“Talvez um território saudável seja aquele onde ainda existam cobras.” Tenho a certeza que esta frase fará muitas pessoas franzirem o sobrolho. Afinal, durante séculos, aprendemos precisamente o contrário. Crescemos a ouvir que as cobras eram perigosas, traiçoeiras, venenosas, que encantavam pessoas, traziam mau agoiro ou anunciavam desgraças. Bastava alguém dizer “Está ali uma cobra!” para o medo chegar primeiro do que a curiosidade. Mas será que sempre foi assim? Será que nascemos com medo das cobras? Ou aprendemos a tê-lo?

Ao longo de muitos anos a trabalhar em Educação Ambiental, há uma observação que nunca mais me saiu da cabeça. Conheço pessoas que gostam de cobras, mas não lhes conseguem tocar. Outras arrepiam-se só de as verem na televisão ou numa fotografia. Há quem mude de passeio ao imaginar que uma cobra possa estar escondida na vegetação. Mas, curiosamente, as crianças mais pequenas, sobretudo até aos três ou quatro anos, parecem ainda não conhecer esse medo. Querem tocar. Querem pegar. Querem sentir as escamas. Querem perceber porque têm tantos desenhos no corpo. Observam os olhos, as cores, as linhas e as formas geométricas que percorrem a pele. E quase todas acabam por fazer a mesma descoberta: — “Está fria!” Está, de facto.

As cobras são animais ectotérmicos (de sangue frio) e utilizam a temperatura do ambiente para regular a temperatura do corpo. Talvez por isso as encontremos frequentemente expostas ao sol, sobre pedras aquecidas, ou noutros locais quentinhos. Mas aquilo que verdadeiramente me fascina não é essa descoberta. É outra pergunta: O que acontece depois dos quatro ou cinco anos para que aquela curiosidade natural se transforme, tantas vezes, em medo, repulsa ou até nojo? Talvez a resposta esteja menos nas cobras e mais em nós.

Curiosamente, poucos animais estiveram tão presentes na cultura humana como a serpente. Na tradição cristã tornou-se símbolo da tentação e do pecado original, marcando profundamente a forma como o mundo ocidental passou a olhar para este animal. Mas essa é apenas uma das narrativas. Ao mesmo tempo, a serpente representa a Medicina através do Bastão de Esculápio, símbolo universal da cura. Em muitas civilizações antigas simbolizava sabedoria, proteção e conhecimento. O simples facto de mudar de pele transformou-a, ao longo dos séculos, num símbolo de renovação, transformação e renascimento.

Em algumas culturas agrícolas era sinal de fertilidade e de boas colheitas. Poucos animais carregam consigo uma dualidade tão fascinante que, para uns representa o pecado, para outros, a cura. Para uns inspira medo, para outros, proteção. Também o património da nossa região guarda essa relação antiga com as serpentes.

Na cultura castreja, por exemplo, a serpente simbolizava a renovação, a ligação à terra, a imortalidade e a proteção espiritual. Ainda hoje encontramos representações serpentiformes em alguns povoados fortificados e em elementos da arquitetura tradicional. Muito antes de ser vista como um animal maligno, a cobra já fazia parte da forma como os nossos antepassados compreendiam o mundo. Nas serras, bosques, campos agrícolas e linhas de água de Lousada e de Paços de Ferreira vivem várias espécies de serpentes, como a cobra-rateira, a cobra-de-escada, a cobra-de-ferradura, a discreta cobra-lisa-meridional, a cobra-de-água-viperina e a cobra-de-água-de-colar. Todas elas são inofensivas para o ser humano.

A exceção, em Portugal, pertence às víboras — como a víbora-cornuda e a víbora-de-seoane — espécies venenosas cuja presença, até ao momento, não foi registada nos concelhos de Lousada e Paços de Ferreira. Na Natureza, as cobras desempenham um papel silencioso, mas absolutamente fundamental. Controlam populações de ratos e outros pequenos mamíferos, ajudam a limitar pragas agrícolas, alimentam aves de rapina e integram uma complexa cadeia alimentar. Sem elas, o equilíbrio ecológico altera-se. Talvez um território onde ainda existam cobras seja, precisamente, um território onde a Natureza continua a saudável. Também eu cresci a olhar para as cobras com algum receio.

Como muitas crianças, aprendi primeiro a temê-las. A minha avó e a minha mãe diziam-me que, se encontrasse uma cobra na horta, era melhor não me aproximar. Diziam que me podia encantar ou ferrar mortalmente. Durante muitos anos aceitei essas palavras sem as questionar. Hoje olho para essas memórias de outra forma. Pergunto-me se, no fundo, elas não estariam também a proteger a cobra. Porque hoje sei que as serpentes que vivem junto das casas das pessoas alimentam-se sobretudo de ratos, pequenos anfíbios, lagartixas e outros animais, como alguns invertebrados, que causam prejuízos nas hortas.

Talvez, sem nunca o explicarem desta maneira, os mais antigos soubessem que aquela cobra, afinal, estava a prestar um serviço precioso. Talvez a melhor forma de proteger uma criança, como eu, fosse afastá-la do animal e, ao mesmo tempo, proteger um animal que ajudava a cuidar da horta da família. Mas nem todos pensavam assim. Também ouvi muitas vezes: — “Sempre que vires uma cobra, mata-a. À pedrada ou à sacholada. Mas mata-a!”

Talvez seja precisamente aí que nasce o conflito entre o medo e o conhecimento. Ao longo de mais de uma década a trabalhar diretamente com comunidades, recolhi dezenas de histórias populares sobre cobras. Uma das mais repetidas continua a ser a de que as cobras mamavam o leite das vacas. Ainda esta semana, durante uma atividade com um grupo de seniores, uma senhora, a Dona Fernanda, garantiu-me, com toda a convicção: — “Eu vi! Estava agarrada à mama da vaca!”

Contou-me que toda a vida viveu da agricultura. Tinham vacas, porcos e campos. Um dia, quando foi buscar mato para a corte, encontrou uma cobra junto de uma das vacas. Assustada, fugiu imediatamente, ouvindo depois o ralhete do pai. Sorri enquanto a escutava. Não porque estivesse errada. Mas porque aquela história já a ouvi dezenas de vezes em diferentes aldeias. Hoje sabemos que as cobras não mamam leite. Nem sequer possuem a anatomia necessária para o fazer. Não têm bochechas nem músculos que lhes permitam sugar como fazem os mamíferos. E, na verdade, nem gostam de leite.

Mas a história continua viva. Talvez a cobra estivesse ali, num local quentinho e à espera de um rato para se alimentar – o mais provável. E isso diz muito mais sobre a nossa cultura do que sobre as próprias cobras. Outra narrativa muito comum é a de que as cobras encantam as pessoas.

Há poucos dias uma senhora contava-me precisamente isso. Estava a trabalhar na lavoura quando uma cobra lhe apareceu pela frente. — “Encantou-me.” Dizia ela. Ficaram, as duas, imóveis. A cobra com a cabeça levantada. Ela sem conseguir dar um passo. E ali permaneceram durante alguns segundos a olhar uma para a outra. Eu acredito que foi exatamente isso que aconteceu. Mas talvez exista outra explicação. Talvez nenhuma delas tenha encantado a outra. Talvez simplesmente tenham congelado. A senhora porque via um animal de que tinha muito medo. A cobra porque via um gigante que podia representar uma ameaça. Durante alguns segundos, ambas ficaram em alerta. E talvez essa imagem diga muito sobre a relação que fomos construindo com este animal ao longo dos séculos.

Há ainda quem acredite que sonhar com cobras anuncia traições, perigos ou mudanças importantes na vida. Confesso que, de vez em quando, também sonho com cobras e, inevitavelmente, acabo por perguntar aos mais velhos o que isso significa. As respostas nunca são iguais. Uns dizem que é sinal de traição. Outros garantem que anuncia uma mudança positiva, uma renovação. Há ainda quem encolha os ombros e responda apenas: “Sonhar faz bem. É sinal de que estamos vivos.”.

Talvez nenhuma destas interpretações seja científica. Mas todas fazem parte do património imaterial das nossas comunidades. Talvez seja precisamente isso que mais me fascina nas cobras. Não são apenas os animais. São as histórias que transportam. Os medos que despertam. As conversas que provocam. As memórias que conservam.

Ao longo desta saga tenho procurado mostrar que o património não vive apenas nos monumentos. Vive também nas plantas, nos rios, nos muros, nas pontes e nas tradições. Hoje acrescento mais um elemento a essa lista. A cobra. Um animal que aprendemos a temer antes de aprender a conhecer. E talvez o verdadeiro desafio da Educação Ambiental seja precisamente esse: substituir o medo pelo conhecimento, sem perder o respeito. Porque conhecer nunca nos obriga a gostar. Mas ajuda-nos sempre a compreender melhor.

AMBIENTE & PATRIMÓNIO, POR ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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