“O momento mais difícil? O adeus ao Faria…”
A companhia de teatro residente do Auditório Municipal de Lousada faz 25 anos e já iniciou as comemorações. O Louzadense anuncia aqui em primeira mão algumas das atividades programadas para 2025. Foi fundada por Faria Martins, Xico Alves e Luiz Oliveira. O falecimento do primeiro, em 2012, foi “um rude golpe emocional” para a coletividade. A retirada do apoio plurianual da Direção Geral das Artes, há dois anos, foi outra das contrariedades. “Foi preciso muita força”, mas a companhia prosseguiu firme, na implantação de um projeto artístico, que é aplaudido por todos os setores com ovação.

A última peça de Faria Martins, um dos mentores da Jangada, foi em 2011, em Lamego, recorda o seu amigo de longa data, Xico Alves. Ali foi exibida a peça Festa dos Portos, um êxito onde o malogrado ator sobressaía com o seu carisma e sobriedade teatral. O seu desaparecimento “foi um rude golpe emocional para todos”, afirma o amigo. “Éramos um trio onde ele era a trave mestra”, atira Luiz Oliveira, outro dos fundadores da companhia aniversariante.
“Não é fácil conviver tantos anos como os que a Jangada já viveu, mas nós conseguimos”, declara Luiz Oliveira. Dizem que o segredo da longevidade e êxito da Jangada é a unidade. “Somos uma cooperativa, onde ninguém anda de chicote ou de pau na mão”, brinca Xico Alves no seu reconhecido estilo, que combina seriedade com humor.
A Jangada tem um amplo rol de êxitos no palco e fora dele, mas continuando a falar de dificuldades é incontornável referir o corte de financiamento da Direção Geral das Artes, em 2022. Por estes dias aguardam o resultado do concurso anual que deverá estar para sair. Do desaire do ano passado, diz Luiz Oliveira que “tivemos que arregaçar as mangas para não fechar a porta. Chegamos a ponderar reduzir a estrutura, cortar na logística e nos recursos, mas não cedemos a isso, ganhamos força e fomos em frente”.
No dizer de Ana Luísa Fernandes, a produtora da companhia, “um dos fatores que nos ajudou muito foi o apoio de vários municípios que souberam da injustiça que nos havia sido cometida e contrataram-nos vários espetáculos”.
“Sim, a solidariedade veio ter connosco, a partir de várias entidades que reconheceram a necessidade de nos apoiar diante daquela falta”, acrescentou Luiz.
Reportando-nos aos Êxitos, muito haveria a dizer e faltaria papel. Em resumo, Xico Alves destaca como momento alto destes 25 anos em termos criativos, “a gigantesca produção com a companhia Trigo Limpo, que nos ajudou a levar à cena em plena Vila de Lousada, uma peça do Zé do Telhado, que envolveu as forças vivas da localidade”.
Para Luiz Oliveira, “o meu destaque vai para o reconhecimento da atividade da Jangada fora de portas. Lousada e o Vale do Sousa, assim como o Norte do país, reconhecem o nosso trabalho, mas é de assinalar o quanto somos elogiados e vistos como mais valia quando vamos ao estrangeiro”.
“Fazemos questão de levar as nossas peças em português, pois entendemos que é uma forma de sermos genuínos, de transportamos quem somos e divulgar e valorizar o Português”, acrescenta. Nestes 25 anos percorreram inúmeros países, desde o Brasil ao México, passando por Lituânia, Grécia e Macau. “Há muito que não vamos lá fora, temos que agendar algo”, atirou Luiz Oliveira para Xico Alves. Este respondeu com humor: “Já estou a trabalhar nisso. Queres ir a Marte? Parece que está na moda…”.
INFLUENCIADORES LOCAIS E REGIONAIS
Ao longo de 25 anos muitas amizades ficam pelo caminho, mas outras permanecem fortes, acompanhando o percurso da Jangada. Muitas são as companhias e as pessoas que se encaixam neste papel da amizade e da colaboração.
“Falando de fora de Lousada, é importante enaltecer companhias como o referido Trigo Limpo, o Teatro das Beiras, o Chapitô, entre muitas outras, assim como é imprescindível referir a importância de locais como Teatro Circo, de Braga, também os vários municípios como os de Penafiel, Famalicão, Régua, Maia, entre outros”, refere Ana Luísa.

Um nome que ia escapando, por ser “quase uma pessoa da casa, tal a afinidade que temos com ele”, é o britânico John Mowat, que já encenou várias peças e deverá voltar em 2025 para uma nova produção. Quem não se lembra de Médico à Força, Fera Amansada, A verdadeira Tragédia de Pedro e Inês, Shakespeare Jantou em Minha Casa e, mais recentemente, Romeu e Julieta?
Por último, uma referência a um tema que é muito caro a Lousada quando se fala da influência da Jangada na produção artística e na evolução cultural, onde se insere a criação de públicos. “Não foi um processo fácil, como seria de esperar. Quando chegamos cá percebemos o tipo de público que tínhamos e fomos oferecendo o que esse público pedia ou gostava e nisso encaixava-se o teatro de revista”, diz Luiz. “Ao mesmo tempo, fomos cultivando novos rumos, oferecendo outros tipos de produtos teatrais, novas produções sobretudo para os mais jovens, e fomos criando novos públicos e mostramos que era uma falácia pensar que certos tipos de teatro são apenas para as elites”, acrescentou o especialista.
Assinalar os 200 anos do nascimento de Camilo
Na estreia da mais recente produção Hansel & Gretel, há 15 dias, já foram cantados os parabéns à Jangada, mas as comemorações prolongam-se por 2025 adiante. O programa inclui o Folia, que terá uma agenda muito diversificada e internacional. A esse propósito, Ana Luísa Fernandes revelou ao O Louzadense que “a grande novidade será a participação no programa nacional da comemoração dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco”. A produtora divulgou-nos que “isso vai consistir numa produção com dramaturgia de Mário Cláudio e encenada por Jorge Pinto e que terá Emília Silvestre como protagonista”. A estreia está agendada para 15 e 16 de março, no auditório da Biblioteca Almeida Garret, no Porto, e vai ter première em Lousada no dia 9 de maio, no Folia ’25.














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