José Afonso, amplamente conhecido nos palcos como Stark, é o homem do momento na percussão nacional. Natural de Lousada, o músico celebrou recentemente uma das maiores distinções da sua carreira ao vencer o prestigiado Globo de Ouro da SIC com o seu grupo, os Duques do Precariado. Em entrevista exclusiva ao jornal O Louzadense, Stark abriu o coração sobre o atual momento da sua carreira, as origens da sua paixão pelo ritmo, a preguiça que o desafia e os muitos projetos que o fazem vibrar no panorama musical nacional e internacional.
A conquista do Globo de Ouro colocou os Duques do Precariado na ribalta mediática, mas, em declarações ao O Louzadense, Stark mantém os pés bem assentes na terra. Embora admita que esta é, “sem dúvida alguma”, a sua melhor fase profissional, recusa-se a apontar o prémio da SIC como o pico isolado do seu percurso.
“Tocar com os Duques levou-me, inesperadamente, a performar a sítios que sempre ambicionei, nomeadamente o Festival de Músicas do Mundo de Sines e o NOS Alive”, confessa o percussionista. A digressão de apresentação do álbum Encarnação tem superado todas as expectativas: “Está a ser deveras divertida e sinto estarmos a conseguir chegar a mais pessoas do que esperava. Já fui reconhecido e abordado por pessoas que não conheço para congratular o nosso trabalho”.
Mas o ano de Stark não se resume aos Duques. O músico revelou ao nosso jornal um roteiro impressionante de colaborações só nos últimos meses: em janeiro, liderou o Ensemble Mutante a convite da Associação Porta-Jazz; somou colaborações com a prestigiada Orquestra de Jazz de Matosinhos; fez uma mini-tour em Genebra (Suíça) com o projeto Celestial; e viu o Bando das Gaitas voar até Ibiza para um evento marcante. “Tudo isto faz-me sentir estar num caminho promissor e, sinceramente, é mais por causa dos grupos com que estou do que da minha qualidade enquanto artista”, sublinha com humildade.
Confrontado pelo O Louzadense sobre a sua entrada para a banda que lhe valeu o Globo de Ouro, Stark recorda o processo de forma descontraída. Tudo aconteceu quando o músico João Fragoso se mudou para o Porto.
“Eles estavam a precisar de um substituto para um concerto. Felizmente as primeiras opções não podiam e calhou-me a fava. Neste caso uma lentilha, que é a melhor leguminosa”, brinca. O clique foi imediato: “Eu já gostava da banda e eles gostaram de mim logo no primeiro ensaio. Eventualmente fiquei e agora somos besties. É a minha boys band favorita”.
Questionado sobre as raízes desta ligação umbilical ao ritmo, o percussionista sorri e devolve a resposta aos pais: “Quem me criou há de saber responder melhor a esta pergunta que eu”. Ainda assim, reza a lenda familiar que, quando era “chavalo”, Stark ficava fascinado sempre que via passar os tradicionais Zés Pereiras. “Dava-me gozo pegar em coisas no formato de baquetas e estourar os ouvidos a bater em superfícies metálicas a imitá-los”.
O percurso formal começou cedo, aos 7 anos, na percussão. Aos 12 anos, a decisão estava tomada: a música seria a sua profissão. A bateria surgiu um ano depois, aos 13. “Como sempre me dei melhor com os membranofones, a situação começou a ficar mais séria. Por isso, os especialistas do cosmos e das psicologias que tirem as suas ilações de quem escolheu quem”, refere ao O Louzadense.
Uma mente em constante ebulição
Stark revelou aos nossos leitores ser um músico hiperativo no que toca à criação. Atualmente desdobra-se em múltiplos projetos: a banda punk com forte mensagem política bcc (com álbum novo a caminho); o grupo de disco alternativo Barananu; o Projecto Do Acaso, que cruza música com outras artes como a literatura e o cinema; e o quarteto de música improvisada VAMOS!. Pelo meio, tenta encontrar tempo para escrever e materializar em álbum o trabalho que iniciou com o Ensemble Mutante.
Há ainda um lugar muito especial no seu coração para o Bando das Gaitas, um “grupo bem amado pelos lousadenses”. Stark confessa que é, muito provavelmente, o projeto que mais tempo lhe consome e aquele que efetivamente “paga as contas”.
Apesar deste portfólio massivo, Stark assume que não tem propriamente um “projeto de sonho”. O seu desejo passa por ver estes grupos vingarem a sério, com grandes tours nacionais e internacionais, onde os músicos sejam bem pagos e bem recebidos. Ideias não lhe faltam: “Passo a vida a montar projetos na minha cabeça, sejam de hip-hop, indie, minimalismo, improvisação ou stretch music“. O entrave? O próprio artista confessa-o sem tabus: “Ando já há dois anos a tentar ganhar coragem para começar a produzir as minhas cenas. O problema é a preguiça. Sempre foi, sempre será. Preciso sempre de um input a sério — leia-se dinheiro — que me faça mexer”.
A terminar a conversa com O Louzadense, Stark rejeitou a ideia de se guiar apenas por referências do seu próprio instrumento. “Só pelo meu papel ser maioritariamente baterista, acho um tanto idiota ter que ter apenas outros bateristas como referência. Grande parte até nem são”.
Ainda assim, no topo da lista da última década está o baterista Justin Brown, a quem atribui uma nota de “10 em 10” pela versatilidade, técnica e personalidade musical. O músico destaca também a criatividade multifacetada de Childish Gambino (Donald Glover), mas assume que a sua maior inspiração de todas é o trompetista de jazz Ambrose Akinmusire. “O conteúdo. A sinceridade. A entrega. A profundidade! É surreal. Ainda para mais é um gajo zero acéfalo e com consciência artística e política bem assentes na realidade. Coisa que prezo bastante”, elogia.














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