por | 21 Set, 2025 | Opinião

Todos os verões, o país acorda com as imagens de chamas que devoram florestas, casas e vidas. Em 2025, infelizmente, não foi diferente. Apesar de décadas de tragédias, relatórios e promessas, os bombeiros portugueses continuam a enfrentar os mesmos problemas do passado, muitas vezes com meios insuficientes, equipamentos obsoletos e apoios que chegam tarde ou nunca chegam.

O calor extremo, a seca prolongada e a gestão deficiente dos territórios resultaram em mais um ano negro. Centenas de ocorrências colocaram à prova a resiliência dos soldados da paz, que arriscaram a própria vida para salvar desconhecidos, comunidades inteiras e o património natural de todos nós.

Ano após ano, repete-se o mesmo cenário: viaturas envelhecidas, equipamentos de proteção individual em falta, turnos extenuantes e recursos humanos cada vez mais escassos. As recomendações técnicas e científicas são esquecidas, ficando sempre para o “próximo orçamento” ou “para quando houver verbas”.

Enquanto se gastam milhões em obras públicas ou projetos de fachada, os quartéis de bombeiros sobrevivem com orçamentos mínimos, dependentes muitas vezes da boa vontade das autarquias, da solidariedade popular e até de peditórios locais. O investimento estrutural na prevenção, na valorização salarial e na carreira de bombeiro continua a ser adiado.

Não são apenas as vítimas diretas dos incêndios — populações, animais e floresta destruída — que contam. Os bombeiros, feridos ou mortos em serviço, e as suas famílias são também esquecidos. O trauma psicológico, o desgaste físico e a ausência de compensações dignas são feridas que o Estado raramente assume cumprir.

As autarquias locais podem desempenhar um papel crucial na proteção civil e na prevenção dos incêndios.

  • São responsáveis por apoiar financeiramente os corpos de bombeiros, ajudando na aquisição de viaturas, equipamentos e manutenção de quartéis.
  • Executam os Planos Municipais de Defesa da Floresta Contra Incêndios, que incluem a limpeza de terrenos, criação de faixas de contenção e vigilância florestal.
  • Têm o dever de fiscalizar os proprietários que não limpam os terrenos e de aplicar coimas quando a lei não é cumprida.
  • Promovem campanhas de sensibilização e criam brigadas municipais de sapadores florestais.

Na teoria, o Estado central define a estratégia e as autarquias executam no terreno. Na prática, a eficácia depende da prioridade política e da capacidade financeira de cada município. O resultado é um país desigual: alguns concelhos, (porque têm capacidade financeira), protegem os seus bombeiros, outros deixam-nos praticamente sozinhos.

Ser bombeiro em Portugal é viver diariamente com risco de vida. Os acidentes em serviço — queimaduras, intoxicações, ferimentos graves ou mesmo a morte — são frequentes. E, infelizmente, muitos acabam por deixar sequelas permanentes.

Quando isso acontece, as indemnizações são insuficientes, os processos arrastam-se durante anos e as famílias ficam desamparadas. Um bombeiro que perde a capacidade de trabalhar pode acabar com pensões irrisórias, incapazes de garantir o mínimo para viver. As famílias dos que morrem em serviço recebem homenagens simbólicas, mas não o apoio financeiro digno que merecem.

É inaceitável que quem arrisca a vida por todos nós não tenha as mesmas garantias sociais que outros serviços da Administração Pública. É urgente criar um regime social e de indemnizações rápido, digno e justo, que proteja bombeiros e famílias, quando no desempenho de funções, a sua saúde ou a vida está em risco.

Não basta louvar o heroísmo dos bombeiros portugueses nas cerimónias oficiais ou nas reportagens televisivas. É preciso dar-lhes condições reais para cumprir a missão que abraçaram.

Se o Estado continuar a falhar, os incêndios de 2025 serão lembrados não apenas pelas mortes dos soldados da paz e pelo rasto de destruição que deixaram, mas também pela incapacidade dos governos e das autarquias de aprender com os sucessivos erros.

Cada um, governo e autarquais, sacodem a água do capote, Os bombeiros não podem continuar a ser os heróis esquecidos pelo Estado. A sua coragem exige respeito, investimento e justiça.

Candidato da CDU á Camara Municipal de Lousada

Alberto Ribeiro Torres

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