por | 21 Jan, 2020 | Canto do saber, Opinião

Ditadura da transparência

Jeremy Bentham , em 1785 concebe um dispositivo de vigilância em que um vigilante consegue observar todos os prisioneiros , sem que estes percebam que estão a ser vigiados. Os reclusos são isolados uns dos outros, por motivos disciplinares, o pan-óptico (disciplinar).

Hoje temos o pan-óptico digital,ferramenta de exposição e de comunicação intensa, a transparência aparece quase como uma necessidade, um imperativo.

A exigência é a de tudo virar para o exterior , transformando esse tudo em informação que serve essencialmente para dominação. A vigilância é permanente, não é necessário sequer o vigilante do sistema de Bentham, todos se vigiam mutuamente, conducente a um nivelamento do que é aceitável, num igualar que subjuga o indivíduo.

A transparência possui desde logo duas questões , uma em que só interessa se se observa nela o que procuramos ( mesmo inconscientemente), esse algo que se destaca do cenário , por isso as fotos em modo de retrato que nadificam o cenário; outra em que apesar de muitos até já falarem em comunicação tridimensional, a verdade é que só é transmitida o exterior , nunca o interior. Interior , em que a alteridade coloca obstáculos à comunicação contínua.

Numa época de relações líquidas o indivíduo é consumidor e produto de consumo , a liberdade cívica cede perante a passividade do consumo. O consumidor como votante , não tem interesse algum na política, limita-se às queixas e comentários próprios de apreciação a produtos ou serviços. Deste modo os políticos e partidos seguem a mesma linha, basta olhar para as redes sociais, fornecer clientes, limitando as suas queixas, trabalhando para o “branding”.

A transparência exigida pela sociedade aos políticos, serve apenas para os expor , os desmascarar, transformá-los em produto de escândalo e nunca para ter conhecimento dos processos políticos, a tal foto em modo de retrato em que o cenário não interessa.

É todo um processo de desnudamento até pornográfico, que nos nivela pela exposição, que tem como objectivo aperfeiçoar o desempenho, em que nos empenhamos, sem tempo para a contemplação da vida tão necessária à reflexão e concentração que sempre levou o Homem a grandes realizações distinguindo-o do animal irracional , esse sim que tem de ceder à multitarefa como sentido de sobrevivência.

Ao cedermos a este nivelamento, a esta transparência auto consentida, a esta vigilância constante , à hiperatividade , em que o “tudo é possível” se torna quase uma religião, numa angústia permanente pelo fracasso, aproximamo-nos mais do animal ou quanto muito do homem primitivo.

Há que ter tempo e retomar o direito de fazer algo para o qual não haja um fim, um propósito, reganhar a contemplação da vida, reconciliarmo-nos com o nosso interior que nos distingue a todos como indivíduos e seres humanos que somos.

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Há animais que quase toda a gente gosta à primeira vista. A joaninha é um deles. Pequena, redonda,...

Sousela é campeão de futebol distrital do INATEL

A Colectividade Recreativa e de Ação Cultural de Sousela (CRACS) venceu a Final Four da fase...

Lousadense Marco Silva é campeão pelo FC Porto

O jovem futebolista lousadense Marco Silva conquistou hoje o título de Campeão Nacional de...

Foi hoje inaugurado, na Escola Secundária de Paços de Ferreira, um projeto inovador e sustentável:...

Lousadense Beatriz Ferreira mobiliza comunidade para apoiar escolas em Cabo Verde

A solidariedade volta a ganhar voz em Lousada pelas mãos de Beatriz Ferreira, jovem lousadense que...

Na última sessão da Assembleia Municipal de Lousada, perguntei ao executivo que estratégia tem...

“Contas certas não significam contas justas nem desenvolvimento real”

Na mais recente Nota de Imprensa do PSD Lousada, o partido "manifesta a sua profunda preocupação e...

Crédito Agrícola perde em tribunal

O Supremo Tribunal condenou a Caixa Agrícola a pagar e reintegrar Susana Faria, mantendo a decisão...

AGRADECIMENTO

COM ETERNA GRATIDÃO, eu, Maria Irene Monteiro, venho, através d’ O Louzadense, agradecer o imenso...

Montalegre voltou a ser palco de mais uma jornada intensa do Campeonato Nacional de Rallycross...

Siga-nos nas redes sociais