E DEPOIS D’ABRIL? [6]
Foi há 45 anos, em 11 de novembro de 1975, que foi declarada a independência de Angola, até então uma “província ultramarina” como lhe chamava o regime derrubado um ano antes, no 25 de Abril. A debandada de portugueses foi massiva. “Quase sem olhar para trás”, Toni Leitão, a sua esposa Fátima Costa e a filha de nove meses, Ana, vieram para Lousada. A adaptação não foi fácil. As memórias não ajudavam. E o rótulo de retornados também não. Ultrapassaram tudo e inseriram-se na vida local. A música lousadense deve muito a Toni Leitão.
Embora a designação retornados evoque o regresso, alguns portugueses que vieram das ex-colónias depois de 25 de Abril de 1974 nasceram nas antigas colónias. Foi o caso de António “Toni” Henrique Estêvão Leitão, nascido em Angola, em 1951. Veio para Lousada em 1975 onde a esposa tinha ligações familiares.
O regresso de um número elevado de pessoas transformou a sociedade portuguesa de uma forma profunda. Principalmente os que desempenhavam funções administrativas nas ex-colónias, eram bastante instruídos e isso contribuiu para a modernização de aldeias e cidades de todo o país, o fornecimento de peritos nas áreas da Saúde e Educação, o lançamento de novos negócios, transformação da rádio e televisão e a liberalização de costumes. O caso de Toni Leitão foi exemplo disso. Atualmente vive em Cascais, mas tem família em Lousada, onde viveu durante três décadas.
Em Luanda, Toni era escriturário e os seus pais tinham profissões liberais. A mãe era tradutora de inglês numa empresa pública de exportações e o pai era diretor de uma metalurgia que produzia componentes para o caminho de ferro, uma das infraestruturas que estava em grande expansão em Angola.
A vida social e cultural “era muito intensa”, com concertos, espetáculos, convívios e festas sociais. Neste contexto, António Leitão e a sua família estavam “quase totalmente fora da política” e foram apanhados desprevenidos quando a instabilidade começou a surgir cada vez mais intensa, desde que em Portugal se deu a revolução e respetiva mudança de regime. “Nem tinha noção do regime em que vivia Portugal. Ouvia falar do Salazar e do Marcelo. Ouvia falar no terrorismo e que havia uma guerra. Mas nunca tinha sequer ouvido falar no MPLA, nem na FNLA, nem em partidos políticos, nem em democracia nem em fascismo”, relata aquele cidadão natural de Luanda e cujos pais eram das Caldas da Rainha.
Quando se deu a vinda para Portugal, tinha casado há pouco mais de um ano, com Fátima Costa, natural de Lousada, e tinham uma filha, com nove meses. A bebé foi o principal motivo para a fuga da “cada vez mais perigosa Angola”. Vieram com uma mão à frente e outra atrás. Deixaram em Luanda uma vida desafogada. “Passamos muitas privações e não foi fácil recomeçar a vida”, refere a filha Ana Costa Leitão, com base nos relatos dos pais e outros familiares. Um dos aspetos que mais lamenta foi a “dispersão da família por vários pontos do mundo, com alguns a ir para a África do Sul e outros países”. Outrora vista como um eldorado, aquela Angola não era apetecível. A guerra civil estava a instalar-se e, pior que isso, a perseguição aos brancos tornara-se insustentável.
Os conhecimentos em eletricidade e contabilidade foram úteis para se dedicar a várias profissões. A par disso, a música esteve sempre presente na vida de Toni. Fez parte dos Foco, dos Baco e dos Gaivotas do Rio Sousa, agrupamentos musicais de grande renome em Lousada nas décadas de 1970 e principalmente 1980. Os seus conhecimentos musicais, adquiridos “em boas escolas e colégios de Angola” foram propícios para o desenvolvimento dessa área em Lousada.
Um amigo de longa data, José Mário Sousa, recorda que “em 1975 deu-se esse fenómeno muito curioso do regresso de pessoas de Angola e Moçambique e que despoletou várias mudanças sociais em Lousada”. Em Lagoas, Nespereira e arredores corria a notícia da chegada de “indivíduos com aspeto estrangeiro, mas que eram filhos de gente de cá e traziam instrumentos e discos”, recorda Zé Mário em declaração ao projeto «Louzarock, 50 anos de Rock em Lousada».
Quem tentava fazer música nos anos 1970, sem os devidos meios, tinha que improvisar: “fazíamos das tripas coração para tocar e sem dinheiro não era fácil, mas inventávamos, como por exemplo usávamos peles de coelho para fazer tambores e batuques”, recorda aquele músico de Lagoas. O entretenimento daqueles jovens estava prestes a mudar. “Ouvimos falar que tinha chegado a Lodares alguém com violas elétricas como as dos Beatles e dos Rolling Stones e, claro, ficamos em pulgas, ansiosos por ver isso”, relata José Mário. Foram quase de porta em porta e em Santa Isabel (Lodares) encontraram quem procuravam. “Ficamos boquiabertos com as guitarras elétricas”, recorda. A música acompanhou sempre Toni Leitão. Mesmo na partida atribulada não deixou para trás o seu espólio musical.
Bibliografia consultada: Jornal de Lousada (edições de 1974 e 1975) in Arquivo Municipal de Lousada; O Retorno (2011), de Dulce Maria Cardoso Retornados, Desalojados, Expoliados – a tragédia nacional dos retornados, portugueses expulsos de Angola (1976) de António Pires PIMENTA, Fernando Tavares – “Causas do êxodo das minorias brancas da África Portuguesa: Angola e Moçambique (1974/1975)”, Revista Portuguesa de História, n.º 48, 2017.














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