Tenente Coronel Elisabete Silva, uma mulher na alta esfera militar: “Não há lugar a qualquer tipo de discriminação no Exército”

Natural de Lousada, mais concretamente de Lagoas (Nevogilde), Elisabete Maria Rodrigues da Silva, de 42 anos, é uma destacada militar portuguesa. Participou em duas missões de paz no estrangeiro (Bósnia-Herzegovina), possui vários cursos e é licenciada em Ciências Militares. Foi a primeira mulher portuguesa na categoria de Armas Combatentes do Exército, no ramo de Cavalaria. Numa área tão marcadamente masculina esta lousadense mostra que é possível a uma mulher atingir patamares que até há pouco tempo eram exclusivos dos homens. Nesta entrevista exclusiva ao Louzadense, revela como isso é possível.

O Louzadense – Há cada vez mais mulheres a aderir às Forças Armadas e às Forças Policiais, mas também ainda há muitas jovens que não têm coragem para dar esse passo. É sobretudo por preconceito e falta de coragem? Que mensagem passaria a essas jovens? Já recebeu pedidos de conselhos nesse sentido?

Elisabete Silva – O número de candidatas tem vindo a aumentar, o que constitui uma demonstração inequívoca de que a predisposição para o serviço militar de rapazes e raparigas está a aproximar-se. Atualmente, 14,7% do efetivo do Exército é do sexo feminino, existindo a expectativa que a percentagem de mulheres nas fileiras continue a aumentar de forma sustentada.

Desde nova que sempre gostei de desporto e atividade física e, enquanto jovem, não me imaginava a ter uma vida pacata de gabinete, pelo que, aquando do concurso ao Ensino Superior apenas concorri para a área de Desporto e para Academia Militar. O meu conhecimento sobre a vida Militar era quase nulo, mas através dos panfletos informativos da Academia Militar percebi que para o ingresso eram exigidas provas físicas, à semelhança dos cursos de Desporto. E foi assim, quase que por acaso, que eu concorri à Academia Militar. Durante a fase de concurso havia uma prova de aptidão Militar, de sensivelmente um mês, e durante esse mês percebi que me identificava com o serviço militar e que me sentia realizada neste ambiente.

O que poderei dizer, tanto às jovens como aos jovens, é que ser militar, para mim, é estar disponível para servir algo maior do que nós próprios, quer seja o camarada do lado, quer seja a Unidade a que pertence, quer sejam as populações, como aquelas que sofreram com as recentes inundações, ou mesmo as populações além fronteiras como é exemplo, a República Centro Africana.


O Louzadense – A igualdade de género é muito proclamada e defendida no Ocidente, pelo menos, e como tal no nosso país também. Sente que o seu exemplo tem contribuído para uma maior implementação desse ideal?

Elisabete Silva – Como Comandante, pessoa e militar a nossa conduta e atitude irá sempre influenciar outros. Na minha opinião comandar pelo exemplo é, e sempre será, a melhor forma de influenciar e de liderar. Durante o meu percurso nunca tive a pretensão nem o desígnio de implementar a igualdade de género, esse é um desígnio da própria Instituição e cada militar que a constitui tem o seu papel a desempenhar nesse propósito.

A igualdade entre homens e mulheres é um imperativo constitucional e um dever de todos. Entre as evoluções verificadas ao longo das últimas décadas, a alteração do papel das mulheres na sociedade, destaca-se como um contributo para a promoção da igualdade e o Exército Português congratula-se por ter tido sempre um papel muito ativo nesta questão. Os vencimentos, as oportunidades e o desempenho de funções não são influenciados pelo género, não havendo lugar a qualquer tipo de discriminação no Exército.

O Louzadense – Ao longo da sua carreira teve situações em que ser mulher interferiu positiva e/ou negativamente ou pelo menos condicionou alguma decisão sua ou dos outros perante si?

Elisabete Silva – A instituição militar não é estanque da sociedade onde se insere, esta entrevista é um exemplo de que a própria sociedade considera a minha nomeação para a função de Comandante do Grupo de Carros de Combate, da Brigada Mecanizada, como algo de extraordinário. Eu fiz todo o meu percurso militar, desde que saí da Academia Militar até à promoção ao posto de Major, nas unidades de Cavalaria da Brigada Mecanizada, não fosse o facto de eu ser mulher, esta nomeação nunca teria sido notícia, teria sido vista como o percurso normal de um Oficial de Cavalaria.

De qualquer forma e dando um exemplo em que senti, de forma negativa, diferenciação pelo facto de ser Mulher, na minha primeira missão na Bósnia  Herzegovina, na qual  fui Comandante de Pelotão, numa das missões que me foi atribuída, em que tive de me dirigir a um Quartel de outra nação lá presente, os militares dessa nação inicialmente recusaram-se a falar  comigo pelo simples facto de ser Mulher.

O Louzadense – O suporte da família e até mesmo de amas ou empregadas domésticas, é certamente fundamental para quem é mãe e segue uma atividade como a sua. Como tem sido a conjugação do papel de mãe com a carreira militar?

Elisabete Silva – Apesar de socialmente, ainda pender muito sobre a Mulher as obrigações parentais e domésticas, não é esse o meu entendimento nem o do meu marido, pelo que a conjugação da vida familiar com a vida militar será sempre uma dinâmica que tem de ser gerida por ambos e não só por um. Creio que esta dificuldade de conjugação de papéis é uma problemática de ambos os géneros. Apenas posso acrescentar que acredito que ser Mãe me tornou melhor Militar e melhor Comandante, porque em ambos os papéis temos de ter bem presente o dever de tutela e a total disponibilidade.

O Louzadense – Com esta recente promoção sente-se realizada profissionalmente ou tem mais objetivos na sua carreira?

Elisabete Silva – Sempre associei mais a minha realização profissional às funções que desempenho e não tanto aos postos a que vou sendo promovida. E esta nomeação, em concreto, materializa um dos meus maiores objetivos e realizações profissionais e não poderia estar mais grata pela oportunidade que me foi concedida por tal. Tenho outros objetivos, outras funções que gostaria de desempenhar, mas neste momento esta é a minha missão, o meu foco, para o qual me dedicarei com total disponibilidade.


O Louzadense – Quais considera que foram os momentos mais exigentes ou difíceis até chegar aqui? E os mais satisfatórios ou gratificantes?

Elisabete Silva – Tive funções mais exigentes que outras, mas todas elas muito gratificantes e enriquecedoras. Um dos aspetos diferenciadores da carreira militar, em relação a outras, é a diversidade de funções que podemos desempenhar. Ora funções mais exigentes a nível físico, ora a nível intelectual ora a nível psicológico. Relativamente à minha experiência pessoal posso afirmar que a função que foi mais exigente foi a de porta-voz do Exército, pela conjuntura que se vivia e por considerar que era a função para a qual sentia que tinha menos “ferramentas” para a desempenhar. Mas todas as funções têm a sua especificidade e o importante é nós nos dedicarmos a elas sempre com a mesma abnegação.

O Louzadense – Se tivesse seguido outra carreira, qual teria sido? 

Elisabete Silva – Se não tivesse entrado na Academia Militar, talvez tivesse tirado uma Licenciatura na área de Desporto pelos motivos que já identifiquei anteriormente.

O Louzadense  – Além da atividade militar desenvolve outras atividades ou dedica-se a outras práticas ou passatempos?

Elisabete Silva – A atividade física faz parte do dia a dia dos militares nas Unidades, e neste momento, para além de idas ao ginásio não tenho mais nenhum passatempo de relevar.

O Louzadense  – Cresceu e viveu parte da infância e da juventude em Lousada. Quais são as memórias (de pessoas, coisas, sentimentos, etc) que tem em relação a esta terra? Considera que é a sua “terra-natal” ou de referência?

Elisabete Silva – Na realidade parte da minha infância foi passada na República Democrática do Congo (à época denominado de Zaire), e apenas regressei a Lousada com 11 anos, onde a adaptação à escola, ao ambiente e até ao próprio clima foi um desafio. Em Lousada, praticamente estive desde o 7.º ao 12.º ano de escolaridade.

Penso que as vivências destas duas realidades tão distintas influenciaram também a minha opção de carreira, porque apesar da tenra idade, África, mostrou-me a importância de se viver em segurança.

O Louzadense – Quais são as suas expectativas (familiares, pessoais, sociais, mundiais, etc) para 2023?

Elisabete Silva –  A nível pessoal, profissional e familiar só posso esperar que continue o rumo de 2022. Já a nível mundial e social gostaria de ser mais ambiciosa e esperar que 2023 trouxesse maior harmonia e Paz.

Um currículo notável

A Tenente-Coronel de Cavalaria, Elisabete Maria Rodrigues da Silva nasceu em Lousada a 30 de janeiro de 1980 e ingressou na Academia Militar em 1997.

É licenciada em Ciências Militares pela Academia Militar e possui, para além dos cursos militares de carreira, o Curso de Instrutores do Sistema de Lança Mísseis TOW 2, o Curso de Chefe de Carros de Combate Leopard 2 A6, e os Cursos de Estado-Maior Exército e Conjunto.

Ao longo da sua carreira desempenhou funções de comando no Regimento de Cavalaria n.o 4, como Comandante de Pelotão de Carros de Combate M60, Comandante do Esquadrão de Comando e Serviços e Comandante do 2.o Esquadrão de Esquadrão de Carros de Combate Leopard 2 A6, do Grupo de Carros de Combate; no Esquadrão de Reconhecimento como Comandante de Pelotão e Esquadrão de Reconhecimento da Brigada Mecanizada.

Desempenhou funções de Estado-Maior no Comando da Brigada Mecanizada como Chefe da Secção de Informações e no Gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército como Porta-voz do Exército.

Desempenhou funções de Ensino na Academia Militar como Professora Adjunta e Regente de Tática de Cavalaria e, em acumulação de funções, Diretora dos Cursos da Arma de Cavalaria.

Desempenhou funções de Assessoria na Casa Militar da Presidência da República onde exerceu as funções de Ajudante de Campo do Presidente da República Portuguesa.

Serviu em duas missões Forças Nacionais Destacadas, na Bósnia- Herzegovina, em 2004 na Missão da SFOR, como Comandante de Pelotão de Atiradores do 2.o Batalhão de Infantaria Mecanizada; e em 2006 na missão da EUFOR, como Adjunta de Operações do Centro de Operações Tático no Comando do Maneuver Battalion.

Na sua folha de serviços constam vários louvores e condecorações.

É casada e tem dois filhos.

Elisabete Silva_in O Observador 07DEZEMBRO2022

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