Opinião de Filipa Pinto
O 25 de Abril de 1974 não acabou definitivamente com o fascismo português personificado em Salazar, intensificado pela dolorosa e desnecessária guerra colonial, bem como pelo conveniente atraso educacional e económico da população; andou apenas adormecido por algumas décadas, marcando presença envergonhada nos círculos mais conservadores, em ideias titubeadas entre dentes pelos saudosistas da ditadura ou até de forma mais inconsciente em conversas de café. Hoje, o monstro do fascismo volta a assumir um rosto, contagiando os incautos com um discurso populista, entrando na casa da democracia e crescendo nas redes sociais, a disseminar notícias falsas e a instigar ódio contra as forças democráticas (descritas como “o sistema”) nuns dias, ou contra os mais desfavorecidos (rotulados de “os subsídiodependentes”) noutros dias.
Poderemos garantir às gerações mais novas que os históricos perigos fascistas desapareceram? Seguramente que não. E isso deve preocupar-nos porque o proto-fascismo atual traz diferenças na forma mas tem os mesmos conteúdos e propósitos do antigo: em vez de economicamente corporativista é neoliberal, querendo substituir a escola pública e acabar com a saúde universal, trocando-as por um regime dominado pela privatização total, que só os mais ricos não afetaria. Este detalhe (que não é irrelevante e sim estrutural) nunca é referido nos discursos proferidos pela personagem que lidera este partido e que fez carreira a comentar futebol, pela simples razão que não daria muitos votos – os portugueses não só querem ter serviços públicos como precisam deles.
No fundo, tal como o salazarismo, procura canonizar os abusos de uma elite económica e iludir os restantes com a retórica de que os salvará da corrupção. Contudo, é importante não esquecer que, além do racismo, da xenofobia e dos outros pilares reacionários que alimentam esta ideologia combatida pela Revolução dos Cravos, temos a iminente ameaça ao justo Estado-providência que tanto custou a construir. Até 2019, Portugal fazia parte de um reduzidíssimo número de países europeus privilegiados em que a extrema-direita ainda não tinha proliferado. Porém, a partir do momento em que lhe foi dado palco, a erva daninha passou a ter solo fértil para se disseminar. É evidente que o fez ocultando o programa fiscal com que se fundou, que impunha a mesma taxa para ricos e pobres a par da destruição de todo o Estado de bem-estar social, algo que não lhes convém divulgar à maioria dos simpatizantes e filiados.
Por forma a preservar o nosso futuro, tal como o dos nossos descendentes, temos um desafio gigantesco em mãos: fazer florescer o espírito do 25 de Abril de 1974, combatendo com todos os meios republicanos o ressurgimento da extrema-direita e fomentando, inclusive através da educação e formação cívica, as melhores práticas de liberdade, de progresso e de solidariedade. Porque as sociedades mais justas são as mais democráticas e porque os jovens que não viveram a Revolução, a conhecem quase só por livros de História, está na hora de lembrar a toda a gente que a Democracia é frágil e que, antes mais cedo do que tarde demais, temos de estar prontos para a defender novamente, com palavras, votos e ações.












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