Telmo Carvalho: A criatividade num Ser

O ato de criar está na minha génese.”

Natural de Nogueira, freguesia portuguesa do concelho de Lousada, o cidadão desta edição descreve-se como pacato. Faz do anonimato o seu cartão de visita, porém, ao longo dos seus 57 anos de existência é merecedor que se aborde a sua história de vida. Da Indústria Petroquímica transitou para o Design Industrial e, desde 2000, leciona no Ensino Superior. Muitos encargos se poderiam enumerar, mas pertencer à génese da formação da Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD) é um dos feitos mais importantes. Acompanhe esta entrevista cheia de criatividade. 

A entrevista com o designer teve lugar na sua casa em Nogueira. A conversa teve início às 17h, durante a qual, à volta do seu escritório, falou-se sobre a sua vida profissional, académica e pessoal. “Nasci e cresci em Lousada”, principia Telmo. A sua infância foi passada na Vila, contudo o mesmo não se afigura dos seus primeiros tempos de escola. 

Até à 3º classe esteve longe do seu “berço”, mas, entretanto, regressou e completou o ciclo. Após a conclusão deste, frequentou o liceu em Felgueiras e o colégio de Amarante onde deu por concluído o 12º ano de escolaridade. Terminada esta fase ingressou no serviço militar obrigatório e, de chegada, começou a trabalhar na conceituada Refinaria do Porto. 

À data a sua pretensão era ganhar dinheiro e assim o fez, contudo na Indústria Petroquímica trabalhava por turnos o que lhe facultava imenso tempo livre. Caracterizado pela sua inconformidade por rotinas e pelo seu desejo de saber mais… decidiu ir estudar. Esta determinação de abraçar um novo e grande desafio resultou da sua já autonomia financeira, visto que trabalhava numa empresa fiável. 

“Queria outras experiências e aos 25 anos tomei a decisão”, declara. Foram oito anos de um percurso académico linear marcado pelo estatuto de trabalhador-estudante. Derivado deste, hoje entende de melhor forma as vicissitudes de todos os discentes que conciliam as duas vertentes. Considera ter sido uma ótima experiência apesar das dificuldades. 

Viveu a sua juventude como qualquer outra pessoa, isto é, vivenciou tudo aquilo que pretendeu e que é habitual na idade. O facto de conciliar o estudo com o trabalho não o impediu de aproveitar todos os momentos, contudo primou sempre pelo método e pela organização. “Existem horas para tudo”, reforça. 

Inicialmente, frequentou um Bacharelato em Desenho Artístico na Escola Superior Artística do Porto (ESAP). Após este, licenciou-se na Escola Superior Artes e Design (ESAD – Matosinhos) em Design Industrial.  Telmo confessa que jamais se arrepende da sua decisão, na medida em que escolheu uma área que sempre gostou. O bichinho das esferas criativas sempre esteve presente. “Sou muito convicto nas minhas decisões pois são tomadas de forma ponderada e com noção do risco”, confessa. 

Às vezes os anseios saem defraudados, mas não foi o caso. A licenciatura cumpriu com as suas expectativas iniciais, apesar de reconhecer que a área do design industrial é uma área emergente, à data, era pouco conhecida do domínio público. Aliás, afirma que na época causava uma certa estranheza aos demais que não sabiam bem  o que era esta atividade, felizmente que hoje o design industrial está completamente legitimado e instituído como uma profissão.  

Completado os quatro anos e com o objetivo de prosseguir estudos avançados, Telmo frequentou dois mestrados: Design e Marketing na Universidade do Minho e Design Industrial na Faculdade de Engenharia do Porto. Em 2016 obteve o Título de Especialista em Design. 

“O ato de criar está na minha génese”, afirma quando questionado do que o levou a enveredar neste caminho. O lousadense é apaixonado pelos desafios que a profissão lhe traz e refere que a visão dos designers é um pouco mais acutilante. Estes, hoje em dia, têm uma responsabilidade muito importante e impactante na forma como vivemos o nosso dia a dia, porque estão a desenvolver as experiências e as interações futuras da nossa vida quotidiana, um dos seus grandes objetivos é torná-la mais agradável e mais inclusiva.  

Corria o ano de 2000 quando surgiu a oportunidade de lecionar no Ensino Superior e Telmo fez essa opção. Segundo o próprio, para trás deixou um percurso interessante junto de uma grande empresa. Atualmente conta com 22 anos de experiência no Ensino Superior, e sente-se completamente feliz e realizado.

O lousadense foi Vice-presidente da Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD) de 2017 a 2019. Todavia, é preciso contar a história até chegar aqui. Quando começou a sua carreira de docente lecionou na Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG), em Vila de Conde, pertencente ao Instituto Politécnico do Porto. O verbo encontra-se no passado, uma vez que, esta deixou de existir derivado à reformulação da oferta formativa do IPP em 2016. “No meu ponto de vista, foi uma decisão marcante, pois implementou um modelo de gestão em toda a sua estrutura que resultou num reforço da sua posição de liderança nas escolhas dos novos estudantes do ensino superior, tornando-se desde há cinco anos para cá a quarta instituição de ensino superior, a nível nacional,  com mais vagas e com mais estudantes colocados”, sublinha.

Tomada de posse com vice-presidente da ESMAD 8 de novembro 2017

A ESEIG acabou e muitos cursos migraram para as respetivas escolas de origem. A partir de então, foi criada no mesmo edifício em Vila de Conde duas novas escolas: a Escola Superior de Hotelaria e Turismo e a Escola Superior de Media Artes e Design. Telmo está na génese da criação desta última, juntamente com mais cinco docentes que integraram a comissão instaladora. “Há coisas que são marcantes na nossa vida profissional e para mim este foi um grande feito. Contudo, houve outras bastante gratificantes como ser o responsável pela criação da primeira pós-graduação em Design de Mobiliário em Portugal em 2012, da qual foi seu coordenador, mas também ter feito parte da equipa de criação da Porto Design Factory em parceria com a conceituada Aalto Design Factory da Finlândia, um laboratório de ideias com base no trabalho interdisciplinar, na investigação aplicada e na colaboração industrial”, confessa. 

A 8 de novembro de 2017 tomou posse como Vice-presidente da Escola Superior de Media Artes e Design do Politécnico do Porto. Findo o seu mandado, regressa ao cargo de coordenador do Curso de Licenciatura em Design e coordenador do Curso Técnico Superior Profissional em Design de Mobiliário e Espaços. É Vice -Diretor do Departamento de Design da ESMAD. Além destes cargos integra o Conselho Técnico e Científico da ESMAD, o Conselho Coordenador do Centro de Produção e Recursos da ESMAD, a Comissão de Autoavaliação Docente, entre outros. Pode-se afirmar que são vários os encargos e projetos em que se encontra envolvido.

Interrogado sobre o seu estilo de ensino, de imediato refere que é fruto de uma constante aprendizagem acumulada ao longo de 22 anos de lecionação, o ensino superior tem sofrido profundas mudanças ao longo dos últimos anos, a nível tecnológico, social, e cultural, entre outros, daí haver uma constante necessidade de reformulação dos processos de ensino e aprendizagem, se assim não for qualquer professor arrisca-se a ser mecânico e sistemático. 

Sala de aulas da Pós-graduação em Design de Mobiliário março de 2012

Telmo nos seus tempos livres dedica-se à bricolagem, à pintura, ao desenho, à leitura de um bom livro, gosta de ir a exposições de arte e de design, gosta de cinema, e de cozinhar, entre outras coisas que o complementam. “Tenho muitos hobbies que me entretém”, conta. Por detrás do profissional de mão cheia, encontra-se também um cidadão que cultiva o prazer da companhia da família, dos amigos e a paixão pela música.

A música é uma das suas grandes paixões, desde os seus primeiros tempos de vida. “Em criança sempre tive uma perdição por bateria e comecei onde todos começam, dos mais simples aos mais conhecidos, a bater tachos e panelas lá em casa”, explica. Este hábito barulhento levou-o à carinhosa alcunha dos vizinhos como “O Telminho das Latas”.

Entretanto o seu gosto progrediu e saiu das quatro paredes de casa. Aos 14 anos de idade foi tocar para um conjunto de São Miguel. “Ainda me lembro da primeira vez que toquei ao vivo, em Nespereira, foi bastante marcante”, declara. 

Telmo Carvalho baterista do conjunto BACO – 1982

Em finais da década de 70 em Lousada surgia uma banda chamada BACO, onde a convite de dois dos seus elementos:  Luís Gomes (Ginja) e Manuel Almeida, Telmo Carvalho passou a integrar esta banda. Nessa época, Portugal fervilhava de pequenas bandas de garagem, nos inícios de 80 assistia-se à explosão do rock Português, movimento contagiante ao qual o Baco não foi indiferente. Após um longo período de concertos, acabou por sair da banda, porém, o bichinho manteve-se e regressou. Neste regresso a banda Baco já tinha terminado assim como uma outra banda de Lousada, os Flash. Dado isto, alguns membros destas duas bandas decidiram juntar-se e criaram a banda Alcatrão – Luís Gomes (Ginja), Zé Mário, Rui Mário e Telmo Carvalho).    

Foram vários os concertos como baterista dos Alcatrão, contudo por questões profissionais teve de abandonar  a banda. A música fez parte do seu passado e desengane-se quem ache que não faz também  parte do seu presente. Apesar de ter saído, sempre que pode vai tocar com os velhos amigos e até no trabalho não dispensa esta.   

Conjunto BACO, da esquerda para a Direita – Manuel Almeida, Jorge Afonso, Luís gomes (Ginja), Telmo Carvalho, Albino (Bibi) – 1980

Abrindo as portas do seu mundo pessoal, o lousadense é casado há 26 anos e resultante deste matrimónio é pai de uma filha de 21 anos. A sua mulher é professora do 1º ciclo. Pelo meio da sapiência e criatividade que o distinguem, Telmo Carvalho apresenta-se sempre como um cidadão pacato. 

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