Uma nova centralidade para Silvares é a marca Fausto Oliveira enquanto autarca

Fausto Oliveira é presidente de junta há dez anos, tendo liderado durante um mandato o executivo da Junta de Silvares. A reorganização administrativa agregou Silvares, Pias, Nogueira e Alvarenga, união de freguesias que lidera há 6 anos, estando no segundo mandato.

Encontramos o autarca junto à igreja, numa área intervencionada, para conferir uma nova centralidade à freguesia, como nos explicou.
Nesta entrevista, conheça o seu percurso político, a sua avaliação da ação enquanto autarca e a forma como olha para o futuro de Silvares.

Como se deu a sua entrada na vida política?

Desde muito novo, tive sempre alguma inclinação para a política. A minha vida deu muitas voltas e, a convite do Leonel Viera, quando regressei a Lousada, ingressei na vida política, com a convicção de que, para mim, o mais importante era o sentido de serviço. Eu achava que podia, com as minhas qualidades, o meu potencial, com aquilo que eu sabia e formação, prestar um serviço às pessoas diferente e tinha uma ideia muito concreta para o território em termos de desenvolvimento, que eu poderia aplicar. É nesse sentido que eu estou na política, com o sentido de serviço público para, de certa maneira, deixar a minha marca na história para as futuras gerações.

A minha primeira candidatura foi em 1997. Foi terrível, porque eu tinha acabado de fazer um trabalho muito interessante a nível paroquial com os jovens, com as crianças, etc. E, perceber que, após todo esse trabalho, as pessoas não acreditaram em mim para presidente de junta, foi frustrante. Eu concorri com o engenheiro Couto dos Reis. Tínhamos estado na junta os dois, ele como presidente e eu como secretário. Nessa altura, não seria a altura para ser presidente de junta. Nessas coisas o povo é sábio.
A partir daquele momento, abandonei a política e dediquei-me à minha empresa, à minha família, ao meu filho, que era muito novo e entretanto anos depois nasce a minha filha.

Oito anos depois, mais uma vez a convite do Leonel Vieira, em 2009, fui “empurrado” para uma segunda fase na vida política que dura até hoje. Houve um grupo de pessoas da freguesia que apontaram o meu nome como sendo o mais capaz para liderar esse projeto.

Lembra-se desse momento?

Foi um momento interessante, curioso. Eu estava na sede do PSD e já tinha indicações de que iria ser apontado como candidato. Não estava muito virado para o ser, mas as pessoas votaram em mim. Recordo-me bem desse momento, pois nessa sala estava um senhor, que fazia parte da lista do PS, que foi a essa reunião também para me apoiar, o senhor Abílio Moreira. Depois, aconteceu uma situação caricata e de certa forma muito triste, no meu ponto de vista. Tive uma conversa com ele, onde lhe agradeci o apoio, mas disse-lhe que não contava com ele na minha equipa, pois ele tinha estado na equipa da junta anterior, que eu estava a combater criticando muito a sua inércia, pelo que não tinha lógica contar com ele. Logo a seguir, voltou a candidatar-se pela lista onde estava.

Como festejou essa vitória?

Foi uma vitória muito grande. Na altura, estavam seis deputados socialistas contra três do PSD. Foi o reverso total, pois ficamos nós com seis e eles com três. Uma vitória muito expressiva, muito suada, com uma equipa muito boa, com gente muito entusiasmada, com qualidade para me apoiar e com um projeto novo. Acho que não defraudei as pessoas.

Nessa altura, como era Silvares?

Era um “marasmo”. Silvares estava parada no tempo, tinha um presidente que era uma excelente pessoa, meu amigo pessoal há muitos anos, Couto dos Reis, mas que tinha uma visão de presidente de Junta basicamente para passar atestados. Ele não tinha feito uma obra significativa… Havia materiais que ele nunca pediu na câmara… Não tinha de facto uma visão estratégica de desenvolvimento para o concelho.

Era preciso puxar uma parte da freguesia que estava muito abandonada. A freguesia estava dividida em duas partes: uma muito urbana, onde a câmara faz uma intervenção direta, pois é o centro urbano da vila, e a parte de Mós, da Igreja, que estava completamente abandonada. Houve logo no primeiro mandato um conjunto de intervenções. Quase sem apoios nenhuns da Câmara, conseguimos terminar a Casa Mortuária. Foram quatro anos muito interessantes, muito intensos. Fora isso, houve também o apoio da Câmara a nível da intervenção que foi feita na Rua da Cancela Nova que já estava programada, na realização da atual rua das Palmeiras e outras obras diversas como o inicio das obras na Rua de Esplendém, etc.

Depois surgiu a agregação da freguesia. Foi prejudicial esta agregação para Silvares?

De alguma forma, sim. Silvares era uma freguesia grande e tinha um orçamento significativo. Além disso, havia uma dedicação total a uma freguesia em concreto. É como termos numa família cinco ou seis filhos ou apenas um. É diferente a forma como as pessoas entendem o facto de presidirmos a uma só ou várias freguesias. Isto de uma forma “afetiva”. Mas, no global, em termos de investimentos, se formos fazer a contabilidade geral, penso que não foi prejudicial.

Estou muito satisfeito com esta agregação. Faço um balanço bastante positivo. Financeiramente, tem um orçamento muito mais alargado, permitindo um investimento mais expressivo, e permite criar mais serviços às populações, pois temos mais disponibilidade para as pessoas.

Como avalia estes anos à frente do executivo da Junta de Freguesia?

O meu primeiro mandato foi de dificuldades, pois apanhou aqueles anos de crise internacional que se refletiu também na diminuição das transferências da Câmara. Tivemos cortes significativos de investimentos e de materiais e menos dinheiro. Depois tivemos um diferendo com Câmara Municipal em relação ao apoio para a Casa Mortuária e acabamos por fazer uma “engenharia financeira”, que nos permitiu vender uma parte significativa de terrenos do cemitério para jazigos. Assim, construímos a Casa Mortuária sem o apoio da Câmara. Foram anos muito interessantes em que, de certa maneira, tivemos uma estrelinha da sorte e certas coisas se conjugaram para que tivessem sido feitos projetos interessantes nesta freguesia.

Como caracteriza o relacionamento com a Câmara?

Divido-o em duas vertentes: institucional, muito positivo, respeito e sou respeitado enquanto autarca. Há apoios que eu sinto que não são o que eu gostava e o que a freguesia precisa e, às vezes, vejo que outros têm esse apoio, por questões políticas ou outras que desconheço, mas no global não me posso queixar. Outra vertente da relação é política. Sou PSD, nunca o escondi, tenho diferenças políticas e faço o combate político na Assembleia Municipal. Defendo a minha perspetiva política como o presidente da Câmara defende a do PS.

Defendeu uma identidade da freguesia no que diz respeito à sua designação. Como está esse processo?

Está parado. Nós podemos ter vontade, pois temos a maioria na Assembleia de Freguesia, mas o processo esbarra na Câmara Municipal e Assembleia Municipal. Eu, de certa forma também compreendo os argumentos que invocaram e que tem a ver com o facto de a designação “freguesia de Lousada” excluir uma das freguesias centrais, que é Cristelos. Esta nova denominação traria mais facilidades às pessoas e um novo dinamismo e afirmação, no meu ponto de vista.

Independentemente disso, procuramos criar uma unidade, olhando para as freguesias como um todo, com uma só identidade. Tem sido esse o meu esforço. Refiro-me a iniciativas culturais, agregadoras, que promovam a unidade, quer os passeios, que são conjuntos, quer um conjunto de atividades desenvolvidas, sem dispensar a identidade de cada um dessas freguesias. Nós hoje vivemos num mundo mais globalizado. O bairrismo ligado ao território cada vez tem menos significado. O mais importante são os grupos de pessoas, os contactos, as famílias, as ligações e os polos onde as pessoas vivem as suas vidas.

Qual é a marca de Fausto Oliveira até ao momento em Silvares?

Há duas marcas. Uma é a continuidade do primeiro projeto que idealizei para esta freguesia, que foi criar uma nova centralidade. Paulatinamente, acho que estou a conseguir. A centralidade tem que se fazer à volta de uma espaço que congregue. E esse espaço está ligado à igreja paroquial e sua envolvência. No passado, estavam separadas estas duas realidades e era importante aproximá-las. E uma das formas de o conseguir é com desenvolvimento, investindo mais e puxando para cima a área do território mais esquecida. De salientar os investimentos que temos feito, quer ao nível da Casa Mortuária, que era uma necessidade importante, quer ao nível da recuperação e requalificação impressionante que fizemos no adro da igreja e ainda os arranjos no cemitério. Importantes são também as ligações. Por isso o investimento no alargamento e requalificação da Rua da Igreja e Rua de Lagares que é o segundo eixo importante que liga a Estrada Nacional 207 à Rua da Cancela Nova, passando pela Igreja. Há um conjunto de investimentos necessários no sentido de requalificar e colocar aquele território ao nível da vila, com a melhoria do piso e construção de passeios. Só assim é que é possível ter uma nova centralidade.

Futuramente, com o projeto da Santa Casa da Misericórdia, um grande projeto social, que será na Quinta da Vinha, estou convencido de que poderá ser criada uma avenida entre a Igreja até à rotunda do Hospital, aproximando ainda mais do centro a parte da freguesia onde está a igreja.

Como caracteriza agora a freguesia?

A freguesia de Silvares é mais afirmativa e mais desenvolvida. De facto, tem outra cara e dimensão. As próprias pessoas sentem um orgulho muito maior por serem de Silvares e olham para o seu território com muito mais entusiasmo, pois há um maior investimento que se traduz em obras que a todos orgulham e prestam um melhor serviço.

O que falta realizar?

Estamos à espera que se conclua o processo com a Misericórdia para alargamento da entrada da rua da Igreja, desde a Nacional 207 até à igreja, também com a requalificação do espaço exterior ao adro da igreja, pavimentação de betuminoso até à Rua de Lagares e logo que seja possível a construção de passeios até à Rua da Cancela Nova, reforçando desta forma a mobilidade entre estas duas áreas da freguesia. Há também uma ligação projetada entre a recém construída rotunda do Calvário e a autoestrada que passa à esquerda da serração que depende de uma autorização do IP para poder avançar. Com esta ligação criamos um acesso mais rápido da Igreja à autoestrada, potenciando o crescimento nesta área da freguesia. Em termos de infraestruturas, este é um dos aspetos essenciais.

Depois há uma outra dimensão que eu gostaria que Silvares tivesse, que sei ser um projeto em desenvolvimento por parte da paróquia: um centro pastoral, que centralize aqui nesta zona toda a atividade paroquial e potenciando outras iniciativas, quem sabe, de âmbito associativo que a freguesia precisa, contribuindo para a concretização completa dessa centralidade.

No global, neste mandato, a maior parte das coisas ficarão concluídas, podendo ficar questões menores por resolver.

Caracterize Silvares em termos de trabalho associativo.

Um dos grandes problemas de Silvares, em termos de território específico, é alguma falta de dinâmica associativa. Silvares não é uma freguesia rica em associativismo, já que não é correto considerar associações que são de âmbito concelhio e que não têm uma ação centrada na vida e afirmação da freguesia.

Quando cheguei, criei a associação Silvaresviva que suporta o Grupo de Dança Cool Dance, que foi impulsionador de várias iniciativas. Relembro sobretudo os arraiais junto à Igreja de Silvares, onde chegou a ter a sua sede. E muito me agrada que a paróquia hoje realize um arraial, com certeza em moldes diferentes, mas que é um espaço unificador da freguesia e da paróquia. Nós, a nível associativo, não devemos ser proprietários de nada. A Junta deve, contudo, apoiar ou mesmo promover novas iniciativas, como é o caso da Festa dos Vizinhos que é já um grande sucesso e por ser um espaço congregador e também de apoio às associações.

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