por | 8 Jul, 2019 | Opinião

Os políticos e a Educação em Portugal

Na obra Os Maias, de Eça de Queirós, os políticos daquele tempo aparecem designados como uma “coleção grotesca de bestas”, pela boca de João da Ega, uma personagem que, supostamente, representa na narrativa a voz e as opiniões do próprio autor. Ora, o que pretendo neste artigo é refletir sobre a atualidade dessa designação.

Visto da Europa, o atual Presidente dos Estados Unidos parece mesmo, pelo que diz e pelo que faz, uma figura perfeitamente enquadrável na “coleção” criada por Eça de Queirós. Apesar disso, tem vindo a apresentar resultados económicos extraordinários. O que significa, para o que nos interessa nesta reflexão, que os resultados económicos, só por si, não fazem com que determinada política seja aconselhável. Outro caso que nos interessa para esta reflexão, é o do Sr. Salvini, Vice-Primeiro Ministro e Ministro do Interior italiano, que está mais preocupado em perseguir e em prender os responsáveis pelo salvamento de refugiados no Mediterrâneo, do que em resolver ou, pelo menos, em ajudar a resolver a miséria, a fome e a guerra que levam esses refugiados a fugirem dos seus países para procurarem na Europa melhores condições de vida. O Sr. Salvini está mais preocupado com as leis e as regras da emigração do que com as vidas de centenas de pessoas que todos os dias tentam atravessar o Mediterrâneo em condições sub-humanas.

Estes dois exemplos internacionais servem para uma reflexão sobre o atual momento da Educação em Portugal. Os principais problemas que as nossas escolas públicas enfrentam neste momento, a desmotivação dos profissionais e a instabilidade organizativa, foram criados pelos políticos que nos governam, sobretudo por aqueles que mais mandam no país e na Educação: em primeiro lugar, o Ministro das Finanças, Mário Centeno, e em segundo lugar, o Primeiro Ministro, António Costa. Tal como Trump, o nosso Ministro das Finanças apresenta resultados económicos extraordinários. Tal como Salvini, não está nada preocupado com as pessoas. Isso fará dele um bom político? Para que ele receba a medalha de “CR7 das finanças europeias”, justifica-se salvar bancos, enquanto se corta nos salários dos trabalhadores, por exemplo dos professores? Para que ele seja um “menino bonito e bem comportado” para os grandes bancos e banqueiros nacionais e internacionais, que o hão de compensar, no futuro, com um lugar pago de forma milionária, justifica-se que esteja a subtrair aos professores e às suas famílias milhões de euros por ano? Justifica-se, como disse recentemente o Bastonário da Ordem dos Médicos, que “esteja um país inteiro a trabalhar para Mário Centeno”, só para que ele possa apresentar bons resultados económicos em Bruxelas? Justificam-se os excedentes orçamentais e as cativações impostas por Centeno a Costa e por Costa aos portugueses em nome de um défice de 0,2%, enquanto faltam profissionais e outros recursos na Educação e na Saúde? Pode criar-se o caos e a desmotivação dos profissionais nessas e noutras áreas em nome da “Igreja das Contas Certas e dos Últimos Dias” do Bispo Centeno? Não será isso a troca de uma política de base humanista por uma política de base economicista? Eu sou, em absoluto, a favor de contas públicas equilibradas. Mas isso não significa alinhar em fanatismos ou extremismos economicistas. Contas equilibradas podem e devem conseguir-se eliminando má despesa pública e não cortando em salários e em investimento público, como faz Mário Centeno, só porque é mais fácil.

Como é evidente, a culpa pelo que está a acontecer na Educação e, pelos vistos, na Saúde, não é toda de Mário Centeno. É também de António Costa, que já se esqueceu de que “há mais vida para além do défice”, como o PS dizia quando era oposição. Do Ministro da Educação já nem falo, porque é politicamente irrelevante e que, por subserviência acéfala ao Primeiro Ministro, nunca passou de um figurante neste governo. Mas voltemos a António Costa. O valor que dá às pessoas em contraponto com o valor que dá às contas certas ficou evidente na forma como (des)tratou os professores nos últimos tempos. O que o aproxima também de Trump e de Salvini. Apesar de ter uma retórica contrária àqueles dois e de os condenar na cena internacional, Costa segue internamente os mesmos princípios que eles. Note-se que Costa só ameaçou demitir-se para não pagar o legítimo salário aos professores, já que isso iria beliscar as “contas certas”. Quando em 2017 morreram imensas pessoas nos incêndios de junho e outubro, não ameaçou demitir-se. Desvalorizar as pessoas e sobrevalorizar os resultados económicos é o que aproxima, em definitivo, Costa de Trump e de Salvini. Pela minha parte, prefiro avaliar as pessoas pelo que fazem e não pelo que dizem. Costa e de Centeno poderão ter um problema eleitoral sério se as pessoas os começarem a avaliar por aquilo que eles realmente fazem e não por aquilo que eles dizem.

Desta “coleção”, aquele que mais me desiludiu foi António Costa, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque é dos quatro o que tinha mais obrigação de ter preocupações sociais e menos preocupações economicistas. Em segundo lugar, porque é dos quatro o que mais insiste num discurso enganador e dissimulado, em que tenta parecer humanista e de esquerda, quando está refém de um Ministro das Finanças economicamente liberal e de direita, e em que tenta parecer preocupado com as pessoas, quando está apenas preocupado com os seus próprios interesses, sejam eles quais forem em cada circunstância. Pelo menos Trump e Salvini são coerentes. Não têm um discurso humanista e de esquerda para ganhar eleições, para depois atuarem como se a “Igreja das Contas Certas e dos Últimos Dias” do Bispo Centeno fosse o único caminho para a salvação geral da Humanidade…

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