Há uma frase que arrastamos há demasiado tempo, sempre dita com o mesmo encolher de ombros: “sempre se fez assim”. É a frase mais cara da nossa história recente. Não consta de nenhuma factura, mas é ela que paga a conta de tudo o que deixámos por fazer. Custa futuro. O nosso problema nunca foi o diagnóstico. Sabemos, há décadas, o que está mal: a produtividade não acompanha a Europa, formamos gente de excelência para a ver partir, e repetimos os mesmos debates, com as mesmas conclusões, enquanto o interior se esvazia.
O diagnóstico está feito há tanto tempo que já o decorámos. O que nunca tivemos foi a coragem de agir sobre ele.Porque agir assusta e parar, não. E há uma razão muito prática para que o medo seja tão atraente: não arriscar é não errar, e quem nunca erra não levanta polémica nem perde votos. Há toda uma forma de fazer política que percebeu isto à perfeição e fez dela um método: administrar o mínimo dos mínimos, entregar só o suficiente para que ninguém se revolte, gerir as expectativas sempre para baixo até a mediocridade passar por normalidade.
É a arte de não falhar por nunca tentar: assim se mantêm a paz e os lugares, e o país fica exactamente onde está, com toda a gente contente e ninguém incomodado para exigir mais.Olhemos para o que tínhamos à mão e deixámos escapar.Digitalizámos o Estado, e perdemos a oportunidade de o repensar. Pusemos formulários no ecrã em vez de os eliminar, automatizámos a burocracia em vez de a dispensar. Usámos a tecnologia para cimentar, em código, os mesmos processos que já não faziam sentido em papel. A tecnologia não transforma quem não se quer transformar, apenas torna mais rápido o caminho para o sítio errado.Anunciámos reformas, e quase nunca as terminámos.
A razão é mais funda do que a falta de meios: já nos habituámos ao mau. E de tal forma que preferimos o mau que conhecemos à incerteza do que vem a seguir. Por isso a reforma arranca com pompa, encontra a primeira resistência e recua. Porque mexer no que está, por pior que esteja, assusta sempre mais do que conviver com o defeito de sempre. Mudamos o suficiente para dizer que mudámos, e pouco o bastante para que nada mude. E o que fica a meio não é prudência: é um custo sem retorno, um projecto que pagámos e do qual nunca colhemos os frutos. E, sobretudo, desperdiçámos pessoas, a oportunidade mais imperdoável, porque é a única que não volta.
Cada jovem qualificado que sai é uma decisão que tomámos por omissão, ao não lhe criarmos condições para ficar. Não falta talento a este país: falta o ambiente que lhe permita florescer aqui, em vez de o exportarmos para florescer noutro sítio qualquer.Nada disto vem de falta de meios, de gente capaz ou de ideias. Vem da relutância em dar o passo seguinte. Dizemos a nós próprios que ficar parados é a opção segura. Não é: é a mais cara de todas, a única que garante que amanhã estaremos exactamente onde estamos hoje. E talvez seja aqui a raiz mais incómoda.
Quando o sistema premeia quem nunca arrisca e nunca erra, não nos podemos espantar com o tipo de pessoas que atrai. A política, que devia ser o lugar onde se vai para servir, é demasiadas vezes o lugar onde se vai para ficar. Um refúgio confortável para quem teria uma vida bem mais difícil se a tivesse de construir lá fora, ao critério do seu próprio mérito. E o resultado é esse espectáculo a que já nos habituámos: gente instalada há anos, a bater no peito e a falar de uma vida inteira de sacrifício ao serviço do bem público, como se tivesse renunciado a uma carreira brilhante que talvez nunca tivesse estado ao seu alcance.Liderar não é ter todas as respostas antes de começar.
É ter a coragem de começar com as que já temos e corrigir o rumo pelo caminho. A reforma não é um acontecimento único e perfeito; é um hábito, a disciplina de melhorar todos os dias o que ontem aceitámos como inevitável. Coragem, aqui, não é um sentimento, mas sim um método.E o papel de quem governa não é prometer de cima o que só nasce de baixo. É retirar obstáculos, deixar de ser o entrave, criar condições para que as pessoas e as empresas façam o que sempre souberam fazer melhor do que qualquer Estado: arriscar, criar, construir.
A boa notícia é que a oportunidade continua aqui. Esteve sempre. Estas oportunidades raramente desaparecem de vez; vão sendo adiadas, de geração em geração, com a mesma nota agarrada: “nós sabíamos, mas tivemos medo”. A pergunta é simples e é dura: vamos voltar a passar o bilhete para a frente, ou vamos ser nós a dar, finalmente, o próximo passo?Não tenho dúvidas sobre a resposta certa. A minha dúvida é outra, e é mais dura: essa coragem existe, só que não está no poder. Não a encontro em quem hoje decide, seja em Lousada, seja em Portugal, seja até no Mundo. É exactamente para isto que serve a liderança: para transformar uma resposta que todos conhecem numa decisão que ninguém tem a ousadia de tomar.
Mas os que mandam não a tomam, e não é por acaso: são eleitos precisamente por isso, porque dão a garantia tranquilizadora de que cumprirão os mínimos, em vez de arriscarem ser mais e maiores. Premiamos quem promete não falhar e afastamos quem se atreve a tentar. É essa a verdadeira escassez do nosso tempo: não nos faltam meios, nem ideias, nem gente capaz de liderar. Falta apenas que essa gente chegue a onde as decisões se tomam.
E enquanto continuarmos a eleger o conforto dos mínimos, a oportunidade fica onde sempre esteve: à nossa frente, intacta, à espera de quem tenha, finalmente, a ousadia de a agarrar.













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