por | 19 Jun, 2021 | Ambiente, Sociedade

Revolucionar a agricultura evitando o desperdício

Pierre Del Cos, de 31 anos, nasceu no México, com mãe francesa e pai mexicano, e já viajou por muitos países “antes de aterrar nos campos do Norte de Portugal”, onde que quer ficar por um bom tempo. Estudou Engenharia Ambiental e hoje dedica-se à produção biológica e produção de minhocas, que podem ser utilizadas como fertilizante.

Na “Revolução das Minhocas”, nome dado a este seu projeto, “ajudamos as pessoas e as organizações a fazerem compostagem, ou seja, transformar o lixo da cozinha e do jardim em biofertilizantes de alta qualidade”, explica o engenheiro. O recurso às minhocas torna este processo todo mais rápido, tendo o nome de “vermicompostagem”.

“Tem também a vantagem de produzir um fertilizante sólido e um líquido, que é muito prático de aplicar e, regularmente, na rega. Mas também é muito fácil”, acrescenta Pierre.

Morou cerca de quatro em Celorico de Basto, numa pequena comunidade “quase autossuficiente em termos de alimentação”, explana, sentindo que a vida em comunidade é demasiado intensa, decidiu ir à procura de novas oportunidades. 

“A mãe de uma amiga tinha um terreno onde podíamos cultivar, com uma casa para alugar. Ficava perto do campo, o que era bastante favorável para os nossos cultivos, mas também ficava perto da cidade, que era bom para o nosso trabalho”, comenta.

Neste momento estão a construir uma “mini casa”, caracterizando-a assim, num contentor marítimo no terreno. Lousada despertou-lhes, a Pierre e à sua namorada Tami, ainda mais interesse por ter uma comunidade bastante jovem e com muitas iniciativas a nível ambiental.

Em 2016, com a sua chegada a Portugal, fez uma viagem de voluntariado para ajudar várias quintas de agricultura natural, em troca de alimentos: “o nosso objetivo era aprender a falar português e descobrir mais sobre a vida de campo. Adorei, e já não me vejo a morar numa cidade tão grande, como fizera até agora”, reflete o engenheiro.

“Nas quintas, descobri que estes recursos orgânicos podem ser transformados em fertilizantes naturais.” 

Com o término da sua viagem de voluntariado, Pierre procurou trabalho na sua área e “tinha de ser na cidade”, lamenta. Após a procura, admite que ficou “desiludido” ao ver que todos os resíduos orgânicos, desde cascas de legumes e frutas, até restos de poda, iam para o “lixo comum”.  

Com o enterro destes resíduos, o ar, o sol e a água, acabam por ser poluídos. “Nas quintas, descobri que estes recursos orgânicos podem ser transformados em fertilizantes naturais e para o cultivo de alimentos saudáveis, tanto para nós, como para o ambiente”, lembra. 

Nascimento da “Revolução das Minhocas” 

Com a vontade e necessidade de espalhar esta maneira de tratar os resíduos, Pierre Del Cos, criou a “Associação Revolução das Minhocas”. Através da sua pesquisa, percebeu que a forma como se consome alimentos e se descarta é errada. 

“Os alimentos que comemos são produzidos com fertilizantes químicos, mas de onde vêm esses fertilizantes? Estes fertilizantes vêm de operações de mineração e extração de gás natural, estes materiais minerais são transportados para a indústria dos agrotóxicos, que também produzem medicamentos para nos curar das doenças criadas e que querem obter a propriedade intelectual das sementes”, explica o engenheiro. 

Para começar a utilizar este método, o mais importante é ter vontade. No entanto, para as dificuldades técnicas a ajuda de um especialista é essencial, “esta é a função da Revolução das Minhocas, estamos cá para ajudar”, salienta. 

Para ser possível fazer a compostagem de minhocas, ou vermicompostor, é necessário ter minhocas compostoras, mas também é necessário um vermicompostor, “que é uma caixa mágica simples de fazer, com materiais reutilizados, baldes, caixas de plástico ou esferovite, banheiras, arcas frigoríficas estragadas, entre outros. Depois de terem estes materiais, basta uma tampa com furos de ventilação e com um sistema que recolhe o líquido fertilizante, chamado ‘chorume de minhoca’”, refere. 

Para se fazer a compostagem natural, ou em “pilha”, basta amontoar os restos orgânicos e ir cobrindo com matéria seca, folhas secas, cartão sem tinta, palha, relva seca, evitando assim os cheiros e as moscas. 

Para ajudar as pessoas a fazer esta revolução de compostagem e espalhar este seu projeto, Pierre cria conteúdos para consciencializar o problema e partilha dicas. Tenta ajudar ao máximo as pessoas e também várias organizações a iniciar a compostagem, acabando por se tornar num hábito. Organiza também workshops de formação e fornece uma pequena ajuda que passa por um sistema de compostagem.

Atualmente, está a trabalhar com alguns municípios para implementar a compostagem comunitária e a ampliar o seu raio de ação. “É uma maneira de fazer compostagem no bairro, com um equipamento partilhado. É uma maneira eficiente e económica de tratar os resíduos orgânicos em zonas de prédios”, explana. 

“Uma vez que temos fertilizantes de qualidade, acho que vale a pena recuperar a ligação com a terra e tentar cultivar algumas plantas na janela, num terraço, ou no exterior.”

O fertilizante produzido pode ser partilhado com os diferentes usuários nos espaços ajardinados da cidade. Nos próximos meses, haverá muitos projetos de compostagem comunitária e, por iniciativa da União Europeia, “todos os municípios vão ter de valorizar a totalidade dos bio resíduos (resíduos orgânicos) até o fim de 2023”, lembra o engenheiro ambiental. Com uma estimativa de 1,5 milhões de toneladas de lixo que não poderá acabar em aterros, Pierre acredita que será um grande desafio para Portugal.

Começar a fazer compostagem é uma mudança, mas não é difícil de o fazer, podendo ser feita em qualquer lugar, em casa, no trabalho, na escola, em condomínios e em bairros. “Uma vez que temos fertilizantes de qualidade, acho que vale a pena recuperar a ligação com a terra e tentar cultivar algumas plantas na janela, num terraço, ou no exterior”, finaliza.

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