Há animais que, só por aparecerem no nosso jardim ou na nossa horta, são imediatamente vistos como intrusos. Uns porque fazem barulho, outros porque comem aquilo que cultivamos e outros, simplesmente, porque não os conhecemos suficientemente bem.
O ouriço-cacheiro é um daqueles animais que, apesar do seu aspeto simpático, ainda provoca alguma desconfiança. Talvez por causa dos espinhos, ou por aparecer quase sempre à noite ou porque, durante muitos anos, ouvimos histórias que nem sempre correspondiam à verdade.
Mas será que temos assim tantas razões para desconfiar deste pequeno vizinho? Eu diria que não! Aliás, atrevo-me a dizer que temos muito mais razões para o proteger do que para o afastar.
O ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus) não é um porco-espinho! É um pequeno mamífero selvagem, facilmente reconhecido pelo corpo coberto com mais de cinco mil espinhos. Tem o focinho comprido, orelhas pequenas, patas curtas e um olfato muito apurado. Quando se sente ameaçado, enrola-se sobre si próprio, formando uma bola de espinhos para se proteger.
Apesar das patas curtas e daquele andar desajeitado, o ouriço-cacheiro é muito mais rápido e resistente do que imaginamos. Durante a noite pode percorrer um ou dois quilómetros, por vezes mais, à procura de alimento, abrigo ou de um companheiro para acasalar. Enquanto nós dormimos, este pequeno animal pode andar a explorar vários jardins, hortas, campos e caminhos da nossa freguesia.
E sabem o que anda ele à procura? Principalmente de pequenos invertebrados! Escaravelhos, larvas de insetos, minhocas, lesmas, caracóis e outros organismos que encontra no solo e entre a vegetação.
Muitas vezes, quando falo sobre o ouriço-cacheiro, procuro explicar que os animais não existem apenas para serem bonitos ou feios, simpáticos ou desagradáveis aos nossos olhos. Cada espécie desempenha funções importantíssimas nos ecossistemas. E o ouriço-cacheiro é um bom exemplo disso. Ao alimentar-se de diferentes invertebrados, incluindo alguns que causam vários prejuízos nas nossas hortas e jardins, o ouriço-cacheiro surge quase como um super-herói destes espaços, contribuindo para a regulação natural das suas populações e para o equilíbrio ecológico dos locais onde vive.
Por isso, se encontrarem um ouriço-cacheiro entre as couves e as alfaces provavelmente anda à procura de alimento entre as folhas e no solo. E também não é verdade que passe as noites a roubar todas as maçãs do pomar!
Esta última ideia tem, aliás, uma história curiosa que enriquece o nosso património cultural e valoriza ainda mais o nosso património natural. Durante muitos séculos, os ouriços-cacheiros foram representados, em livros de pintar, desenhos animados e filmes infantis, com maçãs espetadas nos espinhos, como se andassem pelos pomares a recolher fruta para transportar às costas. Mas a realidade é bem diferente. O ouriço pode comer ocasionalmente alguma fruta caída, mas não tem o hábito de espetar maçãs nos espinhos para as transportar.
Os ouriços-cacheiros também podem sentir-se atraídos pela comida que deixamos para os gatos no exterior das nossas casas. Por isso, aconselho quem alimenta gatos no exterior a recolher os restos de comida e os recipientes depois das refeições, evitando deixar alimento disponível durante toda a noite. Já uma pequena taça com água limpa pode ser uma ajuda preciosa, sobretudo nos dias mais quentes.
Uma das grandes ameaças para os ouriços-cacheiros está nas estradas!
Quantas vezes já encontrámos um ouriço atropelado? Infelizmente, demasiadas. E há uma razão para isso. Quando se sente ameaçado, o ouriço tende a parar ou a enrolar-se numa bola. Esta estratégia pode funcionar perante alguns predadores, mas de nada serve contra as rodas de um carro.
Se encontrarmos um ouriço a atravessar uma estrada, o primeiro cuidado deve ser com a nossa própria segurança e com a dos outros condutores. Se houver condições para parar num local seguro e ajudar, devemos utilizar luvas ou uma toalha para o colocar fora da faixa de rodagem, do lado para onde já se dirigia. Não devemos levá-lo para longe, nem decidir que ficará melhor noutro bosque ou jardim. Aquele animal pode conhecer muito bem o território e até ter crias dependentes nas proximidades.
Sendo animais predominantemente noturnos, a sua presença em plena luz do dia merece atenção. Um ouriço parado ao sol, desorientado, com dificuldades em caminhar, ferido ou rodeado de moscas pode estar doente ou precisar de ajuda urgente. No entanto, nem todos os ouriços observados durante o dia estão em perigo. O importante é observar o comportamento, manter alguma distância e, em caso de dúvida, contactar quem saiba avaliar a situação.
Devemos também ter muita atenção aos trabalhos nos jardins! Antes de cortar ervas altas, limpar silvas, utilizar uma roçadora ou acender uma fogueira com restos de vegetação, convém verificar se não existe algum ouriço escondido. Os montes de folhas, os troncos, as sebes e os recantos menos arrumados podem ser precisamente os locais onde estes animais encontram abrigo. Também as redes abandonadas, os buracos, as piscinas sem rampas de saída e a utilização de pesticidas representam perigos que muitas vezes passam despercebidos.
Neste momento a população de ouriços está a baixar em várias regiões da Europa e já é uma espécie “Quase Ameaçada”. Isto não significa que esteja prestes a desaparecer de Portugal, mas significa que existem sinais suficientemente preocupantes para não continuarmos a ignorar os perigos que enfrenta.
E se encontrarmos um ouriço ferido, preso numa rede ou aparentemente doente? Não devemos tentar tratá-lo em casa, dar-lhe leite ou alimentá-lo à força. Devemos procurar ajuda junto dos serviços municipais competentes, do SEPNA da GNR, do ICNF ou de um centro de recuperação de animais selvagens.
Para esta crónica, considerei importante falar sobre o ouriço-cacheiro numa vertente mais pedagógica, pois o património natural não é feito apenas de árvores monumentais, rios, montanhas ou animais raros. Também está naquele pequeno ouriço que atravessa o caminho ao anoitecer, que se esconde debaixo de uma sebe ou que visita a nossa horta enquanto dormimos.
Em muitos casos, basta deixá-lo viver!
Por isso, da próxima vez que encontrarem um ouriço-cacheiro no jardim, na horta ou junto à estrada, lembrem-se de que aquele pequeno animal não está ali para nos incomodar. Está apenas a tentar sobreviver, a procurar alimento e a desempenhar o seu papel na natureza.
Então, vamos fazer as pazes com o ouriço-cacheiro?

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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