A vontade de viajar corre-lhe nas veias, paixão que herdou do seu pai. Nasceu em Lousada, mas cedo percebeu que a sua casa era o mundo. Nos seus planos sempre esteve o Direito, embora uma experiência no estrangeiro tenha vindo desviar a sua atenção do projeto inicial. Hoje é jurista e dedica-se a temas de Justiça Internacional e Direitos Humanos.
A mais nova dos irmãos, Marta Valiñas nasceu em 1980, em Lousada. “Foi uma infância muito tranquila, sempre rodeada pelos irmãos e primos muito mais velhos, o que também me influenciou. A minha professora da Primária, D. Orísia Magalhães, foi também uma grande influência na minha infância”, conta.
Muito cedo percebeu a vontade que tinha de conhecer o mundo, viajar e viver fora de Portugal. Com um grande espírito de aventura, aos 16 anos, através de um programa de intercâmbio, confirmou a sua paixão ao estudar em Belgrade, Montana, nos Estados Unidos da América.
“Foi algo inesperado para mim e para os meus pais. Esse ano foi importante para a minha formação pessoal e para a minha vida profissional. Nessa altura, já tinha decidido que queria estudar Direito, e pensava ser juíza, mas essa experiência também confirmou que não queria ficar só em Portugal”, explica Marta Valiñas.
Desta experiência, Marta trouxe para casa algo que “caracteriza os americanos” que é “a busca constante de se divertirem. O querer aproveitar o bom da vida e desfrutarem. Isso foi importante, porque sempre fui muito aplicada, passava demasiado tempo a estudar. Fui para lá em busca de algo que ia para além de estudar e da vida em Lousada”, revela.
Regressou a Portugal para se licenciar em Direito, mas a estadia foi curta e volta a sair para prosseguir estudos, realizando o Mestrado em Direitos Humanos, através de um programa europeu, sendo que o primeiro semestre foi realizado em Veneza, Itália, e o segundo em Utrecht, nos Países Baixos.
Percurso marcado pelas experiências no estrangeiro
O percurso profissional começa com uma posição na Universidade de Leuven, na Bélgica, durante quatro anos. “Trabalhava num projeto de investigação académica sobre a Justiça Transicional, na Bósnia-Herzegovina e na Sérvia, que se refere aos mecanismos de justiça que se aplicam em contextos onde houve um conflito armado, ou uma transição de ditadura para democracia. Neste caso, tem de se fazer justiça por graves violações aos Direitos Humanos e crimes graves, como crimes de guerra ou contra a humanidade”, explica.
Posteriormente, mudou-se para Londres, onde trabalhou numa organização que se dedica a casos de tortura. A viagem continua na Bósnia, tendo trabalhado com a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), explorando temas de reforma do sistema de justiça e de mecanismos de justiça para violações de Direitos Humanos.
De seguida, esteve ligada a uma associação que lida com temas de violência sexual e de género em casos que chegam ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, nos Países Baixos. Imediatamente depois, ficou a trabalhar no Tribunal Penal Internacional, durante quatro anos, e, desde aí, “tenho estado a trabalhar como consultora independente em vários projetos nestas mesmas áreas, de Direitos Humanos, Justiça Internacional e com especialização em casos de violência sexual e de género em contextos de conflitos armados”, revela.
Questionada sobre o que a levou a lutar pelos direitos do outro, não duvida: “desde que me conheço que tenho vontade de fazer alguma coisa e contribuir para um mundo melhor e mais justo. Isso é algo que me lembro desde criança e muito incutido pelos meus pais. Sempre gostei da ideia de poder usar o Direito – as leis e as instituições – para contribuir para um mundo melhor”.
“O que me atraía no Direito era a componente dos valores, que é central.”
“O que me atraía no Direito era a componente dos valores, que é central. Em relação aos Direitos Humanos, e mais concretamente este meu interesse pelo que se passa nos conflitos a nível internacional, foi pela minha curiosidade e vontade de estar em contacto com diferentes culturas, e de estar sempre a aprender sobre a parte histórica e social de outros povos. Foi tudo isso junto que me fez, de uma forma muito natural, ir enveredando por esta área e trabalhar lá fora”, confirma Valiñas.
Para lidar com o lado mais emotivo e manter algum distanciamento, a jurista revela que “sempre que senti que me era difícil ouvir algumas histórias pensei: ‘estou aqui com uma missão, que é levar a voz destas pessoas a outros lugares e, por muito que me custe, estas pessoas, sim, é que sofreram’. A força e a resiliência delas são tão impressionantes que, a nós que estamos a ouvir, dá-nos força para fazer o pouco que podemos”.
“Muitas das pessoas com quem me cruzei, e que passaram por coisas horríveis durante a guerra, tiveram a capacidade de transformar completamente a sua situação e reconstruir as suas vidas. Isso é uma fonte de inspiração.”
Em cada experiência, a visão da vida vai-se moldando e, menciona Marta Valiñas, “muitas das pessoas com quem me cruzei, e que passaram por coisas horríveis durante a guerra, tiveram a capacidade de transformar completamente a sua situação e reconstruir as suas vidas. Isso é uma fonte de inspiração e tem impactado, pela positiva, a minha vida. Mas também me torna impaciente quando ouço queixas de pessoas que não têm contacto com essas realidades, que não dão valor ao facto de viverem num lugar seguro e queixarem-se por coisas fúteis”.
No futuro, “quero continuar a fazer aquilo que estou a fazer, porque gosto muito da diversidade de projetos em que estou envolvida e porque isso me leva a diferentes países. Mas sempre dentro da mesma área, que é o que eu gosto e é ao que eu quero continuar a dedicar-me”, termina.












Grande MULHER. Tem um percurso profissional muito abrangente que não está ao alcance de todos
LUTADORA, não teve medo. Luta por direitos do ser humano, embora muitas vezes não se consegue, mas continua a LUTAR. VIVEMOS NUM 🌎 INJUSTO. MUITOOBRIGADA. SOU PENAFIDELENSE E MEU MARIDO LOUDADENSE. BEM HAJA. SENHORA DRA. JUÍZA. 🌹🌻