por | 26 Jan, 2025 | Grande Entrevista

O teatro como fonte de sentimentos

FERNANDO MOREIRA, HÁ 35 ANOS A CRIAR OBRAS PRIMAS

Este ator, encenador, dramaturgo e artista plástico, nasceu há 56 anos no Porto, «em Paranhos», enfatiza o próprio com um evidente orgulho de quem se gosta portuense. Mas reconhece que a sua essência, a génese, é de Lordelo (Paredes). Filho de um antigo empresário dos móveis, desde muito cedo percebeu que a sua cena, o seu palco, a sua realização, estava nas artes. A família não via esse futuro com bons olhos. Mas insistiu e fez-se um dos maiores vultos contemporâneos do teatro. Por onde passa deixa marca e obra e Lousada não é exceção. Aqui realizou obras primas e impulsiona os grupos amadores locais e o teatro comunitário. Está prestes a estrear mais uma dessas produções em que é exímio. Chama-se Saudades, Saudades e aborda a sociedade lousadense há 100 anos.

 
Os irmãos seguiram Arquitetura, Recursos Humanos e Farmácia. Quanto a Fernando, preferiu as artes. “Era a ovelha negra da família”, diz com algum humor, mas com a certeza da desaprovação que viveu nos primeiros anos da sua opção profissional.

“Gosto, mas nunca trabalhei nos móveis. Eu tive a sorte do meu pai ter ganhado algum dinheiro nessa área; por isso estudei no Colégio de Baltar e no Colégio de Ermesinde. Apesar de ter apenas a quarta classe, ele quis dar aos filhos uma vida com mais escolaridade e possibilidades”, diz em relação às suas origens.

Andava no Colégio, quando o gosto pelo teatro e pelas artes em geral foram despertando, primeiro ao de leve, mas depois num forte crescendo. “Era um dos melhores alunos a desenho e eu quis ir para as Belas Artes. Então, mal acabei o Colégio, inscrevi-me na escola Soares dos Reis. Entrei logo à primeira, fiz o 10º, 11º e 12º e entrei na Escola Superior de Belas Artes, no curso de pintura”.

A sua veia artística nas artes plásticas e afins desenvolveu-se de forma proeminente, como demonstra o projeto das Máscaras Contemporâneas, que nos últimos anos correu o país.

“O que eu queria inicialmente era arquitetura, mas depois quis pintura e foi a partir daí que toda a minha vida sempre foi de artista” e o teatro andou sempre de mãos dadas ou pelo menos por perto, até ser para ele o centro de tudo.
Ainda sobre os primórdios, relata que “a partir do 10º ano, eu comecei a viver sozinho no Porto, aluguei um quarto, que dividi com amigos. Fiz um curso da CEE, tinha um emprego e estudava em Belas Artes. Sobrevivi de muitas formas, porque nesse período em que eu estava no Porto foi o período da decadência industrial do meu pai”.

Com orgulho e alguma emoção diz que um dos marcos daquele tempo foi a presença da sua mãe aquando da formatura de Fernando Moreira em Belas Artes.
Recua um pouco no tempo para lembrar que “quando estou para entrar em Belas Artes, a fazer candidatura, aquela coisa toda, o meu amigo Artur, com quem eu dividi o quarto, e é um amigo de longa data, temos quase 35 anos de amizade, mostrou-me um panfleto a dizer «há um curso de Teatro do Seiva Trupe, que está a aceitar formandos». Eu sabia que gostava de teatro, embora não fosse uma paixão por aí além, mas eu disse «fixe, olha, vou concorrer». E fiquei nos 23 selecionados entre 200 e tal candidatos”. Foi o início de uma carreira imparável.

Fernando Moreira

Regresso às origens

“Depois do curso de teatro, fui convidado para o Teatro Experimental do Porto (TEP), a ganhar dinheiro. Então, é no terceiro ano de Belas Artes que eu faço uma pausa nos estudos, porque comecei a ganhar mais dinheiro. Já são 35 anos”, salienta. Depois de 10 anos no TEP entrou para a Contracena, e a seguir criou o grupo Limite Zero. Mais tarde esteve ligado ao desenvolvimento de vários grupos de teatro universitário, com o TAUP e o TicTac, respetivamente na Universidade Portucalense e na Faculdade de Ciências do Porto.

“Eu estou ligado ao associativismo há muitos anos, há muitos anos mesmo” e sublinha que “o problema nessa área foi sempre o dinheiro. “A estabilidade e uma  dimensão artística mais substancial surgiu quando eu e a Ângela criamos o Astro Fingido”, esclarece. Isso foi em 2008 e surgiu da vontade de dotar Paredes duma companhia de teatro profissional.

Aponta essa evolução como “um degrau, a subida de um patamar, que ocorre em ligação com algo que me marcou muito” e explica, emocionado, que a sua mãe “morreu em 2008, de acidente cardiovascular, curiosamente, quando eu estava a fazer na Jangada, em Lousada, o trabalho intitulado AVC”.

Há uma cena no fim desse espetáculo que remete para uma simbólica mas forte homenagem à sua mãe, que não estava prevista na peça: “a personagem interpretada pela Patrícia Ferreira coloca uma rosa no meio de um livro que fecha a seguir. É o último momento do espetáculo. A minha mãe chamava-se Rosa e esse foi um momento muito importante para mim”.

Também foi a sua mãe quem motivou a vontade de Fernando para se centrar na sua terra e voltar às origens: “Um dia ela disse-me: «então, por que é que tu és ator há tanto tempo e nunca fizeste nada por Lordelo?» e aquilo mexeu comigo de uma maneira… eu realmente nunca tinha feito nada ali”.

Mulheres Móveis, uma obra aclamada

Especialista em teatro comunitário

Há quatro anos fez aquela que é para muitos a masterpiece de Fernando até ao momento, a peça de teatro Mulheres Móveis, baseada na tradição das mulheres carreteiras, da antiga indústria do mobiliário, tão rica em Lordelo e arredores.
Este profissional já percorreu muito com as suas peças teatrais, em Portugal e no estrangeiro. Para Fernando Moreira os melhores locais por onde passou “foram sempre aqueles onde o sentimento do público é mais intenso e não tanto pelas condições físicas ou grandiosidade do local”. Destaca “a ida das Mulheres Móveis a um festival em Madrid, que foi muito especial, pois no final foram até nós vários professores portugueses que estavam em Espanha e partilharam connosco a felicidade que sentiram com esta peça”. As idas ao México e a Cabo Verde também foram marcantes, “sobretudo com a peça Brancas Memórias, acerca da doença de Alzheimer, e que tocou muito as pessoas”.

Também A Festa dos Porcos (2011), criada para a Jangada Teatro, em Lousada, foi outra obra prima deste profissional do teatro. “Foi com grande orgulho que ouvi o grande John Mowat dizer, que foi o que viu de melhor até àquela data”, na sequência duma exibição dessa peça na Maia, afirma Fernando Moreira.

A convite da Câmara Municipal, coordenou o Biofest (2017), que levou aos parques naturais do concelho peças de teatro por cada um dos grupos amadores locais. “Foi uma belíssima experiência, com a envolvência das comunidades de cada freguesia” e salienta que a peça Saudades, Saudades, que estreia dia 1 e 2 de fevereiro próximo no Auditório Municipal, enquadra-se nesse estilo. “Está na linha do que eu mais gosto de fazer, que é encenar a partir de temas simples e humanistas, sempre com o olhar nos outros”, conclui.

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