por | 11 Mai, 2026 | Ambiente, Património Cultural

Há animais que quase toda a gente gosta à primeira vista. A joaninha é um deles. Pequena, redonda, colorida, com aquele vermelho vivo e pintas pretas que a tornam inconfundível, a joaninha acompanha a nossa infância, as hortas, os quintais e até a imaginação popular. Quantos de nós, em criança, a deixámos subir pela mão enquanto cantávamos uma lengalenga ensinada pelos avós? Na minha terra ainda se ouve e ensina: “Joaninha, voa, voa, que o teu pai vai para Lisboa…” e a criança espera que ela abra as asas e levante voo.


Parece apenas brincadeira, mas ali há qualquer coisa maior: uma forma simples de criar afeto e respeito por um pequeno ser vivo tão simples e tão importante, ao mesmo tempo.
Do ponto de vista natural, a joaninha, é um verdadeiro tesouro para a agricultura. É conhecida como o “inseto amigo da horta” — e não é por acaso. Tanto em adulta como em larva, alimenta-se vorazmente de pulgões (piolhos das plantas), cochonilhas e outros pequenos insetos que atacam plantas e culturas. Uma única joaninha pode consumir centenas de piolhos! E se ali houver joaninhas a mais ou alimento a menos, ela própria pode praticar o canibalismo para reduzir a densidade populacional destes indivíduos. Faz, gratuitamente, aquilo que muitos pesticidas tentam fazer, mas sem contaminar os solos, a água ou os alimentos. É a natureza a autocontrolar-se.
E talvez por isso a joaninha seja um dos melhores exemplos para explicar que nem todos os insetos são “pragas”. Alguns são ótimos aliados.
Muita gente nem sabe que as larvas da joaninha são também predadoras ferozes, apesar do aspeto estranho que têm. É uma curiosidade que surpreende quando falo sobre as joaninhas durante as caminhadas ou atividades de educação ambiental.
Mas a joaninha não vive apenas da ciência. Vive também do imaginário das pessoas. E é aqui que a fantasia sobre as joaninhas ganha ainda mais esplendor.
Em muitos lugares é símbolo de sorte, proteção, boas notícias e presságios. Diz-se que, se pousar uma joaninha na mão, é dia de sorte. Noutras tradições acredita-se que nunca se deve matar uma joaninha, por respeito, ou por receio de afastar o bom presságio.
E não deixa de ser curioso que um inseto tão pequeno tenha gerado tanta simpatia popular.
Em algumas tradições populares europeias, sobretudo escocesas e centro-europeias, dizia-se que, se uma rapariga solteira colocasse uma joaninha na mão e a deixasse voar, a direção para onde ela partisse indicaria de onde viria o futuro namorado e marido. Noutras versões, o número de segundos que a joaninha demorasse a levantar voo revelaria quantos anos faltavam para casar. Pode parecer apenas folclore, mas mostra como até um pequeno inseto entrava no imaginário amoroso das comunidades rurais.
Há também quem atribua à joaninha o papel de “barómetro” da natureza. Em algumas aldeias do nosso país ainda se diz que, quando as joaninhas voam muito, vem bom tempo; quando elas se escondem, é sinal que vem aí chuva. Talvez os antigos procurassem mais uma forma de interpretar os fenómenos da natureza através da observação.
Nos campos agrícolas tradicionais havia quem reparasse que, onde havia joaninhas, as hortas estavam mais saudáveis. Sem conhecer o nome científico ou a ecologia da espécie, os antigos já percebiam a sua utilidade. Sabiam observar. E isso é sabedoria.
Costumo pensar muitas vezes naquilo que a minha avó me dizia quando eu ia para a horta, e que agora faz sentido: acreditar em mitos, lendas ou ditados populares sobre animais e plantas não nos afasta da natureza, é apenas mais uma razão, ou uma razão diferente, para protegermos o mundo que nos rodeia.
Enquanto gestor do património e técnico de educação ambiental, gosto deste exemplo, porque a joaninha permite falar de biodiversidade, agricultura sustentável, controlo biológico, tradições orais e memórias de infância — tudo a partir de um pequeno inseto que cabe na ponta de um dedo.
É exatamente isso que procuro quando falo que o património natural é uma excelente ferramenta para a educação e sensibilização ambiental: mostrar que o conhecimento, a emoção e a cultura podem nascer das coisas simples que estão ao nosso redor. Porque às vezes o que parece pequeno… afinal tem um significado enorme.
Agora pensa:
Quando foi a última vez que observaste uma joaninha com atenção?
E quantos aliados da natureza estaremos a ignorar todos os dias?


ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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