Aparecidenses vivem período de tristeza, com fé em dias melhores

Este verão no Torno ficará marcado pela diferença. A pandemia dificultou os negócios e impede as festividades, como acontece noutras localidades, pelo que a Senhora Aparecida não será honrada com os tradicionais rituais, especialmente a majestosa procissão, que este ano não se realizará.

Os aparecidenses foram ainda surpreendidos pela saída do Padre José Augusto, depois de dezanove anos de sacerdócio na paróquia de S. Fins do Torno.

O Louzadense falou com alguns aparecidenses para conhecer o que lhes vai na alma.

A saída do Padre José Augusto é “uma perda para nós” – André Faria
André Faria, da empresa ATEIFAR e presidente da comissão de festas, diz que na venda de materiais de construção, o seu ramo de negócio, não houve grande impacto da pandemia, mas não põe de parte a hipótese de, no futuro, sentir dificuldades. “Adaptamos o estabelecimento de acordo com as normas. No atendimento, há mais alterações, pois não pode haver ajuntamentos, o que faz com que se atenda uma pessoa de cada vez, tornando o serviço mais lento”, explica.

Já o trabalho desenvolvido pela comissão de festas, que vem do ano passado, fica adiado para 2021. “A festa do ano passado correu bem. As noitadas tiveram mais pessoas, os artistas também ajudaram, houve um crescimento em termos de visitantes”, avalia. A festa deste ano já estava bastante programada, mas o cancelamento das atividades não teve grande impacto financeiro: “A proibição foi para todos e, por isso, todas as entidades foram flexíveis”, explica. A intenção é manter o programa no próximo ano, se possível. André não esconde a tristeza dos aparecidenses, mas não há forma de contornar a situação.

A saída do padre José Augusto veio acentuar ainda mais essa tristeza da população, pela afetividade que nutria pelo pároco. “Teve de seguir a vida, cumprir a sua missão, mas é uma perda para nós”, lamenta. “É um padre que cativou os jovens. A convivência e a sua simplicidade chamaram muita gente para a religião. O ser um devoto da Senhora Aparecida mexeu tudo o resto, pois dinamizou muito a vila”, justifica.

▲ António Faria com o seu filho André Faria

“O dia da festa vai ser um dia triste” – António Faria

António Faria foi o fundador do Rancho Folclórico da Aparecida. Também ele vê com tristeza a não realização das atividades festivas, nomeadamente o tradicional festival do rancho: “Nós temos um festival de folclore que se realiza há cerca de 40 anos e nunca interrompemos por motivo nenhum”. Por isso, é com tristeza que veem o dia chegar vazio, sem a festa do costume. “É o apogeu do rancho de folclore. Nós trabalhamos quase todo o ano para ele”, justifica.

Relativamente à Romaria da Senhora Aparecida, admite que nunca lhe passou pela cabeça que não se faria. “Não me lembro de nenhum ano em que isso tivesse acontecido. Podia ser uma festa maior ou mais pequena, mas a procissão saía sempre, pois a Senhora Aparecida é muito venerada”, diz. A interrupção de uma tradição de quase duzentos anos provoca naturalmente mágoa. Ainda assim, a espiritualidade não será esquecida e alguns rituais serão cumpridos: “O dia da festa vai ser um dia triste, mas não deixará de haver o dia feriado como sempre. Obviamente haverá a missa”, refere.

Sobre o Padre José Augusto, considera que marcou a Aparecida. “Trabalhou muito por Aparecida, conseguiu agrupar a freguesia, mas também fez obra, como o santuário, com um estatuto que não tinha até aí”, afirma. Por isso, diz que foi um “choque” a notícia da sua saída, mas aceita a decisão do Bispo: “A nossa vida é feita de desafios e de compromissos e, obviamente, os padres têm compromissos perante os seus superiores. Nós gostaríamos que ele continuasse, mas há coisas às quais não se pode dizer que não”, sustenta.

“O Padre José Augusto vivia mais do que ninguém estas festas” – Marlene Magalhães

Marlene Magalhães é florista e proprietária da FlorDeco desde 2015. Cresceu na Aparecida, onde trabalha há muitos anos. O negócio corria bem, até à pandemia, que levou a uma queda abrupta das vendas, devido à ausência de festas, como casamentos, batizados e comunhões. A ausência de clientes obrigou-a a fechar portas durante dois meses. Agora é a hora de reerguer o negócio.

Marlene Magalhães

Com as regras sanitárias e o necessário distanciamento, o negócio vai começando a correr melhor, embora com uma redução nas vendas na ordem dos 50%. Quanto às regras, alguns clientes são mais cumpridores, outros menos.

Marlene sente-se triste pela não realização das festas. “Estamos habituados a ter as ruas cheias de gente e este ano elas vão estar vazias”, diz.
Sobre a saída do Padre, “este ano é para pormos um risco em cima”, diz, acrescentando que 2020 foi mau em vários sentidos. “Não há palavras para descrever tudo o que fez até agora. Fez um trabalho excelente. Ele vivia mais do que ninguém estas festas, com espírito”, descreve.

Ele olha nos olhos e já nos entende” – Sofia Mesquita, sobre o Padre José Augusto

Sofia Mesquita é uma aparecidense nascida e criada no Torno. Apesar da pandemia, considera que a fé na Senhora Aparecida alegrará o seu coração e permitir-lhe-á superar a tristeza que ver as ruas vazias numa altura em que deveriam estar cheias de pessoas.

A adensar essa tristeza, está a saída do padre da freguesia, que deixará saudades. “Lembro-me de quando ele chegou cá. Eu estava a grávida da minha filha mais velha, a Raquel. Foi há 18 anos! As minhas filhas fazem parte dos acólitos e dos cantores. É uma alegria contagiante. O senhor padre é um amigo, um conselheiro, uma excelente pessoa, não há melhor”, diz.
Sofia considera que o padre soube cativar os jovens e menos jovens com a sua forma de estar e de agir e que deixou obra importante na freguesia. Os paroquianos tinham com ele uma “ligação muito forte” e viam nele um apoio importante: “Ele olha nos olhos e já nos entende. É um pastor que olha para o seu rebanho. Ele é um ombro amigo e está sempre pronto para ajudar em tudo”.

▲ Sofia Mesquita

“Vamos receber o outro padre bem, mas este vai fazer-nos falta” – Carla Sampaio

Carla Sampaio é cabeleireira e sempre trabalhou na Aparecida, agora por conta própria. Felizmente o negócio tem corrido bem, embora a paragem de um mês e meio, sem rendimento, tenha sido difícil. Mas o negócio tem regressado à normalidade, obviamente com a adaptação às novas regras sanitárias, o que dificulta o trabalho. “No início, a adaptação às novas regras não foi fácil. Tínhamos de andar de máscara, com as batas de manga comprida, o que foi complicado, até para os clientes”, conta.
A angústia da ausência da Romaria é compensada pela esperança de que, em 2021, a mesma se realize com redobrada alegria e sem pandemia.
Já do padre José Augusto ficarão as saudades e as boas memórias: “Foi o padre que me fez a Comunhão Solene no primeiro ano em que esteve cá e tenho muita pena que vá embora. Fez um trabalho muito positivo. Guardo no meu coração o meu casamento, que ele fez, e o batizado dos meus filhos. Vamos receber o outro padre bem, mas este vai fazer-nos falta e será complicada a saída”, conclui.

▲ Carla Sampaio

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