Maria de Jesus Ferreira Pinto – Boim

Hoje em dia já começam a surgir muitas mulheres na vida autárquica. Mas nos tempos difíceis da transição da “outra senhora” (a Ditadura) a “nova senhora” (a Liberdade) em que imperava o preconceito e o machismo, encontrar uma mulher na política ou na vida autárquica era como encontrar uma agulha num palheiro. Em Lousada uma mulher ousou avançar para a liderança de uma lista às eleições e chefiar uma junta de freguesia, em Boim: Maria de Jesus Ferreira Pinto.

Ficou na história local como a primeira mulher autarca do concelho de Lousada, mas não se ficou por essa notabilidade que a alcandorou a um estatuto que ainda hoje passa despercebido a muitos cânones da história local.

Maria de Jesus foi a mais nova de três irmãs. A do meio faleceu num acidente. O drama e a tragédia estiveram algumas vezes presentes naquela família, mas nem sempre com desfecho infeliz, como foi o caso da enfermidade que surgiu aos 15 anos de Maria de Jesus. Sofreu bastante mas sobreviveu a uma febre intestinal que a atacou fortemente ao ponto de a deixar temporariamente sem cabelo. Mas recuperou embora ficasse com mazelas de alguma ordem. A outra irmã era mãe da dona Gina do mini mercado do Bairro.

Foi catequista depois de frequentar a cruzada eucarística e ao longo da vida segurou se na Fé para ultrapassar os obstáculos que se lhe depararam, nomeadamente a perda de vários entes queridos que de entre os vivos foram partindo.

Maria de Jesus frequentou o liceu Eça de Queirós, e orgulhava se de nunca ter reprovado apesar de algumas ausências prolongadas nas aulas por problemas de saúde decorrentes da referida maleita que a assolou aos 15 anos.

Começou a namorar cedo para aquela época. Era precoce em tudo, na ansia que a animava para viver, saber e fazer. Aos 14 anos teve o que se pode chamar de namorico de adolescência. Pouco depois apaixonou se na festa da Senhora Aparecida, num amor à primeira vista, por aquele que seria o pai dos seus seis filhos, Manuel Coelho.

Casou aos 17 anos, tendo interrompido os estudos para esse laço dar. Mas as professoras insistiam para que regressasse. Nessa idade teve nova fase em que ficou muito doente e voltou para casa dos pais. Depois do recobro retomou a vida com ganas de quem quer mesmo vida, dedicando-se à primeira gravidez, aos 18 anos, da qual nasceu a primeira filha, Virgínia da Glória.

É de notar e enaltecer que também aos 18 anos começou a lecionar no ensino primário. Um ano depois teve o segundo filho, José Manuel, que ela tratava por Zequinha. Aliás, tratava carinhosamente todos os filhos pelo diminutivo do nome de cada um. A seguir veio o Manuel João e no ano seguinte nasceu a Maria Natália. Entretanto foi a vez da Teresinha, que viria a falecer aos nove anos de idade, naquele que foi provavelmente o prime iro grande abalo emocional que Maria de Jesus teve na sua vida.

Haveria ainda de nascer o António Casimiro e por último o Paulo César.

A família foi aumentando e a vida ficando mais difícil, o que fez com que o marido, Manuel Coelho, emigrasse para França. Regressou definitivamente quatro anos depois, indo trabalhar para Freamunde onde se manteve como exímio operário na indústria local.

Nesta altura Maria de Jesus foi convidada pelas principais figuras locais para concorrer às primeiras eleições livres depois da ditadura que foi derrubada pela Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1975.

O Partido Social Democrata, cuja lista ela encabeçava, ganhou as eleições em Boim, sendo eleita presidente da Junta de Freguesia. Numa época ainda marcada por fortes preconceitos e acentuados valores tradicionalistas, não era fácil uma mulher estar na política e muito menos na liderança de uma Junta. Além desses obstáculos Maria de Jesus tinha uma família grande e era professora. Com base em tudo isso acabou por resignar ao mandato.

Foi professora durante 40 anos e quando já estava prestes a reforma-se mais uma perda ocorreu na sua vida, a do seu querido esposo, Manuel Coelho, que faleceu com 75 anos, em 2003. Estiveram casados 50 anos e Maria de Jesus dedicou lhe versos de amor e de saudade a propósito da sua morte. Foi o último falecimento que a afligiu, depois da mãe, da irmã e da filha Teresinha. Mas manteve sempre a fé e a força na superação da amargura pelas perdas sentidas e dos reveses da vida que a assolaram.

Uma viagem, com um filho e a nora, a França, mais concretamente a Lourdes para visitar o santuário local foi um dos eventos mais importantes da sua vida. Era uma pessoa muito crente e religiosa. Teve que ser hospitalizada em França porque se sentiu mal por causa de problemas respiratórios (asma crónica) e pulmonares que desde nova a afligiam.

Teve nove netos que lhe davam muitas alegrias e ainda chegou a ser professora de uma neta que viria a tirar o curso de Economia. O sucesso profissional dos netos era um dos seus maiores orgulhos.

Maria de Jesus Ferreira Pinto era dotada de uma imensa solidariedade para com o próximo sobretudo os mais necessitados, Sempre que se afigurava possível fazer serviço cívico lá ia ela. Ficaram famosas as suas andanças pela freguesia distribuindo injeções e vacinas nas campanhas estatais de erradicação de problemas de saúde.

O seu trabalho de professora era uma autêntica profissão de fé e dedicava se ao ensino com empenho absoluto. Orgulhava se de estar na base educativa e formativa dos seus alunos para quem tinha especial dedicação no que toca às vocações e aptidões de cada um, orientando os na carreira a seguir.

Por onde passou deixou marcas e memórias nos alunos e nas pessoas em geral. Começou por lecionar em Romariz (Meinedo), com 18 anos de idade. Depois foi colocada na escola de Abragão (Penafiel) passando a seguir a dar aulas nas escolas de Macieira, Aveleda, Nespereira e na escola das Pocinhas, na vila de Lousada.

A meu ver esta é uma das pessoas mais notáveis que os compêndios e as referências da história moderna de Lousada amiúde se esquecem. Mas não esta secção dos Louzadenses com Alma.

José Carlos Carvalheiras

1 Comment

  1. Rui Silva

    Só uma anotação, a Professora Maria de Jesus também deu aulas em Nespereira a um neto César Nunes. Boa Professora, mas como ser humano não há palavras sempre amiga e carinhosa com o próximo, além de me ter dado uma reguadas 🤣. Deixou muitas Saudades.

    Reply

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