Os livros que lemos marcam o nosso caminho. Além de verdadeira, esta afirmação convoca as mil possibilidades dos livros, quando abertos à imensidão da nossa paisagem interior, fazendo emergir a imaginação, a memória e até os sonhos. Como Irene Vallejo, «quando era pequena achava que os livros tinham sido escritos para mim», por isso, em certa medida, estes procuravam-me para clarificar as minhas escolhas, dando a conhecer lugares distantes e tempos extraordinários .
As férias, por serem um tempo de corte com a rotina, são um convite ao livro – uma predisposição para o espanto, a aventura e a lentidão própria do hemisfério do tempo. Há livros que trazem memórias de férias passadas e se implicam com os momentos então vividos. Lembro de, há muitos anos, era eu ainda muito jovem e levar comigo O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, para um acampamento de férias junto ao mar. O romance de Saramago pela sua efabulação extraordinária, onde o autor imagina um mundo em que as pessoas vão cegando aos poucos e o caos se instala arrastando a humanidade para o seu estado mais selvagem, leva o leitor a mergulhar em cheiros, imagens e sons de um mundo em ruínas, com imagens e sensações de náusea e de dor incomensuráveis. O romance acrescentou notas de melancolia ao meu verão, mas deu-lhe também o equilíbrio necessário para mergulhar no mar fundo.
Desde esse verão distante, que esse livro de Saramago me persegue misturado no cheiro da maresia, o marulhar do oceano e a alegria estival. Embora todo o verão se situe nas antípodas do universo cinzento criado pelo nobel da literatura, essa narrativa sublinha uma espécie de confronto entre a efabulação e a vida. O livro é, então, o relato de uma experiência, concebida a partir da verosimilhança com o mundo real, mas sobretudo como resgate de valores como autenticidade e integridade da vida. Formula-se em todo o romance o desejo de um difícil regresso a uma vida em plenitude, tornando-se possível VER, ou seja, compreender a justiça e a falta dela entre os seres humanos.
A nossa biblioteca de verão não existe só para oferecer um refúgio (embora também o seja), ela pode ser um exercício de equilíbrio entre o caos do mundo e a união dos seus pedaços dispersos, dispostos em outra arquitetura. Uma forma de pensar o nosso presente. E no futuro.
Conceição Brandão
Professora













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