“Há adultos que, em crianças, nunca foram insultados. Nunca foram espancados. Nunca passaram fome. E, ainda assim, cresceram convencidos de que não tinham valor.”
À primeira vista, parece impossível.
Se nunca lhes faltou o essencial, como pode ter-lhes faltado tanto?
Talvez porque continuamos a acreditar que uma infância feliz é aquela onde não existem grandes tragédias.
Mas a infância não se mede apenas pelas feridas que se veem.
Mede-se, sobretudo, pelas necessidades que nunca chegaram a ser reconhecidas.
Vivemos numa sociedade profundamente preocupada com aquilo que as crianças fazem.
As notas que tiram.
O comportamento que têm.
As atividades que frequentam.
O sucesso que alcançam.
Mas fazemos muito poucas perguntas sobre aquilo que sentem.
Talvez porque nós próprios nunca aprendemos a responder a essas mesmas perguntas.
E é aqui que nasce uma das maiores tragédias silenciosas do nosso tempo.
Não estamos a educar crianças.
Estamos, muitas vezes, a educar máscaras.
Ensinamos uma criança a dizer que está tudo bem quando não está.
A sorrir quando tem vontade de chorar.
A controlar as emoções para não incomodar os adultos.
A esconder o medo para parecer forte.
A procurar aprovação para merecer amor.
Sem percebermos, começamos a premiar versões adaptadas da criança.
Aquela que dá menos trabalho.
Que não responde.
Que não faz birras.
Que tira boas notas.
Que corresponde às expectativas.
E, lentamente, a criança aprende uma lição perigosa:
“Para ser amada, preciso de deixar de ser quem sou.”
Anos mais tarde, encontramos adultos que já não sabem responder a uma pergunta aparentemente simples:
“Quem sou eu?”
Sabem dizer a profissão.
Sabem dizer as responsabilidades.
Sabem cuidar de toda a gente.
Mas perderam o contacto consigo próprios.
Passaram tantos anos a representar aquilo que os outros esperavam deles que deixaram de saber distinguir a máscara da identidade.
E o mais inquietante é que isto raramente acontece por falta de amor.
Acontece porque confundimos amor com controlo.
Proteção com sobreproteção.
Educação com obediência.
Há pais que amam profundamente os filhos.
E, ainda assim, corrigem mais do que escutam.
Exigem mais do que compreendem.
Preocupam-se mais com o comportamento do que com a dor que pode estar escondida por trás dele.
Não porque sejam maus pais.
Mas porque ninguém lhes ensinou outra forma de amar.
Repetem, muitas vezes sem consciência, aquilo que também aprenderam.
E é assim que a dor atravessa gerações.
Não através da maldade.
Mas através da repetição.
Talvez a maior herança familiar não seja aquilo que deixamos numa escritura.
Seja aquilo que deixamos na voz interior dos nossos filhos.
Porque um dia nós deixaremos de estar aqui.
Mas a forma como lhes falámos continuará.
A forma como reagimos aos seus erros continuará.
A maneira como os fizemos sentir quando falharam continuará.
E essa voz poderá ser o lugar onde encontram força… ou o lugar onde continuarão a sentir-se insuficientes.
Talvez ainda estejamos demasiado preocupados em preparar crianças para um mundo competitivo.
Quando a verdadeira urgência seja prepará-las para não se perderem de si próprias dentro desse mundo.
O sucesso nunca compensará uma identidade destruída.
Uma carreira brilhante nunca substituirá uma autoestima que nunca chegou a nascer.
Nenhuma conquista tem poder para preencher o vazio de alguém que passou a vida inteira convencido de que só merece amor quando corresponde às expectativas.
Educar nunca foi fabricar adultos bem-sucedidos.
Educar é ajudar uma criança a construir um lugar seguro dentro de si.
Um lugar onde possa falhar sem deixar de acreditar no seu valor.
Onde possa sentir sem vergonha.
Onde possa pedir ajuda sem medo.
Onde possa olhar ao espelho e reconhecer-se, sem precisar de vestir uma máscara para ser aceite.
Talvez seja tempo de deixarmos de perguntar aos nossos filhos:
“O que queres ser quando fores grande?”
E começarmos a perguntar:
“Será que estás aprender que só mereces amor quando correspondes ás expectativas dos outros?”
Porque a resposta a essa pergunta pode mudar uma infância.
E, quem sabe…
Uma geração inteira.
Patrícia Moreira
Terapeuta Emocional e Escritora













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