Quando o alarme toca, entram em ação e seguem para cada emergência que são chamados sem pensar duas vezes. Para trás, deixam a família, os amigos, as férias e as saídas. Deixam o conforto das suas casas e partem na incerteza do regresso. Ainda muito jovens, arriscam as suas vidas para salvar as dos outros e responder ao chamamento: ser um soldado da paz.
A cada emergência, a farda pesa cada vez menos aos jovens bombeiros da Corporação de Lousada, que aplicam o seu tempo livre a salvar vidas. Os heróis anónimos da vida real, cresceram à pressa e, ainda muito jovens, Carolina Seabra, 26 anos, e Rafael Santos, 23 anos, ingressaram nos Bombeiros Voluntários de Lousada, há cerca de cinco anos. São ambos voluntários e bombeiros de 3.ª. Sem familiares bombeiros, deram o primeiro passo por vontade própria.
Carolina, sem ter sonhado alguma vez ser bombeira, decidiu arriscar e a experiência transformou-se num vício, tornando-se a única mulher da corporação a ser motorista de pesados. Rafael, com a vontade de se formar em enfermagem, viu nos bombeiros uma forma de perceber aquilo com que ia lidar no futuro, tendo a possibilidade de ganhar mais experiência.
Em casa, ficam os familiares e amigos a quem, inevitavelmente, vai crescendo um sentimento de receio e ansiedade por os verem partir. “Há sempre um receio de acontecer alguma coisa, mais agora do que quando entrámos, porque começam a ter noção de que ficamos”, afirma Carolina Seabra, estagiária de contabilidade.
Para Rafael Santos, estudante de enfermagem, “é sempre complicado, somos jovens e na altura víamos os amigos a convidar-nos para sair e não podíamos ir, porque tínhamos um compromisso. Apesar de sermos novos, se nos envolvemos nisto temos de ir até ao fim e não desistir”.
Em cada saída, sai também o receio. “Por muito que nos digam vai para ali, já lá estiveste, é sempre diferente, as pessoas são sempre diferentes e reagem de forma diferente. É mais complicado quando vamos preparados para uma coisa e quando chegamos lá é outra”, explica a bombeira.
Carolina, em 2016, e Rafael, em 2017, começaram a fazer saídas como segundo elemento, que se tornou “uma responsabilidade maior. Quando se sai como segundo elemento já se sente mais adrenalina, mais medo de errar, mas depois disso vamos acumulando saídas e vamo-nos adaptando às diferentes situações”, expressa Rafael.
A incerteza de cada emergência
Na incerteza de cada emergência pode, por vezes, estar um familiar, um amigo, um vizinho. Embora nunca tenha acontecido com familiares diretos, Carolina revela que não há forma de lidar: “uma pessoa acaba por se culpar, porque questiona-se ‘será que fizemos tudo?’, ‘será que podia ter feito mais?’. É o mesmo quando temos uma pessoa da família que está a passar por uma fase má, vimos para o serviço a pensar que o telefone pode tocar e somos nós que arrancamos, não é fácil”.
“Uma pessoa acaba por se culpar, porque questiona-se ‘será que fizemos tudo?’, ‘será que podia ter feito mais?.” – Carolina Seabra
“Tentamos fazer o melhor, mas torna-se complicado passar pela situação”, reflete o bombeiro, acrescentando: “quando lidamos com a primeira morte, claro que ficamos angustiados e ficamos a pensar naquilo que fizemos, mas depois vamos ganhando mais conhecimento. Mas nunca é fácil lidar com a morte, principalmente com os familiares por perto”.

Emergência após emergência, as suas vidas vão mudando e a sua perceção do mundo fica, forçosamente, diferente. “Principalmente quando lidamos com idosos, notamos que há pessoas que não têm as condições básicas de vida. Isso marca-nos e começamos a ver que todos vamos passar por aquilo, aprendemos dia a dia”, confessa Carolina.
“Ficamos pessoas mais sensíveis às coisas, mais sensibilizados para pormenores que nunca iria prestar atenção se não fosse bombeira”, expressa. Também Rafael partilha da mesma opinião, “damos mais valor à vida e às pequenas coisas que não nos apercebíamos, vamos apercebendo ao longo do tempo e vemos o que realmente nos faz falta”.
Crescer à pressa
Com viaturas à sua responsabilidade, o peso da farda e a missão de salvar vidas, os jovens foram obrigados a crescer mais rápido do que qualquer outro da sua idade. “Estamos a lidar com vidas de pessoas, há momentos para trabalhar e momentos para brincar, tivemos de fazer essa separação muito cedo”, expressa Rafael.
“Estamos a lidar com vidas de pessoas, há momentos para trabalhar e momentos para brincar, tivemos de fazer essa separação muito cedo.” – Rafael Santos
Apesar da causa que representam, os jovens admitem já terem sido de alguma forma julgados pela sociedade, principalmente, “por ser mulher”, sente Carolina, acrescentando: “por ser mulher julgam que não temos tanta força e outras situações semelhantes, mas por sermos jovens também”.
“Por vezes, as pessoas olham para um jovem que está a lidar com uma vida e nem sempre é fácil para eles perceberem. Principalmente quando falamos na morte, torna-se complicado, porque é o tentar atirar as culpas, sem uma pessoa ter qualquer culpa”, lamenta Rafael.

Se são felizes a ajudar os outros, Carolina e Rafael não hesitam na resposta: é um sim. “Por muito que uma pessoa saia cansada, saia chateada pelas situações em que não há um ‘obrigada’, há sempre uma satisfação quando saímos, porque sabemos que estamos a dar o nosso melhor e isso ninguém nos pode tirar”, assegura a jovem.
“Isto para mim é uma segunda família. Criei aqui as melhores amizades que tenho neste momento e passamos bons momentos, apesar daquelas alturas mais críticas como os incêndios”, confessa o bombeiro.
Quanto a outros jovens que queiram ser um soldado da paz, Carolina esclarece que “não é preciso ter ninguém na família para vir para cá, não é preciso ter ambição, se tiverem o gosto, venham. Se não aguentarem, não são obrigados a ficar. Se aguentarem, vão gostar”.
Rafael acredita que faltam novos bombeiros para não serem “cada vez menos” e deixa o convite a quem tenha um espírito voluntário. “Precisamos cada vez mais de estagiários para não ficarmos cada vez menos. Mas vir para bombeiro é preciso ter gosto, vir contrariado nunca vai dar resultado. A pessoa tem de ter o espírito de gostar disto”, termina.












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