Nasceu em Nogueira, fez o primeiro ciclo em Lousada, mas cedo começou o percurso fora do concelho. Joana Ribeiro é professora e, atualmente, leciona em Angola, pelo 4.º ano letivo.
Angola nunca teve nos seus planos e a aventura acaba por acontecer através de um convite inesperado. “Estava a trabalhar, na altura, e Angola seria um dos últimos sítios em que iria trabalhar ou iria concorrer”, conta Joana Ribeiro. Depois de considerar, acaba por partir para a aventura, juntamente com uma amiga.
O que seria apenas um ano letivo, tornou-se muito mais: hoje está a terminar o 4.º ano letivo. Embora já tivesse viajado por alguns lugares da Europa, noutros programas, África foi a primeira aventura. “Fui ficando por aqui. Há dois anos, fiquei colocada em Timor e Moçambique, mas acabei por não ir por ter uma ligação forte com a minha turma”, explica a professora que, atualmente, pretende terminar o ciclo com a turma que leciona.
Pelos laços que se vão criando, a vontade de ficar supera a de voltar a casa. “Acabamos por criar laços, por criar empatia, e fui ficando. Se calhar, é pior a decisão de ir embora do que a de vir. Mas a ver vamos”, afirma.
“Quando vimos, vimos à aventura, quando saímos, fica sempre aquele bichinho”, garante, explicando que, na sua profissão, é difícil voltar a casa. “Os professores que põem um pé fora, dificilmente recuam ou querem voltar, porque já sabemos o que Portugal nos espera a nível profissional, as oportunidades são pouquíssimas. Apesar de atravessarmos uma fase em que são precisos professores, até agora nunca foi preciso, por isso é viver um ano letivo de cada vez”.
“Acabamos por criar laços, por criar empatia, e fui ficando. Se calhar, é pior a decisão de ir embora do que a de vir.”
Por enquanto, não sabe se irá voltar em breve para Portugal e revela que espera até abril/maio para decidir. “Em Portugal, a insegurança é maior, porque chegamos a julho/agosto e nunca sabemos se vamos ter trabalho no ano seguinte, aqui acabamos sempre por ter trabalho”, conta.
Por esse motivo, relativamente ao próximo ano letivo “não consigo dizer, porque é viver um ano de cada vez, esperar o que vem aí. Ir para Lousada claro que sim, claro que é minha pretensão futura, mas neste momento ainda não sei. Não sei o que Portugal me poderá oferecer”, revela a professora.
Professora por paixão
A opção de ser professora é justificada pelo gosto que tem por crianças e pelo ensino. Embora as dúvidas que se possam atravessar no caminho, está confiante que esta é uma escolha acertada e, acima de tudo, apaixonada. “Há momentos que, se calhar, eu até penso se será mesmo isto que quero para mim. É uma vida desgastante, bonita, mas desgastante. É cansativa, ficamos sem horários para nós, passamos muito tempo embrulhados no trabalho, porque trazemos muito trabalho para casa”, profere.
Mas, ainda assim, garante: “ou se está nesta profissão porque se gosta de ensinar e porque se gosta de crianças, ou então não se está. Porque quem não gosta de ser professor, que não o faça, porque estamos a estragar a vida das outras pessoas”.
Começou por trabalhar cerca de 10 anos no Marco de Canaveses, onde lecionava com horário reduzido quando surgiu a oportunidade de ir para Angola. Em Lousada, lecionou inglês durante dois anos letivos. Atualmente, não sabe o que esperar e qual será o próximo passo.
“Ou se está nesta profissão porque se gosta de ensinar e porque se gosta de crianças, ou então não se está.”
Neste momento, leciona num colégio privado português e nota algumas diferenças entre o ensino em Portugal e Angola. “É um bocadinho relativo e a minha opinião pessoal, mas estamos num ponto em que os pais querem ser mais professores que os próprios professores, muitas vezes acabam por não aceitar muito bem aquilo que o professor diz. Não é que eu tivesse um caso difícil ou uma questão particular, que nunca aconteceu”, explica.
As dificuldades, conta Joana, não foram “quase nenhuma”, explicando que “são pais instruídos, com um nível cultural grande e que, acima de tudo, ainda privilegiam o papel do professor. Se o professor diz que é preciso ir por aquele caminho, os pais certamente concordam e dizem mesmo que é preciso ir por aquele caminho. Se há necessidade de aplicar uma reprimenda, alguma coisa, os pais também concordam”.
A professora destaca, ainda, as diferenças que foi notando na aproximação dos encarregados de educação: “aqui nota-se a diferença que os encarregados de educação estão muito próximos da vida académica dos filhos e são pessoas muito preocupadas com os professores”.
A adaptação à nova cidade não foi difícil, tendo mesmo acabado por encontrar pessoas conhecidas, inclusive de Lousada, sublinhando que “é fácil” chegar e conhecer diversas pessoas do Vale do Sousa e da zona Norte. No entanto, Joana Ribeiro recorda que é necessário saber gerir alguns fatores a nível emocional.
“Estou a falar concretamente em casos de meninos de rua, pessoas com mais necessidades, aí é uma gestão emocional mais forte. Não significa que não haja nos outros países, que existe também, mas aqui se calhar existe uma proporção maior. Com o tempo vamos ficando blindados, ajudo da forma que consigo, da forma que posso”, menciona, lembrando que não ficou “chocada” assim que chegou ao país.
Por enquanto, é em Angola que se sente bem e que pretende ficar até terminar o ciclo. “Estou aqui porque gosto, porque gosto de Angola, porque gosto do clima, porque gosto das pessoas, porque gosto da profissão que tenho e chegar aqui e sentir um impacto não o senti. Gostei muito, passado estes anos continuo a gostar muito de Angola, não sei se um dia, ou quando um dia for embora, se depois voltarei a regressar. É mesmo um dia e um ano de cada vez”.
De Portugal, recorda o sentimento “tipicamente português”, as saudades da família, principalmente a mais direta, os pais e irmã. “Saudades de estar com os amigos, mas ultrapassa-se bem, falamos todos os dias, estamos sempre em contacto e tudo é ultrapassado com mais facilidade, claro que este ano de pandemia acabou ser mais difícil a nível de viagens para não estar sempre a viajar para Portugal, até porque as coisas aí não estão fáceis neste momento”.
O amor pela vila de Lousada
Tendo em conta a situação pandémica, não visitou Lousada na época natalícia e conta que nem foi difícil ultrapassar isso. “Custou e não custou, está quentinho e estamos sempre a falar com a família, por isso as coisas vão passando. Claro que há um momento ou outro que até apetecia estar em casa, com o pai, com a mãe, com a irmã, com a tia, com os vizinhos, mas neste momento não é possível”, confessa.
“Estou aqui, consigo fazer muito bem essa gestão. Volta e meia tenho saudades de Lousada, gosto muito de Lousada, é a minha vila, onde nasci e cresci”, revela, assegurando que não é “aquela pessoa saudosa que queria muito estar em Lousada, se estivesse lá agora o que estaria a fazer, não vou por aí. Quando estou lá vivo mesmo, quando estou cá tento aproveitar o melhor que este país me está a dar”.
É nas pausas letivas que aproveita para visitar a família, no Natal, na Páscoa e nas férias grandes, em agosto, para viajar por África e conhecer novas cidades. Neste momento de pandemia, está mais limitada e tenta “não pôr em risco nem a mim nem a minha família, opto por ficar aqui”. Numa altura normal, visita Lousada três a quatro vezes por ano.
“A minha vida sempre foi em Lousada, só quando ia viajar ou estudar é que saía um bocadinho do centro. Fora isso, a minha vida passa muito pela vila. É uma vila acolhedora, eu gosto, tenho muito bons amigos em Lousada, tenho a minha família praticamente toda em Lousada, gosto muito de Lousada”, relata.
“Gosto muito da minha vila, que é pequeníssima e toda a gente se conhece, toda a gente sabe quem é quem e sejam felizes, acima de tudo. Amem-se uns aos outros, que o amor ainda pode salvar qualquer coisa.”
A professora aproveita para deixar uma mensagem de força e coragem a todos os lousadenses, “que se aguentem”, pois acredita que “já devemos estar próximos de um fim”. “Não está a ser fácil para a minha família, para todas as famílias lousadenses, e não só, as pessoas têm na mesma as suas contas para pagar, têm na mesma toda a sua vida para fazer e estar confinados numa segunda ou terceira vez não está propriamente fácil”, alerta.
Em Angola, apesar de se sentir a situação pandémica, nunca foram levantadas as restrições e Joana Ribeiro continua a trabalhar. “Nunca deixei de trabalhar. Estou em meio termo, regime online e regime presencial, ou seja, acabo por não ser tão afetada e não sentir tanto esta situação, mas a verdade é que eu acompanho muito as pessoas da minha terra, acompanho muito o que se está a passar em Portugal e sei que as coisas estão duras para quem quer trabalhar e estão duras para quem quer viver”, lamenta.
Por isso, a professora recomenda: “protejam-se”, lembrando o amor que tem pela vila e pela família. “Gosto muito da minha vila, que é pequeníssima e toda a gente se conhece, toda a gente sabe quem é quem e sejam felizes, acima de tudo. Amem-se uns aos outros, que o amor ainda pode salvar qualquer coisa”, termina.












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