Elisa Pinto: Uma mulher de armas

A única mulher presidente de junta no concelho de Lousada

Natural de Cinfães do Douro, uma vila portuguesa no distrito de Viseu, pelo amor de uma vida rumou até à Vila de Aparecida, em Lousada, onde permanece há 25 anos. Habituada a lidar com números desde cedo – contabilista de profissão – foi junto ao povo que se encontrou. Com início em 2013, Elisa é a presidente da Junta de Freguesia do Torno, encontrando-se no último mandato. A autarca, falou sem medos, sobre a sua história. 

Nascida numa vila da Região Centro no lugar de Bouças, em Cinfães, Elisa quando interrogada acerca da sua infância, afirma firmemente que a mesma seria diferente se habitasse no Torno – popularmente conhecido por Aparecida – devido às diferenças abismais entre ambas as terras. “Não é só o rio que separa, são tantas outras coisas como as infraestruturas”, ressalta. 

Elisa com os irmãos e os pais à porta da casa onde viviam

Contudo, o contraste sentido, não a impediu de ser uma criança muito feliz. Filha de pais agricultores, começou rapidamente a trabalhar no campo antes de ir para a escola. Assume-se uma mulher completa e realizada pois a noção de esforço encontra-se bastante presente na sua pessoa. Os seus progenitores sempre lhe deram a possibilidade de estudar, assim como aconteceu com os seus três irmãos. 

Apesar de conciliar os estudos com o trabalho, Elisa aproveitou toda a ingenuidade e pureza que é característica da infância. A liberdade foi sempre uma premissa na sua vida – ainda hoje – e as brincadeiras e aventuras com os seus primos que residiam na mesma rua nunca faltaram. A Barragem de Carrapatelo, as festas do verão, os ribeiros e os piqueniques farão sempre parte da vida de Elisa, agora com 50 anos. 

“Tudo o que construí com o meu marido foi com muito trabalho”, salienta Elisa. Enquanto frequentava o 12º ano de escolaridade, já trabalhava em Ancede, no concelho de Baião, e todos os dias se levantava às 6 horas da manhã para apanhar o autocarro e às 13h30m voltava para a sua localidade para assistir às aulas. Após terminar o ensino obrigatório, tirou um curso profissional na área de contabilidade. “Na altura, os cursos eram mais complexos e intensos que agora”, sublinha. 

Elisa quando veio morar para Aparecida sentiu uma significativa diferença em relação à aprendizagem. De acordo com a própria, apesar de ser um concelho com mais desenvolvimento, as pessoas faziam apenas o 6º ano e iam logo trabalhar, nomeadamente para as fábricas. Logo, resultava numa melhor qualidade de vida graças ao trabalho, porém com poucos estudos. 

Namorou 7 anos com o homem da sua vida quando ainda habitava em Cinfães e, posteriormente, o amor resultou no casamento que perdura até hoje. Durante esse período da sua vida, trabalhou no concelho de Baião no domínio da contabilidade. De intermináveis idas e vindas, Elisa mudou-se para a vila de Aparecida na qual o seu marido é natural, mais concretamente para o Torno onde acabou por abrir uma agência de contabilidade. 

Elisa e o seu marido

Após 25 anos da abertura da sua empresa, que coincide com a altura da sua chegada, Elisa decidiu vendê-la pois tinha três trabalhos ao seu encargo, o que se tornou saturante. A partir desse momento, dedicou-se ao negócio do seu cônjuge, onde se mantém como secretária administrativa. 

Elisa é há 8 anos a presidente da Junta de Freguesia do Torno e, se hoje desempenha este cargo com o maior orgulho, na época do convite as incertezas eram muitas. O seu sogro sempre fez parte da Assembleia de Freguesia na qual dirige, mas após descobrir um cancro no pâncreas – já num estado avançado – acabou por falecer muito repentinamente. 

Na altura do infeliz acontecimento, o então presidente da Junta propôs que Elisa substituísse o seu sogro. Ciente que a substituição não era o seu objetivo, apenas aceitou fazer parte para dar continuidade ao legado da família do seu marido, que já vinha desde há muitos anos. “Eu disse que sim para honrar o meu sogro”, declara. 

Elisa nunca tinha sido militante de partido nenhum e nem sequer pensou que um dia o seu futuro passasse pela política, porém o inesperado aconteceu. Preliminarmente, foi tesoureira e após um tempo convidaram-na para presidente da Junta de Freguesia do Torno. A surpresa e o receio no momento da invitação fizeram parte, mas esses sentimentos foram ultrapassados no momento em que foi eleita em 2013. 

Ao longo destes 8 anos, foi nomeada várias vezes para o cargo. Para Elisa, a vitória é sinónimo de concretização e confiança. “É uma grande satisfação saber que as pessoas confiaram em mim e na minha equipa pois é sinal que cumprimos com as expectativas depositadas”, evidencia. A mentira nunca fez parte de si e jamais mente ao seu povo pois, na maior parte das vezes, está dependente da decisão de superiores. 

“O meu executivo é espetacular”, afirma Elisa. O nome, Alcides Filipe e Vitor, são mencionados por esta que enaltece a dedicação que os mesmos depositam no Torno. A autarca não considera que uma Junta seja uma empresa – ao contrário de certas pessoas – mas um servo do povo. O saber gerir é primordial para que o orçamento nunca fique a “vermelho” e além disso, o saber ouvir e o saber ser uma pessoa correta e justa são os aspetos que considera essenciais para representar os cidadãos. 

Executivo da Junta de Freguesia do Torno

Atualmente, encontra-se no último mandato, e conforme afirma não se encontra triste pois considera que existe solução para tudo na vida. “Tenho pessoas bastante profissionais e competentes ao meu lado que poderão apresentar as suas opções ou até outras”, sublinha. Numa espécie de comparação, a política é como o futebol, a carreira acaba e cada um segue a sua vida. 

A “comandante” do Torno tem como objetivo cumprir sempre com a palavra e considera que os habitantes da freguesia são bastante pacíficos. “Uma das coisas que me dá mais prazer e valorizo é as crianças reconhecerem-me”, confidencia Elisa que adora todos os mimos que estas lhe oferecem. 

Elisa acredita que é igual a importância do facto de ser a única pessoa do género feminino à frente de uma junta na vila de Lousada, no entanto acha que deveria haver mais devido às peculiaridades que este gênero possui. Todas as mulheres são guerreiras por natureza, conseguem ter a força de uma violenta tempestade e são capazes de ir até ao fim por aquilo em que acreditam. 

Atualmente, o mundo assiste ao estalar de uma guerra e Elisa não duvida que se houvesse mais mulheres a governar o país, inclusive se a Rússia fosse governada por uma, o momento que hoje se vive não existiria. “A sensibilidade era outra”, remata. 

“Cada vez mais, as mulheres estão a ganhar terreno em cargos superiores”, declara. Elisa acredita que será uma tendência e fica bastante orgulhosa, porém uma das situações que a entristece e merece a atenção de todos é a desigualdade salarial. As mulheres continuam, inaceitavelmente, a receber salários, em média, mais baixos. 

Todavia, apesar deste tema merecer cuidado, Elisa não hesita em afirmar que nunca sentiu descriminação alguma por parte dos seus colegas. “Existe um respeito mútuo e todos são bastante queridos e prestáveis comigo”, ressalta. Ademais, acredita que para se combater várias lacunas existentes na sociedade a educação é o meio para tal. Segundo a própria, o conhecimento e a saúde são os bens mais ricos de uma nação. 

No meio da vida agitada, Elisa é mãe de duas meninas, a mais velha com 24 anos e a mais nova com 19 anos, na qual nutre uma vaidade sem dimensão. “Sou a favor que devemos dar tudo aos nossos filhos, mas é importante ter presente que existem direitos e deveres”, sublinha. 

Interrogada sobre qual o maior desafio que já encontrou na sua vida pessoal, assim como profissional, a autarca refere que foi o conseguir conjugar todas as tarefas. E, na fase inicial de conciliação, o apoio do seu núcleo familiar foi imprescindível nos momentos bons, mas sobretudo nos menos bons. “Há uma entreajuda muito grande lá em casa”, realça. 

Por detrás da presidente dedicada, existe uma mulher que gosta de verdade das pessoas, que ajuda e protege não só os seus – família e amigos -, mas também o povo da sua estimada freguesia. Porém, a traição e hipocrisia não entram no dicionário de Elisa que não se deixa rodear por quem toma esses valores como princípio. 

“Gosto muito de sair com as amigas, de fazer convívios em casa, de andar no quintal, de fazer festas, entre tantas outras coisas”, conclui Elisa mostrando o seu lado mais social. 

Elisa com as suas duas filhas

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