por | 21 Set, 2025 | Grandes Louzadenses

“Lousada está a perder a maior riqueza: o seu espírito comunitário”

JOSÉ MANUEL MAGALHÃES BARBOSA FAZ HOJE 100 ANOS

Filho de lousadenses, José Manuel nasceu numa casa que já não existe, mas cujas japoneiras ainda permanecem no mesmo local, na junção da Rua Visconde de Alentém com a Rua de Santo António. Devido à colocação do pai em diferentes repartições de finanças, viveu parte da infância e juventude em Matosinhos e no Porto, embora sempre mantendo ligação a Lousada. Tornou-se bairrista e ativista cívico e político, colaborando ativamente no Jornal de Lousada. Foi guarda-livros (contabilista) conceituado em firmas de renome nacional e internacional. A poucos dias de completar 100 anos, impressiona pela clarividência e lucidez. Usa a internet e as novas tecnologias da informação. Fala com paixão da sua visão de Lousada e da sua evolução. Com saudosismo, lamenta a perda de tradições e vivências que a vila outrora teve.

Na década de 1930 existia em Lousada uma espécie de infantário, conhecido como “Casa da Tainha”, que José Manuel também frequentou. No entanto, as principais memórias da infância e juventude remetem para Matosinhos e Porto: as brincadeiras na praia, o som do farol em dias de nevoeiro e os companheiros que moldaram o seu carácter “no seio de uma comunidade solidária e trabalhadora”.

Frequentou a escola até à 3.ª classe, guardando a memória “da dedicação das professoras Margarida e Jesuína e do professor Sousa, figuras recordadas pela exigência e cuidado com os alunos”. A vida escolar “era complementada pelo convívio com vizinhos e familiares, numa época em que a infância se confundia com a vida comunitária e com as tradições locais”.

Em 1934 e 1935, a família mudou-se para o Porto, quando José Manuel tinha apenas nove anos. O choque foi grande: “de uma realidade modesta, mas unida, passei para o ambiente urbano e exigente da cidade. As primeiras experiências escolares não foram fáceis e cheguei a reprovar, fruto das dificuldades de adaptação”. Com esforço, conseguiu superar os obstáculos, concluiu o curso comercial e alimentou o sonho de prosseguir estudos superiores. “O meu grande desejo era ingressar na Escola Náutica. Preparei-me com afinco, dedicando-me ao estudo da álgebra, química e física”.

O destino, porém, trouxe-lhe um revés doloroso. Em 1943, perdeu o pai de forma inesperada, aos 54 anos. Esse acontecimento abalou a vida familiar e obrigou-o, juntamente com a mãe e o irmão, a regressar a Lousada.
“Nesse tempo, era uma vila pacata, até demais, quase irracional, como se o povo tivesse caído num estupor torturante, sem nada mais a fazer senão vender a sua força de trabalho dia após dia. Mais tarde, depois da jornada de cada um, alguns homens, jovens ou mais velhos, saíam à noite para os clubes, cumprindo sempre, escrupulosamente, as regras de separação social há muito estabelecidas”, recorda.

Os mais abastados – comerciantes, profissionais liberais e funcionários públicos em posições de destaque – frequentavam a Assembleia. Os restantes, gente comum da construção civil, alfaiates, barbeiros, escriturários e outras profissões, reuniam-se nos Bombeiros ou no Club Recreativo.
Segundo José Manuel, “todos tinham um propósito comum: conversar, jogar ou tomar café. Não havia outro tipo de vida. Assim se passavam dias, meses e anos… Aqueles, do segundo escalão social, que gostavam de jogar a batota mais pesada, frequentavam os dois clubes. Já os detentores das terras de senhorio – as grandes Casas Brasonadas – jogavam em altas paradas o produto suado dos seus caseiros, arruinando-se mutuamente em clubes privados, como aconteceu com os Senhores de algumas dessas Casas espalhadas pelo concelho”.

O sonho da Escola Náutica desapareceu e com ele muitas ambições académicas. A necessidade de garantir sustento levou-o a dedicar-se ao trabalho. Começou em funções ligadas ao comércio e à contabilidade, área onde se destacou pela seriedade e competência. Com o tempo, foi chamado a desempenhar papéis de maior responsabilidade, como o de perito judicial em processos contabilísticos, colaborando diretamente com o tribunal. Essa experiência exigia-lhe não só conhecimentos técnicos, mas também coragem e firmeza, pois enfrentava advogados experientes em debates intensos.

Lousada das décadas de 1930 a 1950 marcou-o profundamente. Foi testemunha “da miséria que se abatia sobre muitas famílias, com rendeiros sem colheitas e pobres que, ao sábado, percorriam descalços as ruas em busca de esmola”. Apesar da dureza, guarda memórias de um convívio humano único: “os vizinhos que se sentavam à porta das casas no verão, famílias que se conheciam todas e que partilhavam tanto as alegrias como as tristezas”. Para ele, “esse espírito de coesão social foi um dos maiores patrimónios da sua juventude, algo que a modernidade, apesar de trazer mais conforto e progresso, acabaria por diluir”.

A leitura de grandes autores mundiais moldou-lhe “a visão crítica sobre a sociedade e o regime político da época”, alimentando “uma consciência social e uma atenção constante às desigualdades”.

No trabalho, contribuiu para a economia de várias empresas como guarda-livros (hoje chamados contabilistas ou técnicos de contas), nomeadamente no Banco Português do Atlântico, em Luanda (Angola). Paralelamente, envolveu-se em causas sociais e cívicas. Mesmo quando esteve longe, acompanhou de perto a transformação de Lousada: “de uma vila pequena, pobre mas solidária, para uma vila maior, moderna e próspera”. Ainda assim, lamenta “a perda da coesão comunitária”.

Das suas memórias não deixa apenas o retrato da sua vida, mas também um testemunho vivo do quotidiano, das figuras locais e das mudanças sociais e políticas do século XX em Portugal. Foi, assim, não apenas protagonista da sua história, mas também guardião da memória coletiva da sua terra.

OS MÚSICOS DA RUA VISCONDE DE ALENTÉM

“O quintal da nossa casa terminava na confluência da Rua de Santo António com a Rua Visconde. O prédio de habitação ficava no lugar onde hoje estão os bancos de pedra e uma japoneira, relíquia da casa, formando uma espécie de triângulo, já que as paredes de cada rua eram ligadas por outra, de metro e meio.

Junto dessa pequena parede havia um fontanário de ferro forjado, com uma torneira grande, onde as pessoas se abasteciam de água com canecos e cântaros de barro. Os galinheiros, que passavam para a feira, pousavam as canastras das galinhas no muro da Santo António ou prendiam os burritos às argolas, enquanto matavam o bicho na taberna da Marquinhas Policarpa. O gado bebia numa concha em forma de ameijoa, na qual as mulheres pousavam os cântaros enquanto os enchiam.

O local tinha outra singularidade: viviam ali vários músicos. Entre eles, o Néquinha da Policarpa, no violino, e o Quinzinho Pépé, a solfejar na sala da sua casa, pedindo à mulher: – “Oh Emília, tira o caldo”. Este senhor Joaquim era tamanqueiro, muito estimado. Tinha a oficina precisamente no lugar onde hoje é a garagem de Carlos José Nunes da Silva, falecido há cerca de dois anos.

Havia ainda o senhor Narciso Ribeiro da Mota, que tocava clarim e foi músico destacado da Banda Musical de Lousada. Outro vizinho, o Zeca da Virgínia, pai de Maria Orquídea Barros Nunes e de Maria Rosete Barros Nunes, destacou-se igualmente como membro da mesma Banda, tocando requinta. Segundo bons conhecedores, era um executante de grande sensibilidade e gosto artístico.

Aquela zona da Rua Visconde era, de facto, um lugar privilegiado de Lousada”.

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