GONÇALO SANTOS, ESCRITOR
Chama-se Gonçalo Teles dos Santos, tem 44 anos, é natural de Sousela e lançou recentemente um livro intitulado “Depois – Resquícios de um longo regresso a casa”. A escrita foi incentivada pelo saudoso tio Adolfo Teles. Depois desta obra de poemas, que considera um sucesso, quer lançar-se na produção duma obra de ficção. A intensa vida familiar não lhe dá muito tempo livre, mas voltar ao associativismo cultural é um desejo que está em aberto.
“Este não é o meu primeiro livro”, diz o autor, que em 2003 lançou um livro de poesia com o título “Post-Scriptum”. “Esse livro teve uma tiragem de 150 exemplares e foi levado por mim de forma muito inocente, pois doei praticamente todos os exemplares para uma feira do livro cujos fundos revertiam para uma causa, já não sei precisar bem o quê, apenas sei que não sobraram exemplares e nem eu próprio me lembrei de ficar com um para mim”, declara.
A nova publicação já foi “algo mais a sério, está devidamente registado e posso assegurar que apesar de já ter vendido praticamente todos os exemplares, lá em casa, cada um fez questão de ficar com um, como somos seis, será difícil que daqui a 20 anos eu possa dizer o mesmo que hoje digo em relação ao meu primeiro livro”.
O livro “Depois – Resquícios de um longo regresso a casa” é para o autor “uma espécie de coletânea de poemas que fui escrevendo ao longo da minha vida… À medida que ia reunindo os poemas que queria publicar, comecei a constatar que eles contam uma história de um jovem com 15 anos que foi crescendo, tornou-se adulto, apaixonou-se, teve filhos, sofreu, perdeu pessoas e foi vivendo muitas experiências, com quem qualquer pessoa se pode identificar”.

Trata-se duma obra que em 2012 “tinha estado para ser publicada por uma editora e teria a colaboração de um artista plástico, entre outras pessoas do mundo artístico, que conheci, numa altura em que residi em Alcobaça”. A ideia acabou por não avançar “porque a tal editora entrou em falência e eu próprio fiquei sozinho a tomar conta dos meus filhos mais velhos, o que me impediu de dar continuidade ao projeto”.
Três meses depois do lançamento, “o balanço é francamente positivo, posso adiantar que vendi logo no primeiro mês praticamente todos os exemplares que tinha comigo, cerca de 280 de um total de 300, tendo ficado os restantes exemplares espalhados por alguns estabelecimentos”. Neste processo, o que mais o surpreendeu “foram as reações, pois fui recebendo mensagens e até abordagens na rua, ou quando vou às compras, de pessoas que gostaram e que se reviram num ou outro poema… Essa é a verdadeira magia, é quando percebemos que um poema, escrito por nós, pode tocar as pessoas, deixando de ser nosso e passando a ser de quem o lê”, declara Gonçalo.
Influência do tio Adolfo
Recuando no tempo, até 2002, encontra motivos para a inspiração da sua escrita. “Aconteceu algo a nível pessoal, a morte da minha mãe, irmã do meu tio Adolfo, facto que nos aproximou… Começamos por nos encontrar no café, ainda a minha mãe estava doente e depois fomos continuando a falar e chegou um momento em que eu chegava ao café e o meu tio já lá estava à minha espera. Ele partilhou imensos episódios da sua vida comigo e eu timidamente fui partilhando algumas coisas com ele”, relata o escritor.
Para seu espanto, o tio, que era um escritor experiente e com longa tradição da área, além de ser professor de Português, “elogiou a minha escrita, pois já tinha lido alguns textos que eu havia publicado no jornal da escola secundária, O Pias, tal como no extinto jornal da Paróquia de Sousela que ajudei a fundar e no jornal TVS”.
Isso incentivou-o a partilhar os meus poemas com o tio, que escreveu o prefácio que se destinava ao tal livro “Post-Scriptum” e que decidiu repetir neste livro, “pois quando recentemente faleceu, senti que lhe devia esta singela homenagem”.
“Este livro é como que o encerrar dum capítulo, quase como quem cumpre uma promessa. Mas depois desta experiência, gostaria de um dia desses aventurar-me a publicar algo mais complexo”, afirma Gonçalo, que revela que está a pensar avançar com “uma obra de ficção, que tenho na minha cabeça e até já escrevi algumas páginas, que andam lá em casa, algures numa gaveta de memórias”.
Faz falta uma feira do livro
Diz que “como autor senti agora mais do que nunca a falta uma feira do livro” e lamenta “a quantidade de pessoas que diz não gostar de ler… E na sua grande maioria, são jovens e uma boa parte licenciados… É preocupante o nível cultural do nosso povo e acho que é preciso criar dinamismos e atividades que façam crescer dentro das pessoas a vontade de ler”, sublinha.

Além da escrita e da profissão, desenvolve “atividades na paróquia de Nespereira. Neste momento, não tenho tempo para desempenhar outras tarefas, pois somos uma família de 6, o meu filho mais velho vai agora para o 2º ano no curso de Teatro e os outros 2 preparam-se para em Setembro entrar também na vida universitária. Além disso, tenho o benjamim da família, um pequenino pestinha com 2 anos, que preenche-nos completamente”, revela Gonçalo.
Contudo, confessa que tem “saudades de desempenhar mais funções a nível cultural” e recorda que pertenceu “a uma equipa fantástica que abriu e colocou a funcionar o Museu do Vinho de Alcobaça em 2012 e desde que, por motivos pessoais, regressei a Lousada, fui-me dedicando muito à família e desliguei-me de algumas coisas que me preenchiam imenso e ficou ali uma pequena lacuna que ainda não preenchi devidamente”, mas é uma possibilidade que está em aberto.














Comentários