por | 16 Jun, 2021 | Cultura

A Casa Nobre no seu contexto histórico I

Casas Nobres de Louzada – Por José Carlos Silva

De uma forma intercalada falaremos, também, da Casa Nobre de Lousada no seu contexto histórico. Em primeiro lugar olharemos a Lousada dos séculos XVIII e XIX através dos corografistas e monografistas, para entendermos com maior facilidade a sua implantação no território, território esse que não correspondia ao atual. Faremos, assim, o seu enquadramento e a sua contextualização histórica, para um melhor entendimento da Casa Nobre de Lousada.

Lousada nas corografias e nos dicionários geográficos.

No último decénio do séc. XVIII, o lugar do Torrão era “huma pobre aldeya.”8 Pelo menos era assim que o Bacharel Caetano José Lourenço Valle, Corregedor e Provedor da Comarca de Penafiel, via o lugar que mais tarde seria o futuro concelho9 de Lousada: “Pertendem juis de Fora, dizendo que tem boa Caza de Foral, he esta bem ordinária, citta no lugar do Torrão, couza bem insignificante, que não pasa de huma pobre aldeya, sem forma de rua”10 Esta opinião ficou a dever-se a uma hipotética anexação do concelho de Lousada por Penafiel, o que nunca chegou a acontecer.

Volvidos quase cem anos José Augusto Vieira, na sua obra: “O Minho Pittoresco” refere-se a Lousada com outras cores, apesar de pouco mais nos informar: “A Louzada antiga, com o seu pelourinho em columna torcida, incompleto já, os antigos paços servindo de cadeia, a rua Direita, torta como a de todas as villas, (…).”11 E nada havia de notável na Vila de Lousada, a não ser a sua “pitoresca situação em um planalto da montanha, de ares puros e lavados, e solo feracissimo nos seus formosos arrabaldes. Para que bem se avalie do largo horisonte e fertilidade d’este solo uberrimo basta subir ao templo dos Afflictos, ou melhor ao adro da capella da Senhora do Loreto, que domina toda a povoação e arrabaldes, e demorar ahi alguns instantes, á sombra dos sobreiros ou oliveiras que a rodeiam. (…) Divide-se, por assim dizer, a villa em duas partes: a moderna e a antiga Louzada; aquella, ainda incaracterística, por estar actualmente em plena germinação, (…), com feição accentuada, das antigas villas portuguezas, de ruas estreitas e praças acanhadas, a lugubre cadeia sob os antigos paços do concelho, uma ou outra viella intransitável, as casas de pequenas janellas com poaes, onde floresce o craveiro encarnado.”12

Em 1874, era vila, concelho e cabeça de comarca e contava com 2 700 fogos, sendo a comarca composta pelo julgado de Lousada e de Paços de Ferreira. Este último concelho possuía 3 100 fogos, o que perfazia, na comarca, 5 800 fogos. Uma parte do território de Lousada estava afeto ao Arcebispado de Braga, e o restante à Diocese do Porto. Pertencia ao distrito do Porto,13 e era constituído por vinte e sete freguesias.14

E em 1875, a freguesia de Silvares,15 era a cabeça deste concelho, concelho cuja superfície atingia 766,5 hectares, espaço onde se distribuíam 14 304 habitantes.16

No final da centúria de oitocentos, Lousada mantinha imutável o número de freguesias, possuindo Santa Margarida e S. Miguel de Silvares 117 homens e 162 mulheres e 161 homens e 227 mulheres, respetivamente. O concelho, no seu todo, contava com 6523 homens e 8418 mulheres, e pertencia ao distrito e bispado do Porto.17 No dealbar do século seguinte, era um concelho da província do Douro, sendo as suas freguesias sede: – Silvares e Cristelos.18 Silvares que, desde o século XVI tinha contado com a honra de receber pelourinho,19 e, pelo menos desde 1875 se apresentava como cabeça de concelho.20

________________________________

8 – SOEIRO, Teresa – História Local. Cadernos do Museu. Penafiel: Edição da Câmara Municipal de

Penafiel. 2005, p. 151.Cf. AHP – Secção I-II, Cx. 101.

9 – “É uma reunião maior ou menor de freguezias, governadas por um administrador de concelho e representadas por uma municipalidade. Se o concelho é também julgado, tem um tribunal do cível, crime e orphanologico, com juiz ordinário, um sub – delegado do procurador régio, escrivães, officiaes de diligencias, carcereiro, etc. Até 1820, os concelhos tinham muitos privilégios, e inclusivamente o de nomearem os seus juízes, que eram confirmados pelo rei. Hoje esses juízes, assim como a câmara, são de eleição popular, e não precisam de confirmação regia.” LEAL, Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho – Portugal Antigo e Moderno-Diccionario Geographico, Estatístico, Chorographico, Heráldico, Archeologico, Histórico, Biographico e Etymologico de Todas as Cidades, Villas e Freguezias de Portugal e de Grande Numero de Aldeias. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão. 1874,volume quarto, p. 492. Cf. BAPTISTA, João Maria – Chorographia Moderna do Reino de Portugal. Typographia da Academia Real Das Sciências, 1875, Vol. II. p. XXIII; COSTA, P. Antonio Carvalho da-Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno De Portugal, com as Noticias das Fundações das Cidades, Villas, & Lugares, que contem, varões illustres, Genealogias das Famílias Nobres, fundações de Conventos, Catálogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edifícios, & outras curiosas observaçoens. Segunda Edição, Braga: Typographia de Domingos Gonçalves Gouveia, 1868, Tomo I, p. 337-338; é “uma expressão latina concillium e exprime a comunidade vicinal constituída em território de extensão muito variável, cujos moradores-os vizinhos do concelho-são dotados de maior ou menorautonomia administrativa.” In Dicionário de História de Portugal. (Dir.) Joel Serrão. Porto: Livraria Figueirinhas, [s/d], p. 137. Cf. Concelhos. In Dicionário Enciclopédico da História de Portugal. (Coord.) José Costa Pereira. [s/l]: Publicações Alfa, Lda, 1990, p. 146.

10 – AHP – Secção I-II, Cx. 101.

11 – VIEIRA, José Augusto – O Minho Pitoresco. 2ª Edição, Valença: Edição Rotary de Valença, Tomo II. 1987, p. 353-354.

12 – VIEIRA, José Augusto – o. c., p. 353-354. Cf. MOURA, Augusto Soares-Lousada Antiga, Lousada: Edição de Autor, [s/d], vol. I, p. 386, História das Freguesias e Concelhos de Portugal. Matosinhos: Quidnovi, 2004, p.98. Lousada Terra Prendada, Lousada: Edição da Câmara Municipal de Lousada. 1996, p. 132.

13 – LEAL, Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho – o. c., p. 469.

14 – “Alentém, Alvarenga, Aveleda, Barrosas (Santo Estêvão), Barrosas (Santa Eulália), Caíde de Rei, Cernadelo, Casais, Covas, Cristelos, Boim, Figueiras, Lodares, Lustosa, Macieira, Meinedo, Nespereira, Nevogilde, Nogueira, Ordem, Pias, Silvares, Sousela, Torno, Vilar do Torno, Lousada (Santa Margarida) e Lousada (S. Miguel).” Cf. LEAL, Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho – o. c., p. 469.

15 – LEAL, Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho – o. c., p. 469.

16- BAPTISTA, João Maria – o. c., p. 692 – 693.

17 – BETTENCOURT, E. A. – Diccionario Chorographico de Portugal e Ilhas Ajacentes contendo as Divisões Admnistrativa; Judicial, Ecclesiástica e Militar Ultimamente Decretadas e indicando todas as cidades, villas, freguezias …, 3ª Edição, Lisboa: Typographia Universal. 1885, p. 104.

18 – Exactamente as mesmas freguesias que Pinho Leal indica na sua obra: “Portugal Antigo e Moderno”. Os corografistas repetem-se e, muitas vezes, enganam-se. Eles mesmo o reconhecem: Depois os proprios chorographistas vêem-se em papos de aranha para explicar onde é a sede do concelho, ora confundindo Silvares e Louzada, ora tomando as parochias de Santa Margarida e S. Miguel de Louzada, como núcleo central da povoação, quando, averiguado o caso, a villa não é realmente senão uma parte de SILVARES, parte chamada antigamente o Torrão, que se desenvolveu e ampliou, deixando na humilde posição primitiva a velha matriz parochial.” VIEIRA, José Augusto – o. c., p. 353 – 354.

19 – O pelourinho de Lousada é Monumento Nacional por Decreto de dezasseis de junho de mil e novecentos e dez. “Tem três degraus quadrados em esquadria, todos eles com o bordo superior saliente e boleado. A coluna salomónica assenta numa base quadrada de pouca altura seguida de largo anel boleado. O fuste é expressivo no seu bem delineado enrolamento com os torcidos largos que se desenvolvem da esquerda para a direita. Vem a terminar num anel bem saliente e boleado. Por peça de coreamento possui um tabuleiro quadrangular tronco-piramidal invertido que a meio da sua altura tem molduramento a toda a volta em forma de pequenos cubos. Nos cantos da parte superior ainda se notam as calhas onde pousavam os braços de ferro com argola. A parte terminal do pelourinho já não existe (…). O pelourinho é do século XVI.” SOUSA, Júlio Rocha e – Pelourinhos do Distrito do Porto. Viseu: Edição do Autor. 2000, p. 26 e 48.

20 – PEREIRA, Esteves, RODRIGUES, Guilherme – Portugal, Diccionario Histórico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heráldico, Numismático e Artístico. Lisboa: João Romano Torres & C.A Editores. vol. IV – L. M, 1909, p. 559. Cf. COSTA, Américo – Diccionario Chorografico de Portugal Continental e Insular, Hydrographico, Historico, Orográfico, Archeologico, Biographico, Heráldico e Etymologico. Villa do Conde: Typograhia Privativa do Diccionario Chorographico. vol. VII, 1940, p. 809 – 810. Guia de Portugal. Entre Douro e Minho – Douro Litoral IV. Fundação Calouste Gulbenkian: 1994, p. 624.

2 Comments

  1. Cristina Mafalda de Portugal da Silveira Queiroz

    Excelente explicativo sobre as origens do território de Lousada.
    Muito grata

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  2. Cristina Mafalda de Portugal da Silveira Queiroz

    Excelente explicativo sobre as origens do território lousadense .
    Muito grata

    Reply

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