Rui Neto: o médico das iniciativas

N. 12-03-1951 – F. 22-03-2023

Rui Manuel Faria da Silva Neto, nasceu a 12 de março de 1951 e faleceu a 22 de março deste ano, na sua freguesia, Santa Eulália da Ordem. Um mês antes do seu falecimento, O Louzadense, entrevistou o prezado médico de clínica geral onde constatou um caminho digno de ser exaltado. É o que fazemos, finalmente, nesta edição. Apesar das pretensões iniciais inclinarem para Engenheiro Eletrotécnico dado o seu gosto pela matemática, Rui seguiu as pisadas do progenitor, Serafim da Silva Neto.

Naquela entrevista ao nosso jornal, em fevereiro deste ano, revelou ser “filho único, mas tive dois irmãos que faleceram”. A irmã era mais velha e o irmão mais novo, sendo o lousadense a cria do meio. Perante tais incidentes, foi filho único e recebeu todo o carinho e proteção dos seus pais.

O seu percurso escolar começou na Escola Básica da Ordem e no 4º ano mudou-se para o Colégio Eça de Queirós, por decisão do pai. Ao abordar esta época, recordou com carinho os “colegas excecionais” e os “professores exigentes”.

Posteriormente, realizou exame de admissão ao Liceu e, ainda, um exame à escola técnica, caso o primeiro não corresse bem. Contudo, foi admitido no Liceu. “Havia dois colégios para os quais poderia ir: Colégio Militar em Lisboa ou o Instituto Nun’ Álvares em Santo Tirso”, contou. Devido à proximidade e às saudades da mãe, ingressou no segundo local. Apesar do ensino de excelência praticado na entidade, as notas no 1º trimestre não foram as esperadas, “pois não estava a gostar do ambiente”.

Posto isto, mudou-se para o Colégio São João de Deus, na Rua Santa Catarina, afirmando que “viu-se nos céus”.

Rui Neto

“Quando me perguntavam o que desejava ser, eu dizia que queria ir para engenharia eletrotécnica porque era bom a matemática e adorava a eletrónica”, sublinha. O seu pai era médico e graças à sua influência positiva seguiu as mesmas pisadas, embora de forma diferente. Os números ficaram para trás e o seu trajeto na medicina continuou.

Entrou na Faculdade de Medicina do Porto, onde permaneceu durante os seis anos obrigatórios do curso. De ressalvar que dois destes foram de estágio.

Terminado o seu percurso longínquo, concorreu à Escola de Medicina Dentária do Porto, tendo-a frequentado até ao 4º ano. Decidiu abandonar pois já era médico e, nesta época, também era casado e precisava de ganhar dinheiro. “Gasta-se muito tempo a aprender e a aperfeiçoar; optei por sair e continuar no Hospital de São João”, afirma.

Após a tomada de decisão, foi fazer o «serviço de médico à periferia», que tratava-se de um sorteio, tendo sido colocado na Régua durante um ano. E lá foi para aquela sub-região do Douro.

Médico da Associação Desportiva de Lousada

Em 1982, foi criada a carreira de Clínica Geral e o médico lousadense concorreu à mesma. Posto isto, entrou no Centro de Saúde de Lousada. Este albergava alguns serviços como: urgências, internamento e consulta. Entretanto, em 1985, foi convidado para ser médico da Associação Desportiva de Lousada e aceitou. Este cargo foi desempenhado durante alguns  meses.

Depois de entrar no Centro de Saúde de Lousada fez o exame à especialidade de Clínica Geral e, segundo o próprio, dedicou-se bastante. “Dentro do exame havia três classes: a prova teórica, a defesa curricular e o exame objetivo que realizei no Centro de Saúde da Batalha”, declarou. Após isto, tirou uma boa nota.

Longe estavam os exames de terminar no seu percurso pois, em seguida, fez o exame à Ordem dos Médicos e o exame de Estado. Devido à nota no exame de Estado foi convidado para ir tirar um curso de cuidados de saúde primários em Lisboa. “Estive quatro meses na Escola Nacional de Saúde Pública, onde realizei um trabalho de campo sobre a parte dentária das crianças”, explicou. No projeto, entraram crianças de alguns infantários de Lousada, tendo sido apresentado na Câmara Municipal de Lousada.

Diretor clínico dos lares da Santa Casa

Em 1987, foi convidado para ser diretor clínico dos lares da Santa Casa da Misericórdia e assumiu com bastante gosto e privilégio. Questionado sobre esta função, de imediato referiu que “foi gratificante até certo momento, pois existem encargos e quando o utente não sobrevivia, era uma perda muito grande”.

À medida que recordava esses tempos, enaltecia “a senhora Lúcia Lousada e o professor Santos, pelo excelente trabalho que desempenharam, bem como pelas pessoas excecionais que foram”. Até aos últimos dias da sua vida manteve contacto com vários elementos daquela entidade e ia visitar as freiras a Santo Tirso. Esteve 40 anos ao serviço da Santa Casa.

Na sequência deste cargo, realizou um curso de Geriatria e Gerontologia em Lisboa, em paralelo. Em 1989, foi convidado a fazer uma formação especial com o intuito de dar orientação aos médicos de clínica geral na zona Norte. Mais uma vez, não recusou o convite.

Corria o ano de 1991 quando foi empossado Coordenador do Serviço de Urgência no Centro de Saúde de Lousada. Em 1993, passou a Chefe dos Cuidados Personalizados e, em 1995, foi Chefe de Clínica Geral. Porém, os seus cargos estavam longe de terminar. Em 1997, exerceu funções de Diretor do Centro de Saúde de Lousada, na qualidade de substituto direto.

Em 1999, foi orientador de um programa de formação de meio rural na Faculdade do Porto. “Dá muito trabalho ser orientador e, além do mais, ganhava-se pouco”, salientou, mas não esquece o quão gratificante é assistir a tudo a acontecer.

Museu da medicina em Lousada

Enquanto cidadão e médico, Rui Neto esteve envolvido em várias vertentes de cariz associativo. Durante 8 anos foi médico do Automóvel Clube de Lousada, tendo gostado bastante do trabalho que desempenhou em conjunto com outros elementos.

Fez parte do Núcleo Executivo de Crianças e Jovens em Risco e do Núcleo Executivo de Inserção Social e, ainda, de um estudo a nível europeu sobre determinadas doenças.

Além do mencionado até aqui, foi médico dos Bombeiros, deu palestras, foi a congressos, trabalhou numa fábrica na parte da medicina no trabalho, foi médico do Tribunal de Lousada, entre outros cargos e encargos.

Esteve igualmente nas Jornadas de Clínica Geral, de Lousada, que surgiram com o intuito de melhorar a qualidade de vida da população em termos de cuidados médicos e saúde pública. Recordou que a primeira Jornada de Clínica Geral realizou-se em 1999 e, desde então, houve inúmeras. De acordo com o próprio, “esta foi muito bem organizada e auferiu da presença de pessoas de renome”. O seu papel passou por ser organizador e sobre as mesmas enaltece “o sentimento de missão cumprida porque deixei algo aos meus colegas e à população de Lousada”.

Por fim, a terminar a entrevista a O Louzadense, Rui Neto revelou que “gostaria que houvesse um museu da medicina em Lousada, para que não se perca certos costumes, instrumentos e hábitos de antigamente”.

1º Jornadas Médicas de Lousada
Medalha das Jornadas

1 Comment

  1. MARIA JOSE MARTINS PACHECO GONSALVES NETO

    COM GRANDES SAUDADES QUE O RECORDO COM MUIINTO AMOR E CARINHO

    Reply

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