Nunca pensei que aprenderia a medir o tempo pelo ritmo das mãos da minha mãe. Antes, eram elas que guiavam as minhas – firmes, certeiras, sempre prontas para me conduzir pelo mundo. Durante muitos anos, foram as minhas que passaram a buscar as dela, às vezes trémulas, às vezes cansadas, mas sempre cheias de uma força que só quem conhece a palavra “resistência” entende profundamente.
Cuidar da minha mãe, depois do diagnóstico de Parkinson, não foi uma escolha planeada. Foi uma chamada. Uma dessas chamadas que a vida faz baixinho, mas que pressiona o peito até a gente entender que é hora de responder.
No começo, confesso, havia medo. Medo em mim, no meu Pai e Irmão. Medo de não sabermos fazer o suficiente, de errar a hora dos remédios, de não percebermos o desconforto, de perder um sinal importante. Medo de vê-la diminuindo aos poucos. Mas, com o tempo, descobri que o cuidado não se aprende em manuais – aprende-se no olhar. E o dela sempre me dizia quando era hora de avançar, de esperar, de abraçar.
A rotina mudou. O mundo ficou mais devagar. E, curiosamente, foi nesse novo ritmo que redescobri minha mãe. Nos momentos em que juntamente com o meu pai e irmão a ajudava a levantar, a caminhar, a segurar um copo, percebia que ainda havia ali a mesma mulher teimosa, delicada e cheia de histórias – só que agora eu precisava ouvi-la de um jeito diferente.
O Parkinson tira algumas coisas. Adormece gestos, embaralha movimentos, desafia a independência. Mas também revela outras: a paciência que eu juntamente com pai e irmão não sabia que tinha, a coragem que ela nunca perdeu, o vínculo que, mesmo testado, só se fortaleceu.
Cuidar dela me fez entender que amor não é só o que sentimos, é o que fazemos – mesmo quando estamos cansados, mesmo quando dói.
É segurar o tempo para que o outro não caia. É celebrar pequenas vitórias que para o mundo podem parecer nada: um passo mais firme, uma risada inesperada, um dia bom.
Minha mãe ensinou-me muito antes de adoecer.
Mas foi no cuidado – nesse encontro íntimo entre vulnerabilidade e afeto – que aprendi as lições mais profundas: que a vida é feita de presença, que a dignidade mora nos detalhes e que ninguém perde a grandeza só porque o corpo falha.
Se hoje digo que entendo a importância do cuidador, é porque ela está escrita na minha própria história. E, acima de tudo, porque está escrita na dela.
Nuno Ferreira – TSD LOUSADA













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