por | 27 Mar, 2020 | Canto do saber, Opinião

CORONAVÍRUS , a RESSURREIÇÃO DE DEUS ?

Esta é a primeira guerra que a Europa trava após a sua secularização generalizada, que se deu após as duas guerras mundiais .

A crença de que a Ciência tudo pode, tudo resolve, esbate-se. Basicamente estamos a travar a guerra da mesma forma que na Idade Média.

A Sociedade da Eficiência resplandece em toda a sua amplitude, ninguém quer ficar quieto, todos querem fazer tudo, que é muitas vezes nada. O frenesim é imenso, a ansiedade cresce, os políticos para lhe fazer face, entram numa espiral mediática tremenda, é números de apoio aqui, é instalações ali, é máscaras acolá, é avisos antes e adiante, é…. Um grande trabalho !

O Estado readquire a imagem de essencial, até os neo-liberais  e outros que tais, o convocam veementemente ( ironia das ironias).

A comunicação social deleita-se com curvas e com orgasmos de pseudo-previsões , de pseudo-respostas, de informação pseudo-pormenorizada- a Sociedade da transparência exige-o… Mas percebe-se que o conhecimento está ausente, a matemática , a ciência em geral não responde , precisa de dados – a Sociedade dos Dados – numa deja vu do “prognósticos só depois do jogo “ – o Big Data afinal é apenas uma ferramenta de dominação e não de soluções, é informação, não é conhecimento .

Os particulares desdobram-se em ações , eles cantam às varandas, eles entregam compras , eles … Apelam ao alimento da alma !

Os famosos, os bancos , as fundações mobilizam as suas máquinas de propaganda, para afirmar a sua solidariedade, eles têm nome, os outros que estão na linha da frente a combater , os outros que morrem, os outros que estão infectados não têm nome, são um pormenor estatístico.

Os que não têm nome, que vão sobreviver ,vão continuar a ser um pormenor estatístico na crise que já aí está,na falta de solidariedade europeia que se avizinha.

Contudo, o pormenor estatístico, de facto, são seres humanos, têm nome , a maior parte terá familia e angustiam, adoecem e … morrem. A banalidade dos números, torna-nos indiferentes. Parece , muitas vezes, estarmos a assistir a um qualquer jogo onde se vai fazendo  a contagem dos itens, são mais 600 mortos em Itália, 500 em Espanha , 9 em Portugal …

Mas a banalidade não termina aqui, há a dos velhos , a dos cancerígenos, dos que têm problemas.É o vírus eficiente, veio fazer o que o homem não tem coragem para fazer, aliviar a sociedade dos seus espúrios, pouco se ralando com  o direito de cada um dispor da sua vida ,como pouco antes disto,  muitos reivindicavam. Direito este que ganha um sublinhado mais forte na sua limitação de validade, na medida em que só a possui enquanto não coloca em causa o direito à vida do outro.

Aqui sim, encontra-se uma grande maioria que age de acordo com o preceito moral, fazer o que é adequado sem ser preciso ser vigiado ou coagido – a humanidade retorna ao senso de comunidade !

Todo o mundo parece redescobrir o senso de comunidade, que as comunidades possuem os tempos para se abrirem,  para se fecharem e protegerem.

Os tempos de confinamento, de distanciamento social, são muito difíceis, por um lado, porque a tendência para ceder perante o tédio é enorme , por outro, porque por muito calor que haja na presença, no contacto pela tecnologia, nada substitui o calor de um abraço, de um beijo, algo que, com a propalada morte de Deus, a secularização ao limite, permitiu que humanidade de alguma forma fosse alimentando o seu espírito e substituísse Deus pela Ciência na ânsia de respostas para aplacar a angústia …

Mas talvez estejamos e vamos continuar , nos tempos mais próximos,  a aprender, que se há coisa para a qual a Ciência não tem resposta é para angústia.

Reivindiquemos, sem dar quartel,  um melhor uso da ciência para prevenir situações como a que estamos a passar, mas não esqueçamos que todos precisamos de alimento para o espírito, de acreditar em algo cujo fim último será o de estabilizar o sentido da vida para cada um .

Deus talvez vá ressuscitar, o Deus de cada um, que possa estar ou não, ligado a uma religião, o alimento no sentido divino, que possa permitir a ausência de qualquer tipo de medo e a solidariedade que tão necessária já é ,mas que ainda o vai ser mais. O Deus que recentra a Humanidade no indivíduo a partir do retorno a uma contemplação da vida que foi sempre inimiga da banalidade. 

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