por | 31 Mai, 2026 | Opinião, Partidos Políticos

Há artigos que se escrevem para informar. Há artigos que se escrevem para convencer. E há artigos que se escrevem para intimidar – para sugerir, com toda a suavidade retórica possível, que quem não governa deve calar-se. O artigo do presidente da Juventude Socialista de Lousada num órgão de comunicação social local é, inequivocamente, do terceiro tipo. Mas há um problema. Intimida quem aceita ser intimidado.

Sobre os dez

A legitimidade de um deputado eleito não se mede pelo historial de vitórias do seu partido. Mede-se pelo mandato recebido nas urnas. Qualquer outra interpretação não é política – é arrogância com boa dicção.

Sobre as urnas que “não mentem”

Aceito o princípio sem reservas. Então leiamos o que as urnas disseram – todas as urnas, todos os números, sem seleccionar apenas o que serve o editorial.

O PS venceu as autárquicas de 2025 em Lousada. Legítimo, homologado, respeitado. Mas os números que contextualizam essa vitória dizem uma coisa muito diferente da narrativa triunfalista que tem sido construída.

Entre 2021 e 2025, o PS cresceu trinta votos em termos absolutos. Trinta – de 16.561 para 16.591. No mesmo período, mais de três mil lousadenses adicionais foram às urnas. Ou seja: milhares de novos votantes participaram e escolheram outra coisa. A quota eleitoral do PS caiu mais de seis pontos percentuais. E o partido elegeu menos um vereador do que em 2021.

Ganhou a eleição. Perdeu terreno, perdeu percentagem, perdeu um mandato.

Se as urnas não mentem – e não mentem – leiamos tudo o que elas disseram. Não apenas a linha que convém ao vencedor.

Sobre “azuis por fora, laranjas por dentro”

Esta frase revela mais sobre quem a escreve do que sobre quem pretende descrever.

A Iniciativa Liberal defende a redução da carga fiscal, a liberdade económica, a concorrência como motor de qualidade, o Estado como facilitador e não como produtor, a transparência como obrigação e não como favor. Em Lousada, temos apresentado propostas concretas, analisado documentação oficial com rigor e exigido prestação de contas fundamentada.

Pode discordar-se destas posições. É legítimo. Mas confundi-las com o PSD é ou ignorância ou desonestidade intelectual – e o presidente da JS não tem desculpa para nenhuma das duas.

O casamento que o artigo antecipa “daqui a quatro anos” é uma ficção conveniente. Serve para não ter de responder ao que a IL diz – basta rotulá-la e arquivá-la. É o truque mais velho da política: quando não tens argumentos para o conteúdo, ataca a embalagem.

Sobre o desconforto de ser avaliado

Chegamos ao núcleo do problema. E o núcleo não é político – é democrático.

Este artigo revela alguém que não está habituado a ser escrutinado. Que opera num ambiente político onde ganhar eleições é, na prática, sinónimo de governar sem prestação de contas efectiva. Onde a assembleia é uma formalidade, a oposição é ruído de fundo, e a maioria faz o que lhe apetece com a confortável convicção de que está autorizada a isso.

Não está. Nunca esteve.

A democracia não dá ao PS o direito de fazer o que lhe apetece. Dá-lhe o direito – e a obrigação – de ser avaliado. Todos os dias. Por nós. Pelos lousadenses. Pelas instituições. É exactamente para isso que a oposição existe. É exactamente para isso que a assembleia municipal existe. Não como decoração institucional, mas como mecanismo de controlo do poder. O mais fundamental de todos os mecanismos democráticos.

Quando um relatório de auditoria regista uma opinião qualificada sobre activos fixos tangíveis avaliados em 179,6 milhões de euros, quando a execução do investimento fica nos 68%, quando os custos com pessoal ultrapassam pela primeira vez metade da despesa corrente – perguntar sobre isso não é “construir a narrativa do abandono”. É fazer o trabalho para que fomos eleitos. É exactamente o escrutínio que a democracia exige e que, aparentemente, tanto incomoda.

O desconforto que esse escrutínio provoca é, aliás, o sinal mais claro de que está a funcionar.

Sobre o conceito de democracia que este artigo revela

Há uma visão da democracia que se limita à noite eleitoral. Que trata o voto como uma transferência de poder absoluto, como um cheque em branco, como uma autorização para governar sem ser questionado durante quatro anos. Que vê a oposição não como um pilar institucional, mas como um incómodo a gerir. Que confunde pluralidade com ameaça e escrutínio com sabotagem.

É um conceito de democracia pobre e perigoso. E, infelizmente, muito reconhecível no PS.

O artigo do responsável da JS não é uma defesa de Lousada. É uma defesa do conforto de governar sem ser avaliado. É tratar os lousadenses como eleitores passivos que escolhem de quatro em quatro anos e se calam no intervalo. É fazer deles parvos.

Os lousadenses merecem mais do que isso. E, como os números das urnas demonstram com clareza, estão cada vez mais a exigi-lo.

Sobre o “bom caminho” e a “narrativa do dormitório”

Lousada tem dinâmicas positivas. Reconhecê-lo não é fraqueza, mas sim honestidade. Nunca dissemos o contrário.

O que dissemos – e continuamos a dizer – é que o potencial de Lousada é maior do que aquilo que tem sido aproveitado. Que um território com a localização, os recursos e a massa crítica que Lousada tem merece uma visão económica estruturada, não apenas infraestrutura física e eventos. Que há escolhas estratégicas por fazer que não estão a ser feitas. Isso não é narrativa de abandono. É exigência de ambição.

A questão nunca foi se há investimento. A questão é sempre: está a ser bem aplicado? As prioridades são as correctas? Podia ser mais transparente? É precisamente essa a função da oposição – não destruir o que funciona, mas garantir que o que não funciona não se esconde debaixo do que funciona. E garantir que quem governa nunca se esqueça de que está a ser observado.

Isso é incómodo? Sim. É suposto ser.

A Iniciativa Liberal chegou a Lousada há seis meses. Não viemos pedir licença para existir. Não viemos aguardar a benevolência da maioria. Viemos fazer o que a democracia nos obriga a fazer: perguntar, analisar, propor e exigir respostas.

O presidente da JS pode não estar habituado a isso. Vai habituar-se.

Têm razão, no entanto, numa coisa: não é necessário gritar. Mas também não é necessário estar todos os dias a justificar a própria existência, a marcar presença no espaço público, a mostrar as obras – algumas onde nem sequer tem intervenção – nas redes sociais. A mostrar o fato novo em mais uma foto para a posteridade. Quem trabalha, trabalha. Quem governa bem, não precisa de o anunciar a toda a hora. Os resultados falam por si. E quando os resultados precisam de tanto ruído para serem ouvidos, talvez o problema seja exactamente esse.

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