos dizendo às pessoas, sobretudo de idade, que podem vir à missa à semana e que cumprem o preceito dominical da eucaristia, mas vemos que as pessoas querem é vir ao domingo, não estão muito preocupadas se são do grupo de risco ou não. Mesmo na rua também se vê isso, há pessoas que de facto se preocupam com esta situação e há outras que pensam ou agem como se não fossem afetadas por isto , como se não lhes batesse à porta”.

Os novos tempos exigiram à Igreja uma rápida e abrupta mudança no que diz respeito aos contactos com os paroquianos. “As pessoas acusam a igreja de ser um bocadinho retrógrada e muito tradicionalista e, de facto, a introdução das novas tecnologias naquilo que é a prática comum e o quotidiano da igreja nunca foi muito fomentada, nunca tivemos como suporte do nosso trabalho pastoral as tecnologias embora sejam necessárias e se formos a um cartório paroquial sempre havemos de ter computadores, impressoras e internet, mas usar esses equipamentos e esses serviços propriamente naquilo que é o trabalho pastoral de eucaristias, de catequeses e funcionamento dos grupos não é muito comum”, recorda.
Embora as novas tecnologias sejam uma solução de recurso para fazer face às novas necessidades, António Teixeira de Freitas não esconde que “nunca será a ideal”. “Enquanto uma grande família promovemos sempre o encontro das pessoas, o contacto humano, o calor humano, e as novas tecnologias não resolvem isso. É uma situação de recurso e estamos todos a tentar aprender e ver o que é possível fazer”, relembra.
“Eu costumo dizer que não se consegue fazer tudo nem coisa que se pareça, mas que se faça alguma coisa e se mantenha algum contacto com as pessoas. É possível através das tecnologias apercebermos-mos que há pessoas com necessidades e precisam do nosso apoio e de uma palavra, mas de facto não há nada que substitua os afetos e o contacto pessoal e real entre as pessoas, portanto temos muito a aprender”, completa o pároco.
Questionado sobre o futuro da fé, o padre explica que a pandemia pode ser “uma muito boa desculpa para quem por alguma razão já andava a pensar deixar de vir, as pessoas que tinham uma fé menos convicta aproveitam esta ocasião para deixarem de vir, e isto acontece em todas as faixas etárias, não é só para os velhinhos, é para todos”.
À semelhança de todos, a Igreja sofreu também uma perda no que diz respeito à economia e sustentação financeira. “Uma paróquia que antes da pandemia estivesse com dificuldades económicas, agora está muito mau, até porque estamos impossibilitados de fazer qualquer iniciativa, qualquer atividade, qualquer evento que seja para angariação de fundos”, refere, explicando que isto se vai refletir nos “poucos cristãos que agora têm vindo, porque vêm sempre menos do que antes, vão ser chamados a uma responsabilidade muito maior de ajudarem na sustentação das paróquias portanto este é um problema grave que vamos ter que lidar com ele muito em breve”.
E se a pandemia prometia mais solidariedade e empatia pelos outros, António Teixeira de Freitas discorda. “Achei que íamos dar muito mais importância uns aos outros, mas ainda se vê muitas atitudes e muitas formas de estar em que praticamente não se quer saber dos outros”, explica, acrescentando que “quando eu não respeito as orientações todas de segurança eu não só estou a pôr-me em risco a mim, mas também não estou sequer a pensar nos outros. Nós vemos muito isso, pessoas que sabem que estão infetadas e aparecem aí ou vão a uma reunião, acho que é uma falta de consciência, as pessoas não estão muito preocupadas com os outros, esperava ver uma solidariedade maior”.
Com o número de famílias necessitadas a aumentar, o pároco e diretor de algumas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), lamenta a falta de ajuda e apoio. “Quem tem uma IPSS como são os centros sociais, e nós temos, nós aí vamos percebendo de que se não somos nós a dar algum apoio a essas pessoas elas não têm qualquer retaguarda, mas também não me parece que haja muita gente preocupada com isso”, lamenta. Desta forma, o padre explica que as respostas que as famílias vão tendo são aquelas que tinham no início, mas os problemas são maiores.
Como a pandemia afetou o processo do luto
O número das vítimas da Covid-19 está a aumentar dia após dia. São das diversas faixas etárias e classes sociais. O vírus que não escolhe idades nem estatuto social, tem destroçado famílias por todo o mundo. E os que ficam por cá? Serão capazes de fazer o luto e ultrapassar a perda de um ente-querido em tempos de pandemia?
Para o pároco das quatro freguesias Lousadenses, o luto fica por fazer “se as pessoas quiserem, ou se não encontrarem uma maneira de o fazer”, explica. “Porque o luto não é só para com a pessoa que morreu, o luto é para com tudo aquilo que está à volta de uma circunstância normal de um funeral. Porque aquele que morreu, morreu sozinho, secalhar a última cara que viu foi um médico ou um enfermeiro atrás de uma máscara, nem foi nenhum familiar. E os familiares não conseguiram ter um afago, um abraço, um carinho, um gesto para com o ente querido que partiu, não tiveram essa possibilidade”, refere.

António Teixeira de Freitas deixa ainda o alerta: “com as mortes de casos positivos de covid, mesmo na hora do funeral nem sequer conseguiram ver o familiar que foi enterrado, portanto é uma situação muito grave. Fizeram funerais que estava a família mais próxima e mais ninguém, portanto nem sequer sentiram a presença de amigos, de outros familiares mais distantes e até da própria comunidade cristã, que não estava lá presencialmente, estava representada no pároco, mas não estão lá as pessoas, o tal calor humano que falava”.
A exercer a missão de pároco há 14 anos, António admite que o distanciamento dificulta o luto e que o luto é algo “necessário e essencial para o equilíbrio humano, portanto todas as pessoas têm que fazer o seu luto sob pena de não resolverem a situação da perda de alguém”, e esse luto pode ser feito através de novas formas.
“Pegar numa fotografia do ente querido e falar com ele, verbalizar aquilo que não disse e devia ter dito, a desculpa ou o perdão que não pediu e que devia ter pedido e também, ao mesmo tempo, agradecer e estar grato por aquela pessoa ter feito parte da sua vida e depois encomenda-la nas mãos de Deus, na certeza de que aquela pessoa lá mais próxima de Deus, já lá no céu, a perdoará, porque o amor tudo perdoa e tudo desculpa, que o amor vence tudo e o amor não acaba nunca”, sugere.
Céus pouco iluminados
Em ano de pandemia e parada e desde março, a indústria da pirotecnia e explosivos está a passar por uma grave crise económica. Sem festas e sem celebrações, o setor enfrenta uma quebra de quase 100% das vendas. A indústria responsável por deslumbrar os céus, vê, mais do que nunca, pouco brilho nos dias que se aproximam, que prometem ser cada vez mais difíceis.
As encomendas de fogo-de-artifício deixaram de chegar e o negócio parece não voltar a brilhar. Na RACRIFER, em Lustosa, fabricante de fogo-de-artificio há cerca de 11 anos, os grandes portões que outrora guardavam intensas horas de trabalho mantêm-se fechados, com a produção suspensa e sem data marcada para regressar.

“Desde o dia 14 de março, fechamos a empresa e a partir daí tudo parou. Os funcionários foram para casa, eu fui para casa e foi muito complicado. Fizemos o natal e ano novo e depois entramos no mês de janeiro e fevereiro que são a época muito baixa, altura até que fazemos férias. Pensávamos que íamos começar em seguida uma época razoável, não ainda tão alta, mas razoável e de repente ficamos a zeros”, explica Isabel Coelho, sócia e gerente.
As ajudas que o Estado Português permite são destinadas apenas aos funcionários. “Em abril, os funcionários começaram a ter ajuda em 70%, a empresa tinha que pagar o restante, em agosto e setembro os funcionários foram ajudados em 50%, a empresa teve que pagar a outra metade. Quanto aos sócios-gerentes, neste caso eu, não tive apoio nenhum, desde março que não recebo”, afirma,
Na arte de encantar os céus, Isabel Coelho, de 54 anos, trabalha há 32, e relata nunca ter vivido momentos assim. “Nunca tive um ano tão complicado como este, já tivemos quebras, já tive anos um bocadinho complicados a nível de pirotecnia, mas nunca assim. Mesmo nos dois últimos anos, que também foram um pouco complicados, nunca tivemos uma quebra tão alta. Podíamos ter uma quebra de 30, 40 ou 50%, mas não quase 100 % como este ano. Porque para além disso, de não podermos fabricar e ter o pessoal em casa, também estive quase dois meses proibida pela própria polícia de vender ao público, para não incentivar as pessoas a saírem de casa, porque não era um bem essencial”, menciona.

Sendo que o fogo-de-artifício não é um bem essencial, o setor fica impossibilitado de fazer qualquer incentivo de compra ao público. “Não tem sido permitido incentivar o público a comprar, porque não se pode fazer ajuntamentos, não se pode fazer festas de aniversário, é uma coisa mesmo muito mínima”, comenta, relembrando que “o pouco que trabalhamos no verão foi em algum casamento ou batizado. Tínhamos muitos casamentos agendados que foram cancelados e os que foram agendados, na altura de queimar entrou o período crítico, também não deixaram fazer o lançamento de fogo de artificio”.
Uma vez que tem a produção completamente parada, a proibição de sair do concelho não afetam os trabalhadores. Para Isabel Coelho, esse seria um constrangimento se estivessem a trabalhar e a produzir, uma vez que não é possível, afirma que as medidas deviam ser “mais rigorosas para ver se isto não ia muito mais além do que aquilo que tem ido”.
Com cerca de 11 funcionários a viverem desta profissão, “muitos deles da mesma família”, Isabel Coelho tem receio da fase que se aproxima, “enho muito receio porque há um mês eu estava já a fazer planos para um final de ano, um natal razoável e uma passagem melhorzinha, não tão boa como os anos anteriores, mas uma coisa melhor e a partir do momento em que entrou isto tudo eu comecei a ver que os meus planos estão a ir por água abaixo, que não vou ter hipóteses nenhumas de continuar”, lamenta.
“Já nem digo a fabricar, mas a vender, porque da forma que as coisas estão hoje, se continuarem a agravar, vamos ter um final de ano muito complicado e não estou a ver as pessoas a virem comprar fogo-de-artificio, porque não têm vontade de festejar e podem estar proibidas até mesmo de saírem do concelho e é muito mau”, considera, confessando que “não estou a ver as coisas a correrem muito bem, não vejo uma luz ao fundo do túnel neste momento”.
Entre trabalhar, ir à escola e ir às compras, as atividades contempladas nas exceções de abandono do domicílio no concelho, Lousada espera acordar sobre dias melhores e mais seguros.












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