Há um tipo de poder que não se impõe pela força. Instala-se devagar, em silêncio, aproveitando a ausência de quem deveria questionar. É o poder da acomodação, e é o mais difícil de combater, porque não tem rosto, não tem decreto, não tem data de início.
Neste 25 de Abril, vale a pena pensar no que a liberdade exige além das datas comemorativas. Exige manutenção. Exige que haja alguém, em cada câmara municipal, em cada assembleia, em cada sala onde se decide com dinheiro público, disposto a perguntar: porquê? A quem? Com que fundamento? E a não aceitar o silêncio como resposta.
Em Lousada, durante anos, essa pergunta não foi feita com regularidade. Não por má-fé dos lousadenses. Mas porque quando uma força política governa sem oposição real durante tempo suficiente, forma-se um hábito. O hábito de não explicar. De tratar a informação como assunto interno. De confundir o município com o executivo, e o executivo com quem o lidera. De gerir como se o poder fosse uma propriedade adquirida, e não um mandato temporário concedido pelos cidadãos.
Esse hábito não é uma conspiração. É uma consequência natural e previsível do poder sem escrutínio. Aconteceu em Lousada. Acontece em dezenas de municípios portugueses. E acontecerá sempre que a oposição for fraca, ausente ou simplesmente acomodada.
Quando a Iniciativa Liberal tomou assento na Assembleia Municipal de Lousada, em Outubro de 2025, não chegou para perturbar. Chegou para fazer o que uma oposição democrática deve fazer: fiscalizar, questionar, exigir. Coisas simples. Coisas que a lei prevê, que a democracia exige, e que ao longo de anos foram tratadas como excepcionalidades incómodas.
O que encontrámos foi revelador. Não de corrupção: não temos provas disso e não é o que estamos a dizer. Mas de uma cultura de governação que habituou a não prestar contas porque ninguém as exigia. Obrigações legais tratadas como sugestões. Prazos que existem na lei mas que a câmara desconhece, ou finge desconhecer. Argumentos que mudam de forma consoante a conveniência do momento. Informação que circula internamente mas que não chega a quem tem o direito constitucional de a receber. Uma oposição que é recebida com surpresa, como se a sua existência fosse uma novidade inconveniente, e não uma peça essencial do sistema democrático.
Isto não se combate com escândalo. Combate-se com persistência, com rigor e com a disposição de continuar a fazer as mesmas perguntas até receber respostas.
Há quem pergunte: para quê? Para que serve fazer perguntas numa assembleia onde a maioria já está garantida? Para que serve exigir documentos que chegam sempre tarde, ou não chegam? Para que serve uma oposição de dois deputados numa sala de trinta e sete?
Serve para que os lousadenses saibam. Para que os números sejam lidos. Para que os contratos sejam questionados. Para que as despesas sejam explicadas. Para que os prazos legais sejam cumpridos. Ou, quando não são, para que fique registado que não foram. Para que o poder saiba que está a ser observado. Porque um poder observado comporta-se diferente de um poder que acredita ser invisível.
Serve, no fundo, para que Lousada pertença aos Lousadenses. Não a quem governa. Não a quem há mais tempo ocupa os lugares. Não a quem tem as chaves do edifício dos paços do concelho. Aos Lousadenses. Que pagam os impostos, que usam os serviços, que vivem as consequências das decisões tomadas naquela sala.
O 25 de Abril não se celebra. Pratica-se. Pratica-se cada vez que alguém exige uma resposta que não lhe querem dar. Cada vez que a lei é invocada contra quem a deveria cumprir e não cumpre. Cada vez que uma voz minoritária recusa ser silenciada por conveniência da maioria. Cada vez que um cidadão lê um mapa de execução orçamental e pergunta o que significa aquela rubrica com um milhão e oitocentos mil euros comprometidos em dois meses numa linha chamada “Outros Serviços”.
Não é muito. Mas é exactamente para isso que a democracia serve.
Lousada não tem donos. E nós cá estaremos para o lembrar.













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