Maria da Conceição Sousa e Silva
Esta senhora é conhecida por ter ajudado a dar à luz uma infinidade de lousadenses, mas também pelo feito inédito da introdução das consultas de planeamento familiar em Lousada. Dedicou muita da sua vida ao artesanato e à cultura do linho. Ficaram famosas as espadeladas que organizava na propriedade da família, em Nespereira, nas décadas de 1980 e 1990, além das participações em importantes certames regionais e nacionais de promoção dos bordados e da tecelagem. Maria da Conceição Sousa e Silva, de 81 anos e nascida a 21 de maio de 1943 em Castelões Cepeda, concelho de Paredes, estabeleceu-se em 1969 em Lousada, primeiro em Meinedo e depois em Nespereira, após casamento com o empresário de materiais de construção, António da Cunha Magalhães.
Estudou na escola básica do centro de Paredes, dos seis aos onze anos de idade e ali fez exame da quarta classe do ensino primário. “Lembro-me de ser muito boa a matemática e de gostar de andar na escola”, recorda esta cidadã que reside em Lousada há mais de 60 anos.
A enfermagem relacionada com os nascimentos (obstetrícia) foi sempre do seu agrado e aos vinte e um anos ingressou no curso de enfermagem da escola do Hospital de Santa Maria, no Porto, com a duração de dezoito meses e mais tarde, com 24 anos, fez o 2.º ano do curso de enfermagem. Com vinte e nove anos, já casada, fez a especialidade de obstetrícia. O estágio escolar foi realizado no hospital de São João do Porto. Recorda as dificuldades em concretizar o percurso académico ao dizer que teve “que pedir dinheiro emprestado para tirar o curso”.
Fez a especialidade de saúde materno-infantil na escola do hospital de São João do Porto e o curso de partos na maternidade Júlio Dinis no Porto. Exerceu a sua atividade no Centro de Saúde de Paço de Sousa, Vila Nova de Gaia, Penafiel e Meinedo e nos hospitais Santos Silva (Vila Nova de Gaia), Penafiel e Lousada.
Certa vez, “fui chamada para fazer um parto em casa. Quando lá cheguei, verifiquei que não havia condições para fazer o parto, pois a grávida teria de ser levada para o hospital, mas o marido da parturiente não permitia que a mulher fosse fazer o parto ao hospital porque pensava que tinha de pagar. Mas eu impus-me e disse «eu não venho aqui por dinheiro, venho aqui para ajudar a sua mulher» e o parto realizou-se no hospital, o que salvou a vida da mãe e do bebé. Se assim não fosse, teriam morrido”, revela Maria da Conceição.
Também viveu situações “em que a pobreza era tal que tive de comprar camisas de noite para as mães, roupas para os bebés e até medicamentos ou pagar o táxi até ao hospital”, afirmou, conforme relatos que há décadas correm em Lousada.
“Havia uma senhora grávida que apresentava muitas queixas e eu disse à médica que talvez fosse por causa da bicha solitária, mas a médica não valorizou. O que é certo é que era e tinha um tamanho de oito metros! A senhora meteu-a num frasco e levou à médica, que não queria acreditar no que estava a ver!”, relata a antiga parteira.
Outra história muito engraçada “aconteceu quando fui chamada para ir fazer um parto para lá do rio Sousa, no lugar das Cales, em Meinedo. Não havia condições para o parto em casa. O carro não chegava perto da casa pois a passagem era uma tábua de madeira sobre o rio. A senhora era muito pesada, e então tivemos de a sentar numa cadeira e carregá-la até ao outro lado do rio pela tábua de madeira”, recorda, pelo meio de risos.

PIONEIRA NO PLANEAMENTO FAMILIAR
Em Lousada, começou por trabalhar no posto médico de Meinedo, “onde o acompanhamento das grávidas era precário”. Por exemplo, “nem eram pedidas análises durante a gravidez para avaliar o estado de saúde da mãe”, refere.
Mais tarde, foi transferida para o Centro de Saúde de Lousada, onde trabalhou com a sua irmã, também parteira e com a dona Delfina: “o nosso trabalho era seguir e acompanhar as grávidas durante a gravidez e o parto em casa ou no Hospital de Lousada. Quando o parto era mais complicado, enviávamos as parturientes para a Maternidade Júlio Dinis, pois não havia médicos especialistas em Obstetrícia em Lousada”.
No Centro de Saúde de Lousada, “trabalhei com médicos como o Dr. Serafim Neto, o Dr. Brás, o Dr. Rui Neto, o Dr. Mário Fonseca o Dr. Carlos Alberto Carvalho, todos excelentes médicos, que exerciam a sua atividade com grande disponibilidade e vertente humana”.
“Orgulho-me de ter introduzido no Centro de Saúde as consultas de Planeamento Familiar, que consistiam na execução de palestras sobre métodos contracetivos e onde eram distribuídos os anticoncecionais”, afirma Maria da Conceição, com orgulho.
Foi abordada muitas vezes “por senhoras que queriam realizar um aborto, mas nunca o fiz, pois tal ia contra a minha ética profissional e moral. Tentava demover as senhoras de o fazer e o que é certo é que algumas delas levaram a gravidez até ao final e até me agradeceram o facto de não terem efetuado o aborto”.
Revela que uma das maiores satisfações que tem atualmente acontecem em locais públicos:, “quando me abordam me abordam e me dizem «foi a D. Conceição que me fez os partos» ou «eu nasci com a senhora, pois foi quem fez o parto à minha mãe»”.
PAIXÃO PELA CULTURA DO LINHO
A sua mãe era agricultora, pelo que logo desde pequena que teve contacto com a cultura do linho. Quando casou, em abril de 1969, já ninguém cultivava o linho, para sua tristeza. “Em 1984, viemos viver para Lousada, onde construímos uma casa com muito terreno para cultivar. E foi aí que me surgiu a vontade de recriar esta tradição”. Conta que em 1990, o seu marido comprou um pacote de sementes com cerca de um quilograma: “semeámos e nasceu tanto que decidimos realizar todo o ciclo do linho. No início, tínhamos de ir moer o linho a Fonte Arcada, Penafiel, pois só lá é que havia um engenho para moer. Mais tarde, adquirimos um engenho que ainda hoje está em nossa casa”. Ali existe toa a variedade de apetrechos ligados a essa atividade artesanal, como os três teares, onde Maria da Conceição tecia o linho.
Em setembro, “fazíamos uma grande festa, que era a Espadelada, onde se comia, bebia, cantava e dançava. Eram convidadas todas as senhoras da freguesia que soubessem espadar e assim o linho que tínhamos cultivado nesse ano ficava espadado”.
“Uma vez que sei trabalhar em todas as fazes do ciclo do linho, cheguei mesmo a fazer exposições, dei formação e até mesmo palestras em escolas sobre a cultura do linho, mas as novas gerações não querem trabalhar na terra e, além disso, o processo de cultura do linho torna-se muito demorado e caro; já ninguém decora as casas com panos de linho ou usa lençóis de linho nas camas e toalhas nas mesas”, lamenta Maria da Conceição, que ainda assim tem esperança que algum dia aquela tradição seja reavivada.














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