Fado é tradição familiar em Casais

JOSÉ ANTÓNIO RIBEIRO MENDES, 63 ANOS

Ao falar de fado em Lousada é imperativo referir algumas famílias onde o estilo musical constitui uma tradição. É o caso dos Mendes, de Casais. Um dos seus elementos é José António, de 63 anos de idade. É um fadista dedicado ao estilo de Coimbra, à antiga moda estudantil. Herdou do seu pai a vocação, mas diz que “o jeito já nasceu comigo”. Embora amador, tem pergaminhos bem firmados na arte deste tipo de canção nacional. Esteve retirado das lides em público até ao mês passado, quando reapareceu na casa de fados de Freamunde, que teve honras de transmissão pela rádio local.

O fado implantou-se em Lousada desde os tempos da Severa, ou Pensão Lousadense, em meados do século XX. Cantores antigos como Gilberto Bagaço, Natalina Ferreira e outros, foram protagonistas desse estilo musical nas décadas de 1970 e 1980. Mais tarde surgiram Joaquim Cardoso e Melanie, ambos da Senhora Aparecida; Fernando Moreira, e seus familiares, de Sousela; e a família Mendes, de Casais, liderada por António Mendes, de 88 anos, pai de Margarida e José, ambos fadistas conceituados e que fazem jus ao ditado «filho de fadista, fado sabe cantar». Nesta edição, o jornal O Louzadense dedica especial atenção ao filho José António.

É um comerciante de calçado, que nasceu em Casais há 63 anos, filho de António de Morais Mendes e de Maria Isabel Ribeiro Nunes. Juntamente com o pai e a irmã Margarida, são referências incontornáveis do fado do nosso concelho.

“As memórias mais antigas que tenho da minha infância são do meu pai a cantar. Em casa cantava-se vários estilos de canções, mas era o fado de Coimbra que mais me despertava a atenção”, explica o entrevistado.

José Mendes

Embora o seu pai e a sua irmã Maria das Dores tenham feito parte de um conjunto típico, José Mendes nunca o integrou. Recorda que chamava-se conjunto musical Estrelas da Aldeia: “o meu pai era o vocalista com a Maria das Dores, e havia também o Ferreira, o Pacheco que tocava acordeão e os irmãos Manuel e o José Chamusca”.

Falar de influências “é falar do meu pai”, revela o entrevistado, que se diz orgulhoso por saber que “a família Mendes é uma referência para muita gente no mundo do fado”. “Só de o ouvir desenvolvi o gosto e o jeito que eu acho que já nasceu comigo. Um dia, eu disse que também era capaz de cantar fado de Coimbra e assim comecei, em boa hora, pois para mim é uma alegria, uma paixão, uma felicidade, poder cantar fado de Coimbra”, acrescenta José Mendes que remata esta parte da entrevista com “é um arrepio bom que sinto” quando se apresta para cantar ao vivo.

Dentro do fado, existem vários estilos ou géneros, entre os quais o Fado de Lisboa, o Fado Canção, o Fado Vadio e o Fado Castiço. ”Na nossa família somos três a cantar fado. Eu e o meu pai cantamos fado de Coimbra, enquanto a minha irmã canta fado de Lisboa”, esclarece.

ATUAÇÕES NO ESTRANGEIRO

É com saudade que recorda a primeira atuação em público: “aconteceu num local emblemático para mim e ficou para sempre marcado na minha memória. Foi no auditório municipal de Lousada. Também bastante marcante foi a atuação em França, quando fui convidado pela Câmara Municipal de Lousada para participar numa representação de artistas do nosso concelho na cidade de Tule”.

Outra ida ao estrangeiro aconteceu em 1992, em Espanha, onde participou num evento com fadistas da região do Vale do Sousa.

Ao longo da carreira aconteceram atuações inesquecíveis, mas “são determinados afetos e elogios que mais ficam na memória”, declara o intérprete. Recorda que “certo dia, fui fazer uma noite de fados a Entre os Rios, onde participaram vários fadistas, e no final do espetáculo um senhor com ar distinto dirigiu-se a mim e deu-me os parabéns por ser o único fadista a cantar fado de Coimbra”. Isso deixou José Mendes sensibilizado “não por vir de pessoa assim tão distinta, podia até ser de uma pessoa qualquer, o que mais me deixou contente foi ouvi-lo dizer que «cantar fado qualquer um canta, mas fado de Coimbra canta quem sabe e o senhor tem Coimbra dentro de si», é claro que fiquei maravilhado e isso dá ânimo para continuar”, conclui José António Mendes

José Mendes, fadista

Não se considera um artista exigente e gosta de cantar “em qualquer lugar”. Só há um requisito obrigatório: não haver barulho. Por isso, para José Mendes, é sagrada a expressão «Silêncio que se vai cantar o fado».

Recentemente cantou na casa de fados de Freamunde, num evento muito badalado e que marcou o regresso deste fadista às luzes da ribalta. Para o futuro tem um desejo, no que diz respeito a atuações: “adorava fazer uma noite de fados ao ar livre, em frente à Câmara de Lousada”. Conta que esse desejo é antigo e espera poder concretizar em breve.

Um fadista precisa de acompanhamento musical e os acompanhantes habituais de José Mendes são Jorge Teixeira e Carlos Costa, à viola, e na guitarra portuguesa é acompanhado por João Teixeira, todos de Cristelos.

O reportório de José Mendes não tem originais e é ocupado com temas conhecidos. “Os meus gostos coincidem com os gostos do público para quem eu canto”, afirma. Nos seus temas preferidos enumera vários clássicos como “Meia noite ao luar”, “Ondas do mar”, “Feiticeira”, “O meu menino é d’oiro”, entre outros. Importante presença no seu reportório de escolhas são alguns temas de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, nomeadamente «Trovas do vento que passa». Alguns destes temas estão no CD que a família Mendes gravou há cerca de 12 anos.

O FUTURO ESTÁ ASSEGURADO

Relativamente a cantores, “entre os mais antigos eu adoro ouvir o Dr. Lutário José, um antigo fadista de Coimbra que o meu pai adorava e eu depois de o ouvir também gostei e fiquei admirador e canto fados dele”. Entre os autores da geração mais nova, “aprecio muitos”, diz o fadista, que sublinha que é um admirador dos cantares das tunas académicas.

Dos sítios onde habitualmente atua, destaca vários restaurantes da região e arredores, mas também “a casa de fados de Freamunde e a casa de fados de Moreira (Sousela) que também já lá fui cantar”.

“O fado está bem vivo no concelho de Lousada, com alguns intérpretes e fiquei contente há dias ao ver uma jovem de cá no programa Praça da Alegria, da RTP, a cantar um fado acompanhada pelos meus guitarristas”. Também por esse motivo José Mendes diz que “o fado não é um estilo antiquado e tem muitos jovens a cantar e a gostar de ouvir”. O futuro está assegurado e “isso deixa-me muito satisfeito”, conclui José António Ribeiro Mendes.

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