por | 24 Nov, 2024 | Cultura, Uncategorized

JANGADA TEATRO, 25 ANOS DE VIDA

“O momento mais difícil? O adeus ao Faria…”

A companhia de teatro residente do Auditório Municipal de Lousada faz 25 anos e já iniciou as comemorações. O Louzadense anuncia aqui em primeira mão algumas das atividades programadas para 2025. Foi fundada por Faria Martins, Xico Alves e Luiz Oliveira. O falecimento do primeiro, em 2012, foi “um rude golpe emocional” para a coletividade. A retirada do apoio plurianual da Direção Geral das Artes, há dois anos, foi outra das contrariedades. “Foi preciso muita força”, mas a companhia prosseguiu firme, na implantação de um projeto artístico, que é aplaudido por todos os setores com ovação.

A última peça de Faria Martins, um dos mentores da Jangada, foi em 2011, em Lamego, recorda o seu amigo de longa data, Xico Alves. Ali foi exibida a peça Festa dos Portos, um êxito onde o malogrado ator sobressaía com o seu carisma e sobriedade teatral. O seu desaparecimento “foi um rude golpe emocional para todos”, afirma o amigo. “Éramos um trio onde ele era a trave mestra”, atira Luiz Oliveira, outro dos fundadores da companhia aniversariante.

“Não é fácil conviver tantos anos como os que a Jangada já viveu, mas nós conseguimos”, declara Luiz Oliveira. Dizem que o segredo da longevidade e êxito da Jangada é a unidade. “Somos uma cooperativa, onde ninguém anda de chicote ou de pau na mão”, brinca Xico Alves no seu reconhecido estilo, que combina seriedade com humor.

A Jangada tem um amplo rol de êxitos no palco e fora dele, mas continuando a falar de dificuldades é incontornável referir o corte de financiamento da Direção Geral das Artes, em 2022. Por estes dias aguardam o resultado do concurso anual que deverá estar para sair. Do desaire do ano passado, diz Luiz Oliveira que “tivemos que arregaçar as mangas para não fechar a porta. Chegamos a ponderar reduzir a estrutura, cortar na logística e nos recursos, mas não cedemos a isso, ganhamos força e fomos em frente”.

No dizer de Ana Luísa Fernandes, a produtora da companhia, “um dos fatores que nos ajudou muito foi o apoio de vários municípios que souberam da injustiça que nos havia sido cometida e contrataram-nos vários espetáculos”.

“Sim, a solidariedade veio ter connosco, a partir de várias entidades que reconheceram a necessidade de nos apoiar diante daquela falta”, acrescentou Luiz.

Reportando-nos aos Êxitos, muito haveria a dizer e faltaria papel. Em resumo, Xico Alves destaca como momento alto destes 25 anos em termos criativos, “a gigantesca produção com a companhia Trigo Limpo, que nos ajudou a levar à cena em plena Vila de Lousada, uma peça do Zé do Telhado, que envolveu as forças vivas da localidade”.

Para Luiz Oliveira, “o meu destaque vai para o reconhecimento da atividade da Jangada fora de portas. Lousada e o Vale do Sousa, assim como o Norte do país, reconhecem o nosso trabalho, mas é de assinalar o quanto somos elogiados e vistos como mais valia quando vamos ao estrangeiro”.

“Fazemos questão de levar as nossas peças em português, pois entendemos que é uma forma de sermos genuínos, de transportamos quem somos e divulgar e valorizar o Português”, acrescenta. Nestes 25 anos percorreram inúmeros países, desde o Brasil ao México, passando por Lituânia, Grécia e Macau. “Há muito que não vamos lá fora, temos que agendar algo”, atirou Luiz Oliveira para Xico Alves. Este respondeu com humor: “Já estou a trabalhar nisso. Queres ir a Marte? Parece que está na moda…”.

INFLUENCIADORES LOCAIS E REGIONAIS

Ao longo de 25 anos muitas amizades ficam pelo caminho, mas outras permanecem fortes, acompanhando o percurso da Jangada. Muitas são as companhias e as pessoas que se encaixam neste papel da amizade e da colaboração.

“Falando de fora de Lousada, é importante enaltecer companhias como o referido Trigo Limpo, o Teatro das Beiras, o Chapitô, entre muitas outras, assim como é imprescindível referir a importância de locais como Teatro Circo, de Braga, também os vários municípios como os de Penafiel, Famalicão, Régua, Maia, entre outros”, refere Ana Luísa.

Romeu e Julieta_Jangada Teatro

Um nome que ia escapando, por ser “quase uma pessoa da casa, tal a afinidade que temos com ele”, é o britânico John Mowat, que já encenou várias peças e deverá voltar em 2025 para uma nova produção. Quem não se lembra de Médico à Força, Fera Amansada, A verdadeira Tragédia de Pedro e Inês, Shakespeare Jantou em Minha Casa e, mais recentemente, Romeu e Julieta?

Por último, uma referência a um tema que é muito caro a Lousada quando se fala da influência da Jangada na produção artística e na evolução cultural, onde se insere a criação de públicos. “Não foi um processo fácil, como seria de esperar. Quando chegamos cá percebemos o tipo de público que tínhamos e fomos oferecendo o que esse público pedia ou gostava e nisso encaixava-se o teatro de revista”, diz Luiz. “Ao mesmo tempo, fomos cultivando novos rumos, oferecendo outros tipos de produtos teatrais, novas produções sobretudo para os mais jovens, e fomos criando novos públicos e mostramos que era uma falácia pensar que certos tipos de teatro são apenas para as elites”, acrescentou o especialista.

Assinalar os 200 anos do nascimento de Camilo

Na estreia da mais recente produção Hansel & Gretel, há 15 dias, já foram cantados os parabéns à Jangada, mas as comemorações prolongam-se por 2025 adiante. O programa inclui o Folia, que terá uma agenda muito diversificada e internacional. A esse propósito, Ana Luísa Fernandes revelou ao O Louzadense que “a grande novidade será a participação no programa nacional da comemoração dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco”. A produtora divulgou-nos que “isso vai consistir numa produção com dramaturgia de Mário Cláudio e encenada por Jorge Pinto e que terá Emília Silvestre como protagonista”. A estreia está agendada para 15 e 16 de março, no auditório da Biblioteca Almeida Garret, no Porto, e vai ter première em Lousada no dia 9 de maio, no Folia ’25.

Luiz Oliveira, Xico Alves e Ana Luísa Fernandes

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