Transparência é uma daquelas palavras que todos os políticos gostam de usar. Está sempre presente nos discursos, nos programas e até em distinções oficiais que, aqui e ali, reconhecem boas práticas. Mas, quando olhamos com atenção, percebemos que muitas vezes a transparência é tratada apenas como um exercício formal: publicar relatórios extensos ou tabelas extraídas de um sistema informático. Isso pode cumprir a lei, pode até gerar prémios, mas está longe de cumprir aquilo que os cidadãos realmente esperam.
A verdadeira transparência não é despejar números em bruto. É dar-lhes sentido. É explicar as escolhas feitas, as prioridades assumidas e os resultados alcançados. É também, e sobretudo, falar com clareza quando as coisas não correm bem: porque determinado investimento não avançou, porque uma promessa eleitoral ficou por cumprir, ou porque uma estratégia não produziu os resultados previstos. É precisamente nesses momentos que a transparência é mais necessária. É aí que se testa a confiança entre eleitos e eleitores.
Numa perspetiva liberal, a transparência tem duas dimensões inseparáveis. A financeira, porque cada recurso público vem do esforço dos contribuintes e deve ser utilizado com rigor. E a política, porque os cidadãos têm o direito de compreender não apenas como o dinheiro foi gasto, mas também quais foram as opções tomadas, por que se escolheu um caminho em vez de outro e que resultados se pretendia alcançar. A prestação de contas só é completa quando aborda sucessos e insucessos, assumindo responsabilidades e explicando contextos.
A confiança dos cidadãos não depende de tudo correr bem, depende de haver explicações claras. Os munícipes sabem que a gestão pública tem dificuldades e imprevistos; o que enfraquece a relação entre eleitos e eleitores não são os problemas em si, mas a forma como se escondem ou omitem. Transparência é, por isso, garantir que tanto os sucessos como os fracassos são comunicados com a mesma clareza.
Mais ainda: só com cidadãos bem informados se constroi a massa crítica necessária a uma democracia exigente. Quanto maior for o número de pessoas capazes de compreender, questionar e debater as decisões políticas, mais forte será a vida pública local. A transparência não é apenas um dever legal ou um selo de reconhecimento externo; é o alicerce que permite uma participação cívica mais responsável e uma comunidade mais confiante.
Defender mais transparência não é criticar o presente, é melhorar o futuro. Significa querer um sistema em que os dados não se limitam a ser publicados, mas são explicados e contextualizados; em que as decisões, certas ou erradas, são assumidas com clareza; e em que os cidadãos são tratados como protagonistas, não como meros espectadores. Só assim a transparência deixa de ser uma palavra repetida em discursos para se tornar naquilo que realmente importa: confiança.













Comentários