por | 30 Ago, 2024 | Correio do leitor, Opinião

POVO LIVRE: 50 Anos a escrever a História do Portugal contemporâneo

O meu primeiro contato com o PPD deu-se nos idos de 1974, quando comecei a militar na JSD e a colaborar no seu jornal “Pelo Socialismo”, que era editado juntamente com o Povo Livre e de que, mais tarde, viria a ser diretor adjunto – pasme-se – o meu caro amigo Paulo Portas.  

Eram tempos difíceis, conturbados e imprevisíveis em que para sobreviver politicamente era imperioso assumir uma posição de clara rejeição do antigo regime, muitas vezes a par com alguns arroubos de esquerdismo, traduzidos pela reiterada afirmação programática e doutrinária da social democracia como via para o socialismo democrático.

O Povo Livre no dealbar do seu nascimento naturalmente que não ficou imune  a essa conjuntura, plasmando amiúde nas suas páginas a crispação do debate político dessa época, em que a dicotomia democratas e fascistas era a pedra de toque discursiva de qualquer revolucionário que se prezasse. Revisitar o Povo Livre nestes cinquenta anos passados é, deste modo, recordar a história do partido e do país. Há, contudo, na minha perspetiva pessoal e o Povo Livre retrata-o, cinco líderes, que eu me atreveria a qualificar como os cinco grandees , que marcaram e marcam a história do PPD/PSD.

Desde logo, Francisco Sá Carneiro, o fundador e alma mater do PPD, que com uma sagacidade política invulgar soube contornar a instabilidade e os excessos de uma revolução sem rumo, proclamando na cidade e no mundo a liberdade, a igualdade e justiça social como baluartes da democracia e do desenvolvimento económico e social.. O Povo Livre foi um dos preciosos instrumentos dessa mensagem de Francisco Sá Carneiro, atenta a restrição à liberdade de imprensa e de expressão imposta pelo aparelho político militar afeto ao PCP.  Sá Carneiro, que já tinha sido um notável defensor das liberdades e dos direitos humanos na famosa ala liberal do crepúsculo do marcelismo, continuou a pugnar pelo valor supremo da dignidade da pessoa humana,  ficando célebre a sua frase de que…” O Homem é a nossa medida, nossa regra absoluta, nosso início e nossa meta “. 

Depois Aníbal Cavaco Silva, o homem do leme com uma visão estratégica para Portugal,que soube como ninguém tirar partido da nossa adesão à CEE em 1986 para modernizar Portugal, rasgando novas vias de comunicação estruturantes para o país, reformando o sistema económico, financeiro e fiscal, diminuindo o peso do Estado na economia através de um vasto programa de privatizações, reforçando a componente da valorização dos nossos recursos humanos através da formação profissional e abrindo a comunicação social aos privados em prol  da pluralidade e da liberdade de expressão. Fica para a posteridade o seu desabafo um dia quando disse… ”Deixem-me trabalhar”, expressando bem o seu papel de governante fazedor e não de mero escrutinador ou comentador.

A seguir, José Manuel Durão Barroso, o cidadão português que desempenhou até hoje o mais alto cargo na cena política internacional, prestigiando Portugal e os portugueses nos 10 anos que passou à frente da Comissão Europeia a partir de 2004. Homem dotado de uma cultura e inteligência invulgares, José Manuel Durão Barroso tem ainda o seu nome associado aos êxitos da diplomacia portuguesa  enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, sendo particularmente reconhecida a sua atividade e proficiência na procura da paz em Angola através dos Acordos de Bicesse. Será ainda sempre lembrado pela sua certeira premonição quando disse, um dia sendo líder da oposição… “Sei que vou ser primeiro ministro, só não sei é quando”.

Mais tarde Pedro Passos Coelho, o primeiroministro que assumiu a condução dos destinos do país após o memorando de entendimento com a Troika, em 2011, livrando Portugal da bancarrota. Líder dotado de uma coragem e determinação inabaláveis, ficará para sempre na nossa memória o discurso de verdade e frontalidade com que se dirigia aos portugueses num dos momentos mais difíceis da nossa história recente. Foi por vezes injustamente tratado, designadamente quando lhe imputaram o mito urbano de que queria ir além da Troika quando o que efetivamente disse numa sessão de encerramento da Associação Nacional de Municípios em Coimbra foi que… “independente daquilo que foi acordado com a UE e o FMI,  Portugal tem uma agenda de transformação económica e social que é decisiva para pôr fim a modelos de endividamento insustentáveis”.

Por último, Luís Montenegro, o atual primeiro-ministro de Portugal em que os portugueses se revêem, sendo consensual ao fim de pouco mais de cem dias de governo que finalmente temos um governo que decide e que tem um rumo e um desígnio de crescimento para Portugal. Ficou patente a sua inabalável convicção quando sentenciou ainda na oposição, relativamente a um eventual acordo com o Chega que… “Não é não”. Frontalidade, perseverança, assertividade, humildade e mundividência são outros dos seus atributos. Luís Montenegro está a fazer paulatinamente o seu caminho. Vai ter ainda muito para dar a Portugal e aos portugueses.

Eis os cinco grandees do PSD.

O Povo Livre cá estará, ontem, hoje e sempre, para exaltar o seu exemplo e para continuar a escrever a História do Portugal contemporâneo.

Jorge Neto

Advogado

Militante do PSD

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