O LICRANÇO – não é uma cobra, nem representa perigo… então, porque o tememos tanto?

Quantas vezes, ao virar uma pedra ou ao mexer num tronco velho, alguém gritou: “Cuidado, é uma cobra!”? E quantas dessas “cobras” eram, afinal, licranços?

O licranço, Anguis fragilis, também conhecido como cobra-de-vidro, é um daqueles animais que vive condenado pela sua aparência. À primeira vista, parece uma pequena serpente: corpo alongado, movimento rastejante, escamas vidradas e metálicas… Mas a verdade é outra — o licranço não é uma cobra. É um lagarto! Um lagarto sem patas.

Este simples facto diz muito sobre a forma como olhamos para a natureza, que muitas vezes julgamos antes de conhecer.

Ao contrário das cobras, o licranço tem pálpebras e pisca os olhos. Pode medir até 60 cm. Não tem veneno, não representa perigo e é um animal extremamente dócil. Move-se lentamente, evita o confronto e vive escondido, preferindo zonas húmidas, muros antigos, folhas em decomposição ou troncos apodrecidos, com presas em abundância. É um animal discreto, silencioso e quase invisível.

Mas nem sempre foi visto assim. Na sabedoria popular, o licranço carrega uma carga pesada de mitos e medos. Na minha terra, ainda se ouve dizer: “Picada de licranço não tem cura nem descanso” ou “Ferradela de licranço, sete dias sem descanso”. Frases fortes, quase ameaçadoras, que passaram de geração em geração. Talvez haja alguma ligação com o facto de que, quando este animal é capturado, tenta espetar a cauda no predador para o distrair da cabeça, de modo a poder libertar-se e fugir!

Mas a verdade é que o licranço não tem ferrão nem dentes perigosos, não costuma morder, nem é venenoso ou tóxico. Então, porque nasceu este medo? Talvez por parecer aquilo que não é. Talvez por viver escondido. Ou talvez porque, durante muito tempo, o desconhecimento falou mais alto do que a evidência — ou até como forma de afastar as pessoas e, sem saber, proteger o animal.

Apesar da má fama, o licranço é um verdadeiro aliado da natureza — e de quem cultiva uma horta ou um quintal. Alimenta-se, sobretudo, de “animais lentos”, como lesmas, caracóis, larvas de insetos, minhocas e pequenos invertebrados. Ou seja, ajuda a controlar pragas de forma natural, sem químicos, sem ruído e sem que ninguém dê por isso. Enquanto muitos o temem, ele trabalha.

Há ainda um detalhe impressionante: o licranço tem a capacidade de largar a própria cauda quando se sente ameaçado. A cauda continua a mexer-se, distraindo o predador, enquanto o animal foge. Mais tarde, regenera-a. Um mecanismo de sobrevivência fascinante, que mostra bem a sua evolução e adaptação natural.

Mesmo assim, continua a ser morto — não pelo que faz, mas pelo que parece.

E é aqui que o património natural se cruza com a educação ambiental. O licranço é um exemplo perfeito para ensinar, sobretudo aos mais novos, que conhecer é o primeiro passo para respeitar. Que o medo nasce, muitas vezes, da ignorância. E que proteger a natureza passa, também, por desmontar mitos e mudar mentalidades.

Nas caminhadas e saídas de campo, quando estou acompanhado por “novos exploradores” e encontramos um licranço, o momento repete-se quase sempre: primeiro o susto, depois a curiosidade e, por fim, o respeito. Quando percebem que aquele “bicho estranho” é inofensivo e até útil, o olhar muda. E, nesse instante, cria-se algo muito mais importante do que conhecimento — cria-se ligação e sentimento de pertença.

Porque o património vivo também é isto: perceber que os animais mais pequenos, mais estranhos e mais incompreendidos têm um papel fundamental no equilíbrio do ecossistema do mundo que habitamos.

Talvez, por isto, valha a pena pensar duas vezes da próxima vez que encontrarmos um licranço.

Quantos destes animais já foram mortos apenas por parecerem aquilo que não são?
E quantos medos carregámos por nunca termos aprendido a olhar com atenção?


ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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