por | 29 Out, 2026 | Ambiente, Património Cultural

AMBIENTE & PATRIMÓNIO, POR ERNESTO GONÇALVES – A ROMÃ: Um fruto, mil sementes e histórias por contar

Lembro-me de, em criança, jogar ao famoso jogo do Stop com as minhas primas, no café do meu pai! À vez, alguém murmurava o abecedário, até outro gritar “Stop!” e, com a letra que calhava, tínhamos de preencher uma tabela com nomes de pessoas, animais, cidades, países, frutos e tantas outras coisas. Quando saía a letra “R”, já sabíamos que, na coluna dos frutos, todos íamos escrever a mesma coisa: ROMÃ! Não conhecíamos outro fruto começado por aquela letra e, por isso, lá ficávamos todos com apenas cinco pontos!

Também me recordo de, na escola, aprender a família das palavras e descobrir que a planta que dá romãs se chama romãzeira. Sempre me soou a um nome muito estranho! Nos intervalos, enquanto brincávamos com as letras da palavra romã, descobríamos que escrita ao contrário liamos amor, e outras palavras que usávamos no nosso quotidiano. E, se lhe tirássemos o til até conseguíamos escrever Roma, a capital de Itália!
Naquele tempo, quando olhava para as romãs penduradas nas árvores, achava ainda que se pareciam mais com granadas de brincar do que propriamente com frutos para comer. Era a fase da imaginação sobre o mundo fantástico e de ilusão, que costumamos ter na infância, que rapidamente passa!
Mas a romã é muito mais do que um fruto com um nome curioso. É um verdadeiro tesouro de histórias, tradições e crenças que atravessaram gerações.
A romã vem da romãzeira (Punica granatum). Na primavera e no verão, apresenta flores vistosas, avermelhadas e alaranjadas, visitadas por insetos polinizadores. No outono, oferece-nos os seus frutos, que escondem, debaixo de uma casca resistente, centenas de pequenos bagos sumarentos.
Reza a história que a romã era considerada um símbolo de fertilidade, abundância e prosperidade na Antiguidade, nomeadamente na Grécia e na Roma antigas. Talvez por guardar tantas sementes!
Durante a pesquisa para esta crónica descobri mais coisas interessantes sobre o património deste fruto em Portugal. No Algarve, por exemplo, existia o costume de guardar nove bagos de romã no Dia de Reis: três para o lume, três para o pão e três para a bolsa do dinheiro, para que nunca faltassem calor, alimento e sustento à família. Hoje, ainda há quem guarde sementes de romã na carteira para atrair prosperidade. Se resulta? Não sei! Mas, se fosse assim tão fácil, já ninguém precisava de trabalhar! No meu concelho, tenho conhecimento que na freguesia de Boim, as pessoas guardam cascas de romã dentro da carteira juto das moedas para atrair dinheiro.
E por falar em tradições, a romã também era muito apreciada pelos mais velhos pelas suas supostas propriedades medicinais. Na sabedoria popular, junto dos mais velhos da minha freguesia, ainda se ouve que, diferentes partes da planta eram utilizadas em preparações caseiras, sobretudo para problemas intestinais e da garganta, principalmente “para quem sofria de mal-ruim, os frutos vermelhos ajudariam a curar”. Atualmente, sabemos que os bagos comestíveis contêm fibras, vitaminas e substâncias antioxidantes. Não fazem milagres nem substituem medicamentos, mas são uma boa forma de enriquecer a nossa alimentação.
Ainda há dias, quando falava com a minha mãe sobre as romãs, contou-me que, em criança, gostava mais delas para brincar do que propriamente para comer. Divertia-se a retirar os bagos com as mãos, “como se fosse uma espiga de milho”, e a espalhar aquele sumo vermelho por todo o lado. “Pintava as mãos, pintava a roupa, pintava o chão!”, recordava entre risos. O pior vinha depois, quando os meus avós descobriam a brincadeira. “Parecia que tinha havido ali uma guerra! Ficava tudo manchado de vermelho!”
E pelos vistos, as romãs continuam a dar trabalho às famílias! Falo com propriedade sobre a minha!
O meu filho adora romãs e, nesta altura do ano, um amigo meu, o Luís, que tem uma romãzeira muito generosa, oferece-me sacadas delas para lhe trazer. É um consolo ver um filho tão consolado a comer romãs! Só há um problema: retirar os bagos sem pintar a cozinha inteira e descascar a romã sem deixar os dedos amarelos! Já experimentámos várias técnicas, mas há sempre qualquer coisa que acaba salpicada: o balcão, a banca da loiça, a toalha ou até o chão. O meu filho prefere retirar primeiro todos os bagos de duas ou três romãs para uma tigela e, depois, comê-los à colherada, ao som daqueles estalidos por cada trincadela, tão característicos que se ouvem bem longe.
Eu próprio já comprei uma pequena romãzeira num horto e plantei no meu quintal, convencido de que teria romãs todos os anos, pouparia dinheiro e ainda poderia comer quantas quisesse. Mas a natureza nem sempre corresponde aos nossos planos! Aquele pequeno arbusto até já dava flores, muitas flores, mas frutos… nem vê-los! Acabei por ter de a substituir.
É curioso como um fruto tão simples consegue juntar tantas coisas: as brincadeiras da nossa infância, os ensinamentos dos mais velhos, as tradições populares, os conhecimentos da natureza e até as pequenas guerras que travamos na cozinha para conseguir retirar os seus bagos.
É também por isso que gosto de falar sobre o património natural e cultural. Porque ele não está apenas nos grandes monumentos, ou nas paisagens ou nos livros de História. Está também nas plantas dos nossos quintais, nos frutos que partilhamos com os vizinhos e nas histórias que contamos à mesa.
E pensar que, em criança, a romã só nos dava cinco pontos no jogo do Stop! É para rir!
Hoje, olhando para tudo aquilo que este fruto representa, percebo que vale muito mais do que isso.

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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