por | 10 Dez, 2023 | Abril Louzadense, Cultura

A revolta da fome (em São Miguel)

ABRIL LOUZADENSE (V)

Há oito décadas viviam-se tempos de fome entre a classe popular. Uma restrita minoria opulenta, com fortes ligações ao regime salazarista, engordava as suas posses. A 1 de julho de 1944 deu-se uma revolta do povo, junto à ponte de São Miguel (Lousada). Consistiu numa tentativa de assalto ao armazém do pão e cereais. Os sinos da igreja tocaram a rebate; os agentes da autoridade dispararam tiros para o ar; homens e mulheres escondidos nos terrenos elevados atiraram pedras à GNR. A polícia à paisana, a PVDE1 (que no ano seguinte se chamaria PIDE2), prendeu vários intervenientes.

O regime político totalitário de Salazar procurou durante a II Grande Guerra transmitir à Europa que Portugal, grosso modo, vivia bem. Os números das exportações comerciais, de facto, eram avultados, sobretudo para a tradicional aliada diplomática, Grã-Bretanha, e para a beligerante Alemanha nazi. Para lá iam quantidades avultadas de cereais, volfrâmio e conservas de peixe. Mas os proveitos estavam nas mãos de uma minoria de portugueses, que lucraram com os “negócios de guerra”. A disparidade social era evidente e a maioria da população não comia o suficiente. Havia subnutrição e miséria, grassavam doenças entre os adultos e a mortalidade infantil era terrivelmente alta.

A escassez de bens essenciais (que obrigou o Governo a instituir o racionamento de produtos), o açambarcamento, a subida dos preços e a inflação, bem como o desemprego, geraram fome e instabilidade social em muitos pontos do país.

Em Agosto de 1943, mais de 2000 operários do calçado de S. João da Madeira manifestaram-se na rua e foram violentamente reprimidos pela GNR. As filas para as senhas de racionamento passaram a ser palco de focos de socialização e de insatisfação social. Nesse ano, os próprios serviços secretos norte-americanos informaram Washington de que, em Portugal, o movimento de revolta popular tinha um carácter subversivo, não porque os operários fossem comunistas, mas porque a propaganda do PCP tocava “nas raízes da sua miséria”.

Com este contexto socioeconómico em pano de fundo, ocorreu em São Miguel uma revolta que foi violentamente abafada pelas forças da ordem, como quase todas as outras que eclodiram na época. “De Penafiel vieram muitos guardas, a cavalo e em carros militares”, recorda Manuel Magalhães Morais, 87 anos, de São Miguel . À data dos factos tinha 6 anos e frequentava a escola primária em Santa Margarida, onde ouviu a professora Alcina Ferreira Vaz afirmar que “o Salazar livrou-nos da guerra, mas não nos livrou da fome”. Conhecido na freguesia pela alcunha “Pistola”, Manuel Morais conta que “o povo sabia que o milho faltava porque ia para o estrangeiro, de comboio e de barco, com letreiros a dizer «sobras de Portugal», como se o país fosse rico, mas éramos pobres e sobrevivíamos com uma fatia de pão por dia, que se levantava no posto de racionamento, na casa junto à ponte dos moinhos”.

A sua esposa, Maria Aurora Ferreira Moreira, de 85 anos, teve o pai, António Moreira, envolvido na revolta da ponte de São Miguel. A filha daquele lavrador, que tratava da quinta de um senhorio, relata que a sua mãe “disse que ia com a senha do racionamento levantar o pão, que iam distribuir naquele dia e eu fiquei com os meus irmãos a ver o meu pai a apanhar peras”. Quando se ouviram os tiros vindos do lado da ponte e o sino da igreja a tocar a rebate “o meu pai desceu da pereira, meteu numa enxada ao ombro e dirigiu-se para a ponte; só o voltaria a ver seis meses depois; perto da ponte encontrou a minha mãe e disse-lhe que fosse para a beira dos filhos”. Tal como outros conterrâneos (Mário Chila, José de Sousa Cantarinha e outros), António Moreira foi detido (4-7-1943) pela PVDE1 sob acusação de “motim e alteração da ordem pública”, conforme consta da sua “biografia prisional” existente no arquivo da Torre do Tombo. Só foi julgado a 6-8-1945 e condenado a 60 dias de cadeia, pena que foi dada como cumprida em excesso, mas nenhuma indemnização teve lugar. Como se isso não bastasse, “alguns meses depois de prenderem o meu pai, dois polícias à civil foram lá a casa dizer que tínhamos de pagar os prejuízos das pedras atiradas aos carros da polícia; lembro-me da minha mãe dizer que nada tinha pois  ao tirarem-lhe o marido, tiraram também a fonte de rendimento”, descreve Maria Aurora. Esta lembra-se da vinda do pai numa saída precária seis meses depois da detenção: “recordo-me que veio só durante umas horas e trazia feridas, uma espécie de borbulhões, no corpo, talvez de lhe baterem; recordo-me de ver a minha mãe a tratá-lo com uns panos molhados em algo”.

1 PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado)    2 PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado)

Fontes: Fernando Rosas (1994) História de Portugal, dir. por J. Mattoso, vol. VII; Irene Pimentel, in jornal Público, 5 de Agosto de 2012; Jornal de Lousada (vários exemplares, in Arquivo Municipal de Lousada digital); Arquivo da Torre do Tombo.

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