por | 5 Abr, 2022 | + Literacia, Educação

+ literacia: Distúrbios

Preso pelo desespero, nadei contra a corrente para escapar da enorme e intimidante embarcação que me perseguia no meio do oceano com os seus escandalosos tripulantes, gritando palavras impercetíveis na minha direção.  

A água gelada afastava-me cada vez mais da costa e o pânico tornava-se o meu guia, pois não encontrava uma possível fuga do navio que, teimosamente, continuava a seguir-me sem intenções de parar. 

No início, pensei que simplesmente passaria por mim sem me aperceber da minha existência. No entanto, descobri estar enganado quando as sirenes soavam repetitivamente e a velocidade do navio me acompanhou. Não tão rápido, não tão lento, apenas o ritmo certo para não se desviar do meu lado.  

Suportar o frio do mar tornava-se uma das minhas maiores torturas, para além do arrefecimento da minha anatomia, sentia-a arder; e as poucas energias que restavam dentro de mim, pareciam sair sem nenhuma intenção de recuperação.
O sabor salgado infiltrou-se na minha boca, secando os meus lábios. Tentar lambê-los foi uma tarefa tortuosa que criou pequenos cortes na minha língua. 

Os constantes espirros dificultavam a minha respiração, o meu nariz era um escravo da irritação que parecia sugar ainda mais água do que os meus pulmões. Estas sensações fizeram-me pontapear na água, abanava com fúria os pés, que me mantinham a flutuar e com as minhas mãos empurrava com mais força as ondas.

Rezei para que, de repente, o mar desaparecesse ou que a maré me levasse para uma ilha, mas os meus desejos não eram mais que os pedidos de um homem medroso e os homens medrosos não são ouvidos. 

Mantive os meus olhos meio fechados, o sal fez das suas e sentia-se como ter pedras incrustadas neles. Tentei abri-los para procurar, através do amplo caminho azul, mas o seu fim parecia inexistente, não importava para onde eu olhasse.

As ideias destrutivas começaram a contaminar a minha cabeça e as lágrimas desconsoladas escorriam pela minha face. Estas imagens geraram uma raiva no meu interior, mas em vez de jogar a meu favor, drenou as minhas últimas forças e, por mais que me esforçasse, o meu corpo afundou-se nas profundezas do mar.

O barco parou ao meu lado, quando submergi. Os meus olhos abertos visualizaram algumas criaturas transfiguradas a descer dele. Inesperadamente, deixei sair uma amarga gargalhada, fazendo-me engolir ainda mais água. 

Afinal soube a verdade; a morte não era um saco de ossos, nem trazia consigo uma foice. Na realidade, era um barco inteiro, encarregado de roubar estas almas infelizes. Entre aquelas águas frias, a morte abriu o inferno. Um lugar reservado para os desesperados, para os desafortunados, que ela, transformada num navio, esperava pacientemente.

Agora, eu me despeço de vós, e dou as boas-vindas ao meu fim. 

Agora, aqui, estamos todos condenados e sem qualquer hipótese de sermos absolvidos pelos nossos pecados… porque o ser humano, inexplicavelmente, deseja ser despojado da sua humanidade.

Marggie Yulieth Estupinan Ararat 
Ano/Turma: 11. ° ano – Escola Secundária Lousada
Afonso António Ribeiro -11.ºano- Secundária Lousada

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

TRADIÇÃO CONTINUA VIVA: A Sagrada Família que une gerações

Durante décadas, a chegada da caixa da Sagrada Família a uma casa foi sinónimo de recolhimento,...

Sandra Monteiro pinta a emoção que nasce no silêncio

Profundamente marcada pela emoção, pelo realismo e pela intensidade do olhar humano, as pinturas a...

Subida de divisão aumenta o desafio dos veteranos da ADL

A equipa de Masters da AD Lousada concluiu uma temporada de grande nível, garantindo a subida à...

Patinador lousadense conquistou medalha de prata

O jovem Gabriel Ferreira, de Aveleda, está a construir uma promissora carreira na patinagem...

Noite Branca no Largo da Senhora Aparecida

Gravinda, York e Paulo Marcelo sobem ao palco no dia 8 de agosto, a partir das 22h00, para uma...

Cinema no parque de Meinedo

No próximo dia 1 de agosto, o Parque do Areinho, em Meinedo, recebe mais uma edição do Cinema ao...

Pilotos Lousadenses foram brilhantes vencedores, em Montalegre

Foi a quinta e antepenúltima jornada do Campeonato de Portugal de Ralicross e Kartcross, com os...

AS AMORAS – Há uma altura do ano em que os caminhos dão sobremesa a quem passa. Há frutos que se...

​Inferno das Febras revela distribuição das bandas e coloca à venda bilhetes diários

A ​organização do Inferno das Febras divulgou a distribuição das bandas pelos dois dias do...

PSD exige maior transparência na contratação pública municipal

NOTA DE IMPRENSA DO PSD/Lousada O PSD Lousada questionou no passado dia 6, o Executivo Municipal...

Siga-nos nas redes sociais